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terça-feira, 11 de outubro de 2011

As maiores cheias de que há memória

As maiores cheias de que há memória no país assim são descritas as que actualmente se vivem na Tailândia.

Para melhor compreender a questão há que entender que existe como que uma bacia natural, para onde grande número de rios confluem, que se situa na província de Ayuthaya, a pouco menos de 100 km a Norte de Bangkok.

Ayuthaya é uma enorme planície onde todas essas águas se juntam e grande parte delas formam o Chão Praya, o rio que banha Bangkok. Ora o Chão Praya corre para o Golfo da Tailândia mas não o consegue fazer quer com a velocidade desejada (o próprio Golfo está com as suas marés bem altas) nem sem que as águas saltem das margens.

Para além disso os terrenos fortemente saturados não conseguem escoar as águas que se vão juntando e acumulando criando imensas albufeiras por todo o centro do país.


As grandes barragens no Norte do país estão por sua vez na capacidade máxima e tiveram de ser aliviadas das suas águas retirando a pressão que o excesso de água pode causar rompendo as barreiras e criando um desastre de proporções inimagináveis.

No Domingo milhões de litros de água foram libertados da barragem Bhumiphom, na província de Tak, aumentando em muito o caudal dos rios que correm para Ayuthaya mas era impossível conter as águas visto a barragem estar praticamente a 100% da sua capacidade.


Os efeitos para a economia nacional são neste momento ainda incertos mas o Banco Central fala em 1% ou mais no PIB neste na. O certo é que existem neste momento inúmeras empresas (e alguns parques industriais) inoperativos afectando não só essas empresas mas a própria cadeia produtiva. A isso acresce o facto da uma das principais vias no país, a estrada nº 1 Norte-Sul, estar encerrada em vários pontos afectando de igual modo a distribuição de produtos. Também muitos trabalhadores se sentiram na obrigação de regressar às suas vilas de origem para ajudar a família a braços com o mesmo problema das cheias.

Governo e oposição têm estado a trabalhar em conjunto, um facto que muito se louva numa país politicamente tão dividido, no sentido de aliviar os problemas diários que se vão encontrando. Os deputados do partido no poder decidiram prescindir de 50% do seu salário para ajuda ás vítimas e por certo os da oposição e de outros partidos coligados seguirão o exemplo. O parlamento alargou de igual modo o montante que os partidos políticos podem atribuir em doações a terceiros.


A PM Yingluck tem estado 24 sobre 24 horas à frente das acções de socorro às vítimas, quer no terreno quer liderando os membros do governo e montou um conselho especial de emergência no aeroporto de Don Muang, a Norte de capital, uma localização mais próxima da realidade que se vive. Esta manhã a zona próxima, Rangsit estava já fortemente afectada e as águas do Chão Praya e todos os canais a ele ligados estão a descer rapidamente sobre Bangkok. Uma fotografia aérea esta manhã mostrada no Bangkok Post dava conta da forma como as zonas orientais e ocidentais da cidade estava já afectadas e os terrenos fortemente alagados. A zona central da cidade, por norma menos sensível a esta questão parece a salvo.

Como já referi o problema das cheias na Tailândia é uma questão que tem muito a ver com a pobre gestão dos recursos hídricos no país.

Todos os anos há nos mesmos locais cheias e secas o que ilustra bem a necessidade de urgentemente olhar para esta questão e tentar encontrar uma solução para o problema.

As visões de curto prazo têm imperado e todos os anos são tomados remédios para uma "dor de barriga quando na realidade o paciente tem uma forte infecção".

Astuto e com o sentido da oportunidade, como sempre, Thaksin dá hoje uma entrevista a um dos principais jornais onde mostra a necessidade de o país avançar com um sistema integrado de gestão dos recursos hídricos e mostra mesmo como ele pode ser feito sem usar grandes verbas e de alguma forma ter ganhos políticos com uma aproximação à China país com larga experiência na matéria. Thaksin, para além da sua astúcia, está a "falar de cátedra" pois em 2005 lançou um conjunto de programas de modernização das infra-estruturas do pais, onde se incluía precisamente a gestão dos recursos hídricos, mas não conseguiu levar por diante a iniciativa devido a ter sido deposto no ano seguinte e desde essa altura nenhum governo se preocupou com esta questão.

É na realidade hora de olhar para o desastre de este ano com olhos de futuro e iniciar os estudos necessários, aproveitando a grande sabedoria do rei rama IX na matéria, para que as cheias e secas não sejam "um facto da vida" mas um excepção num ano mau.

Entretanto para além dos enormes prejuízos a atingir números assustadores, havia a contar até ontem cerca de 270 vidas que se perderam.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Viva a Democracia

As eleições para o Parlamento decorreram ontem num clima de grande responsabilidade cívica por todo o país.

Os incidentes que são conhecidos são de pequena monta e mesmo os famosos cartões vermelhos ou amarelos que poderão vir a ser mostrado aos candidatos pela Comissão Nacional de Eleições são desta vez, de acordo com o porta-voz desta, menos do que no passado.

A Democracia saiu reforçada do acto eleitoral e agora o país tem de olhar para o futuro e pensar como pode um novo governo, que estará em funcionamento no início de Agosto, responder aos grandes desafios que se colocam pela frente.

A maioria do povo, 52,4% votou no partido Pheu Thai liderado por Yingluck Shinawatra que assim será a primeira mulher a assumir o mais alto posto no executivo tailandês. O partido Democrata do PM em exercício Abhisit Vejjajiva obteve 32% dos votos. O resto foi divido por vários partidos mais pequenos com o realce para o Bhum Jai Thai party e o Chart Thai Pattanna que conseguiram 34 e 19 lugares respectivamente.

O governo para os próximos quatro anos (é este sempre a expectativa nos sistemas democráticos) será liderado por um partido que por si só obteve a confiança da maioria do povo tailandês o que tem um importante significado.

Contudo, para reforçar a maioria já alcançada (262 lugares num parlamento de 500 lugares) e até por causa do sistema constitucional onde os Ministros que são em simultâneo Deputados não podem votar em assuntos que lhes dizem respeito o que enfraquece uma maioria, o próximo governo será uma coligação que pelo menos irá contar com os 19 deputados do CTP e os 7 deputados do Phalang Chong. Outros partidos ou facções poderão associar-se.

As negociações para a formação do executivo já começaram e irão ser o tema dos próximos dias.

Quer Yingluck quer Abhisit mostraram dignidade quer na vitória quer na derrota o que augura sinais positivos para o país.

Outro aspecto positivo ontem foi o facto do fugitivo ex PM Thaksin, o homem que ria fantasmas em muitos (e com algum fundamento para tal) ter falado para a TV tailandesa TPBS de uma forma bastante calma e mostrando entender que o "timing" para o seu regresso ao país ainda está longe de ter chegado. Thaksin afirmou que o principal neste momento é satisfazer as necessidads das pessoas no campo económico e avançar no processo de reconciliação dizendo mesmo que a comissão nomeada por Abhisit, com o DR Kanit na Nakhon à cabeça, deveria ser mantida "pois as coisas bem feitas devem continuar e ser apoiadas". Como muitos no país quero acreditar que as suas palavras são genuínas. O tempo o dirá mas contudo Thaksin pareceu, tal qual me havia dito um dos seus próximos durante a campanha, mais maduro e consciente de que se o país não estiver pacificado e no caminho da democracia ele não pode regressar.

Um aspecto altamente negativo foi o facto de todas, repito todas as sondagens feitas á boca das urnas terem errado estrondosamente. Há quatro institutos, respeitáveis entidades, que fazem sondagens há bastante tempo e são sempre esses os pontos de referência para preparar projecções. Claro que os partidos fazem as suas próprias, bem como os militares, mas essas não são públicas. São eles a NIDA (Instituto de Estudos da Administração), a Universidade de Bangkok, Universidade Suan Dusit Rajabhat e a Universidade Assumption (católica). Pois ontem todas erraram de forma nunca vista chegando a ABAC (Assumption) a um erro de 17,7% enquanto as outras se situaram entre 12 e 15%. O normal será margens de erros de até 3% mas por algumas razões que ainda não estão apuradas ontem não foi assim.

No total no país observou-se uma afluência de 76%, dois pontos acima daquilo que se tinha verificado em 2007.É um número muito bom (até tendo em conta os erros que aconteceram nos cadernos eleitorais – o general Chamlong do PAD, põe exemplo, não pode votar pois o seu nome não constava). Isto mostrou o empenho de todos os candidatos no acto e o interesse com que as populações seguiram a campanha e mostraram querer participar nas decisões para o país. Um ponto ainda sem explicação foi o de Udon Thaini, uma província bastante politizada e considerado o principal bastião do Pheu Thai, onde a votação foi estranhamente bastante baixa pois somente 52,1% dos eleitores compareceram.

Pode contudo concluir-se o seguinte: O povo tailandês empenhou-se no acto eleitoral e fez a sua escolha claramente (o partido associado ao ex PM Thaksin ganha pela 4 vez consecutiva e os Democratas perdem pela 6 vez consecutiva). O país tem condições para que seja formado um governo sólido que responda a esse voto maioritário do povo (a coligação que se avizinha terá a legitimidade de cerca de 60% dos votos dos tailandeses). O processo foi no seu essencial claro, transparente e decorreu sem sobressaltos.

Agora resta apoiar o país. Resta respeitar os que venceram e solicitar aos que perderam que sejam uma oposição forte, construtiva e capaz de pensar no país e nos tailandeses.

Como dizia o Professor Thitinan Pongsuthirak há dias "peço a todos, mesmo todos, que deixem o país entrar definitivamente no século XXI e seguir o processo democrático".

Sempre acreditei na DEMOCRACIA e quero continuar assim. Espero também que todos a apoiem deixando para trás os interesses paroquiais.

O povo foi claro no seu voto. Agora compete aos políticos serem também claros e transparentes.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

83 Aniversário do Rei Rama IX

A vida corre calma em Bangkok e as comemorações do 83 aniversário do Rei Rama IX decorreram sem incidentes e com a pompa habitual.

O reverendo monarca deixou uma vez mais o hospital onde se encontra desde Setembro de 2009, a segunda vez num muito curto espaço de tempo, para se dirigir ao Palácio adjacente ao Templo do Buda Esmeralda onde na sala do trono conhecida pelo nome de Amarin Winitchai, recebeu os dignitários e para eles, e para todo o povo através da Televisão, falou durante cerca de 7 minutos deixando uma mensagem simbólica sobre o dever dos tailandeses pensarem nos outros e praticarem o bem colectivo.

Numa altura em que as divisões existentes na sociedade continuam fortes e bem visíveis a mensagem foi bem escolhida já que nenhum grupo, nenhuma cor ou sentido político se pode dela apropriar pois ela é dirigida a todos os tailandeses de todos os cantos do país e sectores da sociedade.

Do ponto de visto da especulação política, que sempre é feita nestes momentos, a aparição do Rei um público foi comparada com a última que aconteceu ao mesmo local, aquando da celebração dos 60 anos do seu casamento. Os principais comentários aparecem relacionados com a forma como a televisão cobriu o acontecimento. Na anterior visita a Rainha era constantemente foco de "clos-ups" e as câmaras focaram os intervenientes principais. Chai Chidchob, o presidente do Parlamento, Abhisit, o PM e o general Anupong, à altura o Chefe do Estado-maior do exército, isto para alem dos outros membros da família real presentes.

Nesta última saída do Rei, em tudo semelhante com a anterior, a Rainha nunca foi focada, aliás foi sempre vista num muito discreto plano, embora se pudesse observar estar mais magra e eventualmente fatigada, (note-se que este é a primeira aparição pública da Rainha desde que saiu do hospital de Chulalongkorn, faz mais de dois meses). Quem mereceu honras de focagens mais de perto foi o Príncipe herdeiro, Chai, Abhisit mas desta vez nem uma imagem do novo, todo-poderoso CEMA, Prayuth Chan-ocha.

Nas ruas acotovelavam-se muitas pessoas ávidas de verem "o seu Rei" e de o saudarem com o habitual "longa vida Majestade". O dia terminou com uma grande manifestação promovida pelo Governo, onde estavam todos os dignitários e funcionários superiores, cerimónia que aconteceu ás 7:29 da noite, uma hora considerada auspiciosa para o Monarca. Nessa festa foram lançados 84.000 balões, um número impressionante e relativo ao início dos 84 anos do Rei altura em que completa o 7º ciclo da sua longa vida.

Até ao final da semana haverá um pouco por todo o país celebrações relativas à ocasião mas já nenhuma mais contará com a presença do Monarca que, por exemplo hoje, se faz representar na recepção ao corpo diplomático pelo herdeiro o Príncipe Vajiralongkorn.

Dois outros eventos agitam também a capital.

As próximas eleições intercalares no próximo Domingo onde a coligação no poder testa a força actual do partido da oposição e a esperada visita de Thaksin Shinawatra, na próxima semana e a convite do Senado americano, a Washington DC, para testemunhar num painel de Direitos Humanos acerca dos acontecimentos recentes na Tailândia. O Ministro Kasit já começou de novo a agitar a questão da extradição do fugitivo ex PM dizendo que o acusador público deveria actuar mas este já disse que isso não era um assunto deles, como se solicitar a extradição de uma pessoa não tenha de ser devido àquele estar acusado de um crime que tal o justifique e portanto necessite de um mandado internacional de captura para tal.

O facto é que a Tailândia nunca solicitou à Interpol a captura do condenado Thaksin, apesar de tal facto ter sido anunciado vezes sem contas pelo MNE Kasit, e será extremamente improvável que o consigam fazer a tempo desta vez, isto para não se referir o mérito ou não dum eventual pedido.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Golpe

Ontem, como já referi, o Bangkok Post fazia uma alargada análise dos quatro anos que se passaram sobre o Golpe de Estado que depôs o governo de Thaksin Shinawatra e concluía que o país ainda estava a calcular os prejuízos causados para a economia e para a democracia.

Interessante ver que passados estes quatro anos a generalidade da comunicação social, incluindo a mais próxima do regime, como o citado periódico e outros, não se coíbem em apontar o dedo aos erros que foram cometidos, não com o golpe em si mas com as acções levadas a cabo na sua sequencia e que ao contrário do propósito anunciado de devolver a democracia ao país ainda criou maiores fricções e divisões como se vem constatando ao longo destes anos de marés amarelas e vermelhas.

Na realidade o golpe de 2006 tinha por objectivo terminar com o regime corrupto e autoritário de Thaksin e restabelecer um regime com respeito pelos direitos democráticos dos cidadãos mas falhou completamente.

Ao fim deste quatro anos Thaksin não foi acusado em mais nada do que abuso de poder e conflito de interesses, quando havia mais do que matéria para o condenar a largos anos atrás das grades e, como no caso vertente em que ele anda fugido, ter matéria legal suficiente para iniciar um processo de extradição. Repare-se que neste último aspecto nunca foi apresentado a nenhum país ou à Interpol, um pedido de extradição, ao contrário de amiúde referido por altas personagens do poder, porque na realidade tal é impossível com as condenações de que Thaksin foi alvo.

O golpe de estado produziu uma Constituição que deveria ser o novo mapa para dinamizar a vida democratica no país mas tem sido o oposto e um terreno de constantes discussões e causador de divisões. Recorde-se que Abhisit anda há mais de um ano a anunciar intenções de rever o texto fundamental, aliás como está escrito no seu programa de governo, mas tal têm-se mostrado impossível e parece a historia do cobertor pequeno demais para tapar os pés e a cabeça. Puxa de um lado há gritos e vice-versa.


O governo actual que era pressuposto ser o governo capaz de impor ordem e o respeito pela lei de modo a que o país evoluísse no sentindo de um maior respeito pelas normas tem tido enormes dificuldades em poder fazer valer os seus pontos de vista e o seu programa.

Veja-se três casos muito recentes onde se mostra que o poder é fluído e existe uma noção de incerteza em tudo. Na realidade existem mais do que um poder.

O caso do traficante de armas russo Viktor Bout. Em Agosto o Supremo Tribunal condenou-o a ser extraditado, tendo mesmo os EEUU enviado um avião para o levar. O caso está de novo envolto em mistérios e ninguém sabe o que é que vai acontecer nem se a sentença vai ou não ser executada.

O caso com a Árábia Saudita: a promoção para um posto no comando superior na Polícia de um general acusado, com julgamento marcado para Novembro, de crime de abducção de um saudita, relevante testemunha no caso do roubo e desaparecimento de um diamante da casa reinante saudita. Os diplomatas sauditas na capital declararam-se estupefactos com o caso, já se reuniram com o MNE Kasit, com Suthep e com o próprio Abhisit sobre o caso mas continuam a dizer que ainda não receberam nenhuma explicação formal sobre o caso e ameaçam fechar a representação na capital. A Arábia Saudita é uma importante fonte de turismo, especialmente no campo da saúde, e também uma fonte importante de receitas de remessas de tailandeses a trabalhar no médio oriente.


O terceiro caso é o da atribuição das licenças móveis de 3ª geração. O processo iniciou-se, apresentaram-se companhias a concurso (a primeira derrota foi não ter aparecido nenhuma companhia estrangeira apesar dos enormes esforços levados a cabo pelo Ministério da Economia), foram aceites os actuais três operadores móveis, fizeram os respectivos depósitos no valor de centenas de milhões de Euros, e quase ao soar do gongo vem o Tribunal Administrativo parar o concurso declarando que a entidade reguladora não tem competência para o realizar. Note-se que a constituição desta entidade vem de 1997 e até agora não foi possível haver consensos sobre a sua constituição fundamentalmente pela pressão feita junto das entidades competentes por parte dos militares que querem continuar a ter o controlo sobre todo o sector de radiodifusão nacional. Abhisit ontem na televisão tentava explicar esta questão mas sem o conseguir.

O poder é actualmente tão fluído e tão volátil que o país muda de direcção com um levíssimo sopro.

Os únicos que ganharam desde 2006 foram as instituições militares. O orçamento do Ministério da Defesa aumentou de 85 para 154 mil milhões de baht comparando o ano fiscal de 2006 e o de 2010 e passará para 170 mil milhões, ou seja o dobro, no próximo orçamento que entra em vigor no dia 1 de Outubro de 2010.

Mais de 100% em quatro anos é obra mas há que notar que a Tailândia é o país no mundo que tem mais oficiais de patente de general em comparação com o número de efectivos nas forças armadas. Actualmente, só no exército há 1.100 oficiais generais!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Thaksin

Amanhã Thaksin e os membros da sua família condenados na decisão do Tribunal para Detentores de Cargos Políticos do passado dia 26, apresentarão recurso da sentença.

Esta instância só permite apresentar recurso caso os condenados mostrarem ter obtido provas adicionais que podem fazer reverter a direcção da sentença. O recurso sobre o mérito ou sobre os fundamentos da sentença não é admitido visto tratar-se de um tribunal especial.

De qualquer modo o "clã" Shinawatra deve entender ter encontrado evidências adicionais e irá apresentar amanhã os seus recursos. O prazo termina no Domingo 28.

Posto isto o Tribunal decidirá sobre se aceita ou não o recurso e no caso de o (s) aceitar irá proceder à sua apreciação e decisão sobre a matéria.

Terminada toda esta tramitação a sentença transitará em julgado e iniciar-se-á o processo de execução da sentença que implicará a atribuição ao estado dos bens confiscados e retorno aos arguidos dos bens libertados. A partir dessa altura poderão iniciar-se, igualmente, todo o tipo de processos criminais e civis julgados necessários em funções de certidões extraídas da sentença e ou do processo inicial.

Como já uma vez referi o processo de colocar os pregos no caixão de Thaksin será então iniciado.

O fugitivo ex PM tem estado silencioso desde o seu regresso ao Dubai e o facto deve-se a que as autoridades dos Emiratos o alertaram para a obrigação de não utilizar o território para lançar actividades políticas contra um estado com o qual os Emiratos mantêm relações diplomáticas. Os cantos no mundo onde se pode esconder e daí manter a pressão sobre os seus apoiantes vão se reduzindo e isso será porventura mais evidente se Thaksin vier a ser condenado em qualquer acção criminal na sequência da condenação do passado dia 26.

Recorde-se que após três anos e meio de ter sido removido do poder pelo golpe de estado de 2006, Thaksin ainda não foi condenado por nenhuma actividade criminal e a única condenação, transitada em julgado, é por conflito de interesses. Este é uma das razões porque a comunidade internacional, e todos os juristas, ficam confundidos quando o Ministro Kasit, continuadamente fala em requerer a extradição do ex PM. Declarações politiqueiras só feitas para consumo interno mas profundamente enganosas. Porque é que nunca se pergunta porque é que a Tailândia não extradita o negociante de armas Victor Bount, em prisão preventiva na cadeia de Klong Prem, quando ele é acusado de crimes pelos Estados Unidos e existe um pedido de extradição emitido pelas competentes autoridades?

Thaksin vai a partir do momento do trânsito em julgado da sentença passar por certo um mau bocado. Até agora tem podido "divertir-se", jogando quer golfe quer à politica, mas os tempos que se aproximam prometem ser mais complexos. Thaksin deveria saber bem e ter a clara consciência de que a única solução que tem é (ou era pois já me parece tarde), ter pedido perdão, aceitar o veredicto da primeira sentença, ir passar uns dias á cadeia, pois por certo seria-lhe concedida liberdade condicional, e participar no processo da mudança política, se assim entendesse, sem ambições de poder.

Thaksin não é nem pode ser parte da solução para as divisões no país. A sua postura a partir do momento em que decidiu ter um caminho contrário quer á prática quer á cultura da sociedade traçou-lhe o destino.

A cultura budista assenta muito em dois conceitos quando se lida com práticas erradas. "Forgive and Forget", ou seja pede desculpa que serás perdoado ou que esqueceremos os teus maus actos.

Thaksin, com a sua teimosia que o levou sempre a nunca ouvir ninguém – tenho um amigo pessoal que trabalhava diariamente com ele e tal confirma – e o convencimento de que o seu poder lhe permitia tudo, foi o seu próprio coveiro. Agora como disse só falta pregar os pregos no caixão.

Ontem ouvi um dos mais influentes membros do governo ter uma visão clara daquilo que é a UDD. Dizia o Ministro: são actualmente três grupos – os thaksinistas, os comunistas e os verdadeiros democratas.

É um facto que assim se passa na UDD e assim normalmente se passa em todos os movimentos frentistas. Até agora quem tem tido a condução dos acontecimentos são os Democratas e aqueles que querem fazer as mudanças pacificamente e de uma forma evolutiva.

É urgente que o governo saiba estender a mão a estes que os liberte dos radicais que os cercam e encontre a (s) plataforma (s) de trabalho para delinear o futuro.

Infelizmente as palavras que ouvi desse Ministro, não são as mais encorajadoras já que quer fazer exactamente o que disse mas através de métodos que se querem ver abolidos, no fim através dos mesmos meios de que acusam a UDD e que têm servido para retirar legitimidade aos actos eleitorais.

Abhisit que é um homem de outros círculos e que sabe aquilo que não se deve fazer, tem a palavra.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Duas questões?

Duas questões relevam da decisão judicial sobre os bens de Thaksin.

O poder dominante no país começou a pregar os últimos pregos no caixão de Thaksin?

O que vai fazer o ex PM acantonado e perto da derrota total?

Depois da decisão de confiscar 46 mil milhões de bath e de concluir que Thaksin violou a lei em dois pontos principais, a não declaração de bens enquanto exercia um cargo público e o abuso desse mesmo cargo para beneficiar as suas empresas com os consequentes prejuízos para o país outras empresas, vão seguir-se uma série de processos cíveis requerendo indemnizações que numa primeira aproximação atinge o valor de 117 mil milhões de bath. De igual modo o Ministério das Finanças irá requerer o pagamento de 12 mil milhões de bath de impostos não pagos. Para além desses processos cíveis procedimentos criminais poderão ser iniciados com as devidas consequências.

O actual PM Abhisit já veio a público para instruir as empresas dependentes do estado e que no entender da decisão judicial foram prejudicadas para que façam prevalecer os seus direitos e o Minsitro das Finanças já fez sabe que irão ser investigados os Administradores dessas mesmas empresas, ao tempo dos factos agora vindos a público. Todas as empresas são do sector de telecomunicações e ontem a bolsa de Bangkok teve uma significativa queda nesse sector.

O sistema Judicial tailandês está disposto a conseguir aquilo que não foi consseguido por outros meios, ou seja a morte política e financeira de Thaksin.

Como vai reagir o ex PM agora que se encontra fortemente acossado e em real perigo de vir a sofrer pedidos de indemnizações que serão muito superiores aos bens que eventualemente detêm, forçando a sua ruptura financeira? Para além desta questão Thaksin irá por certo ser indiciado em vários processos criminais que poderão terminar na condenação, ainda que in absentia, em muitos anos de prisão efectiva.

Parece evidente que não resta ao fugitivo ex PM outra saída que não seja a de lutar de qualquer forma e, utilizando uma linguagem de jogador, “encavar”, para tentar encontrar uma saída do canto onde foi encurralado.

Antes do termo do processo falou-se muito de que negociações estariam em curso no sentido de encontrar uma solução que pudesse ser do agrado de todas as partes e contribuísse para a pacificação no país. Tal rumor parece ter consistência mas o facto é que, se existiram, as negociações falharam já que as partes porventura não conseguiram encontrar o ponto de equilíbrio necessário.

A decisão do Tribunal, se bem que restituiu uma parte a Thaksin, (que muito difícilmente receberá), abriu as portas para aquilo que referi, ou seja colocar os últimos pregos no caixão de Thaksin.

Dizia hoje Nevin, o ex braço direito de Thaksin e que o conhece bem, que este não vai parar e irá incentivar a intensificação das acções dos seus apoiantes já que não lhe resta nenhuma outra alternativa. Segundo Nevin a única possibilidade de Thaksin será a de provocar o regresso ao poder dos seus apoiantes, por qualquer forma, esperando que estes possam aprovar uma lei que o amnistie de todos os crimes.

Estamos perante um cenário de conflito latente e crescente e as acções já iniciadas e programadas quer pela UDD quer pelo Puea Thai são disso um bom exemplo.

Contráriamente ao que muitos julgaram a decisão do passado dia 26 não foi o fim mas o príncipio de uma nova fase neste processo complexo de mudança na sociedade tailandesa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ainda o Julgamento

Dois dias depois do veredicto sobre os bens de Thaksin começam agora a discutir-se de uma forma mais calma, as questões legais em volta do caso e as consequências, também legais, que poderão ocorrer.

A decisão dos Juízes foi práticamente unanime sobre todas as questões em discussão.

Primeiro se Thaksin tinha ou não utilizado esquemas para esconder a real titularidade dos seus bens. Segundo sobre o eventual abuso de poder durante o tempo que esteve à frente do Governo e posteriormente sobre a consfiscação ou não dos bens.

Outra questão que vem agora a público é o conteúdo de alguns depoiamentos contra Thaksin, alguns deles com grande valor, como o do Ex Ministro dos Negócios Estrangeiros, Surakiat, que terá avisado Thaksin repetidamente sobre o caso do empréstimo feito pelo Exim Bank ao Governo da Birmânia para compra de serviços de telecomunicações e que beneficiou directamente as empresas de Thaksin. Esse empréstimo foi concedido em condições mais vantajosas e devido ás pressões do Governo o que é uma clara prática de abuso de poder.

Outros testemunhos são menos importantes e mesmo dificeis de compreender, do ponto de vista juridico, já que são produzidos por pessoas que estiveram envolvidas na investigação e portanto já mostraram o seu ponto de vista de uma forma formal e concertada.

A questão agora mais importante é o conjunto de casos criminais que se poderão seguir devido às decisões e possiveis certidões que deverão vir a ser extraídas do processo que agora terminou.

A comunicação social começa já a criar casos falando-se mesmo que os prejuízos causados por Thaksin ao estado foram de centenas de milhões de milhões de euros e, se assim proseguir, a batalha jurídica vai ser acesa, embora sejam conhecidas as insuficiências e fraquezas do sistema jurídico e legal existente.

Entretanto do ponto de vista político a calma impera no momento sendo esperado para meados do mês alguma reacção dos seus apoiantes da UDD. Esta vai reunir-se por todo o país a partir do dia 5 em Korat, para decidir qual a acção que vão tomar em mais uma "batalha final" na luta contra o governo. Já o PAD anunciava constantemente batalhas finais para derrubar o governo que afinal acabou por cair por força da acção dos Tribunais.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Julgamento

Está a decorrer a leitura da sentença sobre os bens de Thaksin Shinawatra por um Tribunal especial do qual não cabe recurso (!!) e a primeira decisão, que já era de todos esperada, foi de 9-0 ou seja todos os Juízes votaram no mesmo sentido de derrotar o argumento de Thaksin e família de que a investigação e instrucção tinha sido levada a cabo por um entidade, já não existente, e dependente do poder político, não democrático, a AEC, instituída pelos militares só para o efeito em questão.

A segunda decisão foi também desfavorável a Thaksin. Os Juízes decidiram que os bens que estavam em nome de várias pessoas pertenciam na realidade a Thaksin e aqueles eram somente cabeças-de-turco dele. Isto quer dizer que violou o princípio de que um PM em exercício não pode deter interesses em companhias.

E o Tribunal continua a leitura que não deverá estar terminada antes das 9-10 da noite.

Ás 9.35 da noite acabou por ser conhecido o veredícto final que acabou com uma concessão. Da totalidade dos bens de Thaksin Shinawatra cerca de 46.374 milhões de bath foram confiscados e 30.248 milhões restítuidos. O tribunal considerou que estes bens eram pertença da família antes de Thaksin assumir o cargo de PM, mas o argumento para aprender uma fatia significativa foi muito frouxo. O Tribunal alega que Thaksin ganhou com a subida da bolsa e esses ganhos devem ser confiscados embora não tenha provado que as suas empresas ganharam na bolsa mais do que o mercado ou que os outros títulos do sector. Há que lembrar que o grande investimento de Thaksin foram as telecomunicações móveis e que os anos de 2001 a 2006 são exactamente os anos de ouro das empresas deste sector. Thaksin já veio dizer numa transmissão que fez em directo para o país, que se é por culpa dele ser PM que o mercado bolsista sobe o melhor é trazê-lo de volta para ver se a bolsa de Bangkok volta aos seus períodos áureos.

Nessa alocução Thaksin agradeceu aos seus apoiantes o facto de não se terem manifestado junto do tribunal e diz que irá a continuar a lutar sózinho até que a justiça, no seu entender, seja feita.

Já me referi várias vezes à questão do julgamento que considero errado do ponto de vista quer legal quer processoal mas ele está a ser assim.

A parte mais negativa foi o facto do actual PM Abhisit, ter dito ontem, como se soubesse ou tivesse transmitido ordens aos Juízes, que os "camisas vermelhas" não iriam gostar do veredicto.

Tal frase só enfraqueceu ainda mais um sistema judicial onde os Juízes gozam de pouca idependência. Na realidade a maíoria dos Juízes nos Tribunais Superiores actualmente em funções, foi nomeada por um governo não democrático, o do General Surayuth saído do golpe de estado de 2006, e depois de terem sido afastados os que lá estavam, então nomeados pelo anterior parlamento.

No local estiveram mais polícias e militares do que apoiantes do ex PM, que não eram sequer um milhar e todos os que ali estiveram não se manifestram,

Após a decisão interessa agora observar as reacções de ambas as partes mas não me parece ser de temer que algo de violento aconteça embora se saiba que o país continua a caminhar sobre o fio de uma navalha.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Dia do Julgamento

Na próxima Sexta-feira, como já referi, será o julgamento sobre os bens de Thaksin Shinawatra que se encontram congelados no país.

A acusação pede a confiscação desses 76 mil milhões de bath (cerca de 1,7 mil milhões de Euros) e os acusado, Thaksin, a sua ex mulher e os filhos, pedem a absolvição e o levantamente do congelamento dos bens.

Quando Thaksin subiu ao poder, no início do século, as manchetes dos jornais falavam dele como um milionário que tinha decidido entrar na política. Até essa altura acumulou riqueza, da mesma forma que muitos aqui acumulam, sem contestação, e posteriormente, quando no poder, tratou de a fazer crescer, mas já então era dito ser um dos homens mais ricos do país.

Já uma vez me referi que a justiça contra Thaksin começa “pelos pés”, já que ele deveria ser acusado do crime de abuso de poder antes, pois terá sido esse que o levou a acumular a quantidade de bens que tem.

Thaksin contesta que parte do dinheiro era seu já antes de chegar ao poder, e que o restante foi adquirido através de transacções, dos membros da sua família que não ele, legais. É um facto que as operações que foram feitas no conjunto do seu império empresarial foram legais mas tal só aconteceu porque ele fez aprovar leis que servissem os seus interesses. Isso aconteceu porque o sistema democrático era fraco ou inexistente pois Democracia não é só ganhar eleições com mais votos é, essencialmente, exercer o poder dentro do mandado que o povo conferiu e para servir esse mesmo povo, facto que Thaksin terá “esquecido” tão logo se apanhou com uma considerável maioria.

A forma como o julgamento está a ser conduzido só irá dar razão a Thaksin que as decisões contra ele são politicamente motivadas e conduzidas, isto no caso de a decisão ser a da confiscação dos bens.

Desde o golpe, como já antes referi, o sistema judicial só conseguiu condenar Thaksin a um simples caso de conflito de interesses embora seja apelidade de criminoso nos jornais todos os dias. A condenação de que foi alvo não é crime, já que só é crime aquilo que vem defenido no Código de Processo Penal. Este é um dos principios mais básicos do Direito. Teria havido muitas razões para trazer Thaksin para a barra dos tribunais criminais, como o referido e como as milhares de mortes extrajudiciais que aconteceram durante a chamada “guerra contra a droga”, mas o facto é que as investigações nunca levaram a nada.

Agora a tensão sobe para o dia 26 quando os milhóes todos irão a julgamento e o que se fala é sempre do dinheiro e muito pouco de bases e procedimentos legais.

Por outro lado o governo, numa histeria como ontem referia um jornalista do The Nation, tem um plano de defesa para o caso de acontecerem disturbios devido a manifestações dos apoiantesdo ex PM.

A UDD reclama que o plano do governo e dos militares é tão somente um plano para poderem exercer contra o movimento dos “camisas vermelhas” qualquer tipo de acções que entenderem por necessárias para os suprimir e colocar na cadeia os seus líderes.

Repetidamente estes já afirmaram que não se irão manifestar nesse dia pois o problema dos dinheiros de Thaksin não é a razão da luta deles, segundo afirmam. Haverá por certo apoiantes do ex PM que manifestarão o seu apoio a ele mas irão fazê-lo a título pessoal, continua a afirmar a direcção da UDD. Estes mesmos convocaram a comunicação social e quem entender querer ir para um jantar às 6 da tarde de Sexta-feira, num restaurante em Lad Prao 20, onde se possa discutir a decisão do tribunal, isto à volta de umas cervejas e um bom som tam.

De qualquer maneira o país vive caminhando sobre gelo muito fino e qualquer movimento errado pode levar a uma queda. Esse perigo existe e os acontecimentos de Abril passado onde a direcção da UDD foi impotente perante as infiltrações de agitadores e os actos dos seus próprios militantes, levanta a questão de saber se isso não irá acontecer de novo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Thaksin e a Justiça


Já por várias vezes falei do sistema de justiça tailandês, fundamentalmente criticando a sua ineficácia e morosidade.

Só lembrando um milésimo dos casos mais recentes: Santika, a discoteca que ardeu causando dezenas de mortos; a ocupação dos aeroportos que causaram milhões de milhões de prejuízos ao pais; o ataque à cimeira da ASEAN, que fez o pais perder credibilidade internacional, já tão afectada; a tentativa de assassinato do líder amarelo Sondhi L.; etc,.

Está agora chegado o dia do grande julgamento, o julgamento sobre os bens de Thaksin Shinawatra que se encontram confiscados desde o golpe de estado de 19 de Setembro de 2006.

No próximo dia 26 o secção do Supremo Tribunal de Justiça especial para julgar casos envolvendo detentores de cargos políticos, instancia da qual não há apelo, irá decidir, se não adiar uma vez mais como o já fez por bastantes vezes, qual o destino a dar aos cerca de 1,5 mil milhões de Euros que se encontram custodiados em bancos tailandeses.

É de crer que desta vez o julgamento irá para a frente e portanto haverá uma decisão já que o pais está preparado psicologicamente para que tal aconteça.

É espectável que a confiscação dos bens aconteça mas existem argumentos para que seja feita na totalidade ou somente em parte alegando-se neste caso que Thaksin antes de ter subido ao poder já tinha adquirido parte considerável da sua fortuna.

Deixemos ao tribunal a tarefa de decidir e ao povo tailandês a de aceitar o veredicto seja ele qual for.

O que me interessa hoje é voltar à questão das deficiências nos sistemas de investigação, judicial e processual no pais.

Thaksin vai de novo a julgamento por uma causa errada se bem que uma condenação neste caso possa desencadear um processo criminal que há muito já deveria ter acontecido.

Neste momento Thaksin está fugido do pais por ter sido condenado por “conflito de interesses” num caso demasiadamente dúbio. A sua mulher comprou um terreno pertencente a um fundo de investimentos gerido pelo Banco Central. Como era casada o marido, neste caso o PM, tinha de assinar, também, os documentos da compra. A senhora foi ilibada de qualquer violação de direitos, aceitando-se assim que ela comprou os terrenos sem violar a lei, mas o marido, ao apor a sua assinatura entrou em conflito de interesses visto o Banco Central estar dependente dele! Desde quando é que os Bancos Centrais estão dependentes do poder politico? Como é que na mesma transacção uma parte é ilibada e a outra é acusada?

A conclusão foi a de que Thaksin por apor a sua assinatura “apanhou” dois anos de prisão efectiva. Para não servir tal sentença resolveu fugir do pais. O poder politico ameaçou centenas e vezes que iria pedir a sua extradição mas só o fizeram muito recentemente quando o fugitivo entrou no Camboja.

No dia 26 mais uma vez o que vai a julgamento, do ponto de vista processual, são os bens de Thaksin, sempre um assunto tão querido num pais onde o dinheiro toma sempre o lugar de honra. Parece-me que mais uma vez o que está em questão é errado.

O que se deveria julgar, para alem dos crimes contra a humanidade cometidos por Thaksin, na guerra contra a droga, no combate aos povos do Sul do país e outros, era o abuso de poder prática comum durante os seus anos no poder.

As operações que estão em julgamento e que levaram ao excessivo enriquecimento de Thaksin são na sua generalidade legais. Isto acontece em todos os estados em que as instituições são fracas ou corruptas. O poder politico aproveitando-se da situação legisla não em proveito do pais mas em proveito dos interesses privados próprios ou de grupos. Quantas vezes já vimos isto pelo mundo fora?

Assim fez Thaksin. Utilizou o poder de que estava democrática e legalmente investido para, através da aprovação de textos legais, nunca rebatidos quer nos tribunais quer no Parlamento devido à sua fraqueza politica, para seu proveito pessoal. O locupletamento não é uma causa mas uma consequência de uma prática criminal ou no mínimo dolosa, e portanto o que deveria estar em julgamento eram os seus anos no poder e a forma como utilizou esse poder para si, sua família e as suas empresas.

A investigação e o sistema de justiça é tão pouco eficiente que há dois ou três dias a caravana do PM Abhisit, foi por duas vezes “atacada” por dois carros que tentaram intrometer-se nela sendo que um deles quase que chocou com o caro oficial, e até agora nem sequer foram chamados para interrogatório os condutores sendo que as viaturas estão identificadas. Como é óbvio casos destes, e as acções ou falta delas consequentes, levantam logo a dúvida se na realidade isso aconteceu, se foi feito pela própria “entourage” ou seja se foi só um golpe de propaganda, como tem havido vários nos últimos dias, tendente a criar um clima propício a que as forças de ordem, que montaram postos de controlo por toda a capital, possam intervir contra os camisas vermelhas que alegadamente estarão a preparar o “ataque final” para o tal dia 26, coisa que já formalmente desmentiram dizendo que nem sequer se irão manifestar junto do Tribunal.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Ano do Tigre

Na caminhada para o dia 26 de Fevereiro, o dia do julgamento sobre os bens da familia Shinawatra, os boatos e contra boatos vão crescendo mas os militares parecem levar a sério as ameaças de que os “vermelhos” farão marchar sobre a capital mais de 1 milhão de apoiantes do ex PM, e começaram já, activamente, a prepararem-se para essa possível mega manifestação.

Existem movimentos de militares em grande número das províncias do país fundamentalmente naquelas que são mais afectas a Thaksin. Por outro lado têm acontecido várias prisões, sem razão aparente, de activistas anti-regime nulgumas universadades da província sendo mesmo alguns professores acusados do crime de lese-majesté, a arma mais utilizada pelos sectores mais conservadores do poder.

Abhisit está só já que quem tomou neste momento a condução das mais variadas operações foram os militares. Estes mantêm-se leais ao General Anupong embora existam algumas vozes contrárias vindas de sectores que pretendem o diálogo e não a confrontação.

Anupong também não será um apoiante de qualquer intervenção, já que conhece bem que o povo não acolherá tal facto tão bem como aconteceu em 2006, mas existem por vezes pressões que mesmo ele, o homem que controla as armas, não pode resistir.

Thaksin, sabe bem que, embora a sua defesa pareça sólida, não tem hipótese de ganhar. Terá enviado largas somas de dinheiro para financiar as movimentações que poderão ser a sua última opção. Neste particular os opositores do fugitivo ex PM acusam-no de financiar os seus apoiantes mas nunca se lembram de falar do financiamento, parte dele com o dinheiro dos contribuintes, que é dado aos seus opositores.

A capacidade de conseguir ser independente neste diálogo é nula, logo prejudicial.

Os dias que se vão seguir poderão dar algumas indicações sobre o evoluir da situação mas a intransigência das partes não é propícia a soluções de paz.

Entretanto vai começar o ano do Tigre. Para esta situação espera-se que seja um tigre sem dentes.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Hun Sen vs Abhisit

Como já muitas vezes referi as relações entre o Camboja e a Tailândia ao longo dos séculos nunca foram boas embora a história e a cultura dos dois povos se misture em muitos aspectos.

Desde a crise de meados 2008 quando o Camboja decidiu requerer à UNESCO a classificação do templo de Preah Vihearn como património da humanidade, facto que levou à queda do Ministro dos Negócios Estrangeiros tailandês, que a tensão se agravou.

Houve algumas trocas de tiros na fronteira, aliás o que acontece ocasionalmente quando há intrusões territoriais, facto quase que natural numa fronteira mal demarcada, acabarm por morrer duas dezenas de militares de cada lado, o templo acabou por ser fechado ao turismo, houve confrontações entre os residentes do local e manifestantes do PAD, que tomaram esta disputa como um caso de soberania nacional ameaçada, etc.

Existem mais de 800 quilómetros de fronteira irregularmente demarcados e para tentar resolver essa disputa existe uma comissão conjunta que nunca conseguiu passar do primeiro ponto da agenda que é a denominação dos locais, que embora pareça ser igual se escreve diferentemente em thai e em khmer.

De qualquer forma as disputas occoridas desde 2008 sempre foram mais provocadas por desígnios políticos internos do que por reais questões àcerca do problema. Como referi no início, esta situação existe, pode dizer-se há 13 séculos, e as populações e os países sempre assim viveram. As relações pessoais trans-fronteiriças são as da melhor vizinhança existindo famílias que se constituem com membros de um e de outro lado já que na realidade eles não são tailandeses ou cambojanos mas locais que falam a mesma língua, comem a mesma comida, sofrem as mesmas alegrias e tristezas e veneram os mesmos credos.

O assunto estava em banho maria já que havia outros mais importantes para que as forças em disputa na Tailândia se preocupassem com as relações na fronteira.

Contudo recentemente o Rei do Camboja decidiu, a pedido do seu Primeiro Ministro Hun Sen, nomear Thaksin Shinawatra como conselheiro económico do país e tudo voltou a aquecer. Desde esse momento as reacções foram crescendo de tom: houve chamada de Embaixadores com a consequente diminuição do estatudo das representações diplomáticas, acusações de um lado e de outro, etc. Do lado cambojano Hun Sen não esquece que o Ministro Kasit o acusou de ladrão da terra tailandesa quando militava no PAD e no auge da campanha nacionalista levada a cabo pelos “amarelos”. Do lado tailandês não se esquece a nomeação de Thaksin e o acolhimento que a este é dado cada vez que pôe os pés no país vizinho.

Este fim de semana Hun Sem decidiu ir visitar na região fronteiriça os templo de Preah Vihearn e Ta Muan Thom, um outro templo situado noutra zona em disputa mas “de facto” em território tailandês (província de Surin).

A tensão avolumou-se, as tropas estiveram em alerta, embora os militares continuem a tentar manter-se afastados desta polémica que é essencialmente desencadada por necessidades das politicas domésticas, mas tudo parecia ir acabar calmo. Contudo as deslocações não foram exactamente de acordo com a agenda de Hun Sem e ele decidiu falar dizendo aquilo que era impensável. O sempre conciliador Suthep disse que Hun Sem estaria furioso por não ter conseguido fazer as visitas como queria e foi essa a razão.

Foram as seguintes as afirmações que fez:

“Você (Abhisit) é um ladrão que roubou o poder. Se não acredita no que digo então convoque eleições e verá o resultado”. “ Se vier dizer que o exército tailandês não invadiu o Camboja em 15 de Julho de 2008 só espero que todas os demónios e males (que ttenha um acidente de carro, que o avião em que ele e a família viagem caía, que parta o pescoço, etc) caiam sobre si”. “Os tailandeses não só invadiram o meu país como distoceram a história chamando nomes errados a Preah Vihearn”. “Eu quero dizer ao povo tailandês que nunca antes o país esteve tão dividido a não ser desde que Abhisit é PM. As relações com os países estrangeiros são péssimas”. “Você utilizou os “amarelos” para fazer um golpe de estado e conseguir o poder”. “ Se eu uso ou não fardamenta militar (Hun Sen apresentou-se com a sua mulher ambos vestindo camuflados) não é um assunto que lhe diga respeito”

Abhisit com alguma elegância, hoje, respondeu que não tinha medo das maldições lançadas por Hun Sem e que o que o preocupava era verificar se não havia violações do território tailandês. Mesmo assim à cautela lá recebeu um amuleto que um monge de Roi Et lhe foi levar ao gabinete.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Besta encurralada, Besta assanhada


Nos últimos tempos o tema dominante é a grande dúvida Shakespeariana há golpe ou não há golpe.

Desde à cerca de três semanas que tem acontecido, um pouco por todo o país, uma constante movimentação de efctivos e equipamento militar de uma unidade para outra naquilo que parece ser uma reorganização da presença de efectivos e material nas várias unidades aquarteladas.

Segundo o porta-voz do Governo, Panitan Wattanayagorn, cerca de 20.000 militares serão colocados em alerta por todo o país; 13.300 no nordeste (área predominantemente thaksiniana), e 6.500 em Bangkok. À volta da capital serão organizados cerca de 200 pontos de controlo de entradas e de movimentos. De acordo com Panitan o número final de efectivos poderá chegar aos 35.000.

A UDD e o Puea Thai já vieram afirmar, e desmentir ao mesmo tempo, afirmações de que estaria em constituição um “exército do povo”, que seria comandado pelo General Khattya e que 1 milhão de pessoas desceriam a Bangkok para cercar o Parlamento e o Governo até que esse caísse. Tudo isto aconteceria por volta ou antes do dia 26 deste mês quando o Supremo decidir no caso relativo aos bens de Thaksin, cerca de 1,5 mil milhões de Euros, que poderão vir a ser confiscados a favor do Estado.

Vários Deputados e outros elementos próximos do Governo afirmam estarem a ser treinados por todo o país membros para tal exército numa operação de recrutamento massivo de pessoas.

Parece tudo um pouco surrealista inclusivé tendo em vista as recentes divergências no seio da UDD e as manifestações que agora realizam, quase que diáriamente, e ás quais somente poucas pessoas acorrem. Na passada Quinta-feira manifestaram-se junto ao clube militar na zona norte de Bangkok e não chegariam a ser 100 pessoas por relatos de pessoas amigas que presenciaram. Também no dia anterior o fizeram no Quartel General do exército e igualemente não chegaria a ser 200 o número dos presentes.

O próprio Governo que anteriormente utilizava sempre o Internal Security Act (ISA), lei que lhe permite impôr medidas excepcionais, se necessário, não tem utilizado actualmente essa medida.

Serão tudo manobras para fazer crer que existe uma fraqueza do “lado vermelho” e fazer relaxar as guarda defensiva? Será que a fraqueza existe na verdade, como as divergências vindas a lume parecem mostrar? Será que essa fraqueza pode levar a actos extremos tipo “última oportunidade”? Estas são muitas das perguntas que andam no ar neste momento.

As únicas certezas são as seguintes: existem movimentações militares (para além dos exercícios conjuntos com os Americanos); no meio militar desdobram-se as manifestações de apoio ao General Anupong (entretanto em oportuna visita aos Estados Unidos); existe grande nervosismo no sector governamental como o demonstram todas as informações daí provenientes entre as quais as do Ministro Kasit aos diplomatas, que em vez de acalmar as capitais as alarma; Suthep, há muito calado, vem afirmar estar o país pronto para garantir a sua segurança; existem as permanentes ameaças do General Khattyia ao qual ninguém consegue pôr cobro (nem ás suas constantes deslocações para visitar Thaksin); o próprio Conselho Privado do Rei saiu agora, através de um dos seus membros, a criticar aquilo que apelidam de “inacção do Governo em defender a monarquia”, etc

Entretanto o General Prem, Presidente do Conselho Privado do Rei, cujas palavras são sempre alvo de enorme atenção e expeculação, afirmou ontem que a Tailândia necessita de um líder carismático e integro (no ano passado tinha afirmado que o país estava em boas mãos com Abhisit) e que o exército continua a jogar um papel crucial no país. "Os militares têm de ter qualidades de liderança melhores do que os outros pois o seu trabalho é em favor do bem estar do povo e da preservação da paz em tempos de guerra".

Costuma-se sempre perguntar. Quem é que beneficía com este clima de aparente instabilidade? Por certo que não é o Governo que deveria estar calmo e confiante. Não são os militares que sabem bem o custo de um intervenção não desejada pelo povo. Só pode ser o “canto” Thaksin, o único ao qual a confusão poderia ser benéfica neste momento.

Fica assim mais uma pergunta no ar. Tem ainda tanta força ao ponto de conseguir fazer que os seus melhores aliados nesta guerra psicológica sejam o próprio governo e as forças que o apoiam, que vão criando rumores e factos políticos que lhes são adversos?

Entretanto Thaksin reuniu-se este fim de semana com os seus mais radicais "amigos" (foto de cabeçalho).

O pior que se pode fazer a um animal acossado e perseguido é acurralá-lo pois torna-se raivoso e assanhado e portanto perigoso. Parece que é isto mesmo que está a acontecer.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Conferência de Imprensa de Hun Sen


O PM Cambojano deu ontem uma conferência de imprensa, ao lado de Thaksin Shinawatra, onde ultrapassa todas as barreiras do que é diplomacia.

Começa por dizer que o problema que existe entre os dois países é um problema pessoal entre ele e Abhisit e que este último sabe muito bem do que se trata, e que enquanto Abhisit ainda andava a brincar como uma criança, que o era na altura, ele (Hun Sen) já andava na política.

Continua afirmando: Se quer fechar a fronteira, que feche. Nós, cambojanos sabemos muito bem se queremos produtos tailandeses onde os ir buscar e não necessitamos das fronteiras para nada. Para além disso fechar as fronteiras afecta mais os negócios tailandeses do que os nossos visto no ano passado termos comprado 2 mil milhões de US$ e vendido somente 90 milhões.

Para mim, diz Hun Sen, quem está a fazer um grande drama é Abhisit pois foi ele que cancelou um MoU validamente assinado entre dois países (referência ao Memorando de Interesses sobre a exploração das plataformas petrolíferas no Golfo da Tailândia), perguntando como é que a comunidade internacional vai sentir-se ao assinar um qualquer contracto com a Tailândia se sabe que depois eles o podem rasgar. Nós sempre negociamos com a Tailândia em boa fé mas quando acabamos de assinar qualquer acordo eles apagam com os pés, afirma Hun Sen.

Diz ter tudo explicado durante a cimeira em Hun Sen, sobre a nomeação de Thaksin como conselheiro económico tal e qual o tinha antes feito com o actual PM Coreano, Lee, e com Australianos.

Escala o tom acusando Abhisit de ser uma marioneta nas mãos de Thaksin pois cada vez que se fala deste o PM reage sem direcção e simplesmente por razões pessoais e nunca pensando nos interesses do seu povo e do seu país. Podem os tailandeses suportar um líder como este? Pode a ASEAN ter um presidente como este? São duas perguntas das mais insultuosas que faz. Nós (refere a ASEAN) um dia seremos um só mercado, teremos uma só moeda (referência ao modelo europeu) mas quem em vez de querer construir quer destruir é o Presidente da ASEAN, a Tailândia.

Quando acusa o Camboja de ter roubado território à Tailândia o melhor é ler a história e verá quem são os agressores, volta á carga Hun Sen.

Pergunta depois se todo o problema é por o Rei do Camboja ter nomeado Thaksin conselheiro do Governo. Se é assim então voltemos tudo para trás inclusive o golpe de estado de 2006 em que aquele foi retirado de um lugar para o qual tinha sido democraticamente eleito. De que é que Abhisit tem medo? Eu sou PM neste país porque recebi 2/3 dos votos do meu povo. Quantos votos Abhisit recebeu (note-se que o partido Democrata tem só 1/3 dos Deputados no Parlamento)? A nomeação de Thaksin não tem nada a ver com a Tailândia. Ele é meu amigo e amigo não trai amigo.

Abhisit está envolvido em todo o tipo de problemas. Pode morrer devido ao stress que isso lhe causa. Tem problemas com todos os seus vizinhos (Abhisit ainda não visitou nenhum deles o que é tido como uma das grandes falhas da Diplomacia tailandesa em ano de presidência da ASEAN), e para além disso tem problemas com os amarelos, com os vermelhos, os azuis e os verdes.

Que tipo de respeito é que a Tailândia merece para o Camboja (se a tradução para inglês está correcta esta é muito forte pois Hun Sem não refere Abhisit mas Tailândia e portanto torna-se numa forte acusação contra o país). Não há nada no sistema judicial tailandês que deveremos respeitar. No passado davam guarida aos Khmer Rouges quando eles atacavam e destruíam o meu povo e o meu país.
A acrescentar ao que fica relatado, hoje o Governo do Camboja recusou o pedido de extradição apresentado pelo Encarregado de Negócios em Phnom Penh, e mais tarde declarou esse mesmo diplomata persona non grata dando-lhe 48 horas para abandonar o país.

Pergunta-se agora. Qual a resposta? Qual é o jogo de Hun Sen (e de Thaksin)? Apostarem na fragilidade de Abhisit e fazer cair o governo? Mas entretanto Abhisit subiu estrondosamente nas sondagens já que o povo tailandês não tolera tamanha arrogância (para ser simpático) vinda do outro lado da fronteira.

Há quem diga que tudo isto é uma estratégia para fazer Abhisit querer que está forte e pode dissolver o Parlamento e convocar eleições sabendo (ou crendo) que essas serão sempre ganhas pelo Puea Thai. Até pode ser verdade mas é tremendamente arriscada e custosa, mas Hun Sen, como ele diz já anda nisto há muitos anos e não vai ser agora que muda e se torna um líder com contornos democráticos.

Os próximos dias (horas) vão ser cruciais para entender o rumo deste destroyer sem comando.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Homem que não ouve a ninguém

Thaksin Shinawatra chegou esta manhã, pelas 9.45 locais a Phnom Penh.

Nada de anormal visto ter sido nomeado há dias para assessor económico do Governo do Camboja. Como bom funcionário apresenta-se ao trabalho.

Desde o momento do anúncio por Hun Sem de que iria proceder à nomeação do seu amigo afirmando mais que não o extraditaria para a Tailândia, que a tensão entre os dois países voltou a subir, como já relatei.

No meio dessa escalada Abhisit está a jogar, com sucesso, a carta nacionalista. Começou por apelar a Thaksin para que olhasse para os interesses do seu país, para mais tarde o vir a acusar de traidor entre outros adjectivos. A discussão desceu a níveis tão baixos que o porta-voz do PM,Thepthai Senapong, declarou que Thaksin e a família deveriam ser decapitados! O facto é que Abhisit subiu nas sondagens e agora lidera com confortável margem à frente do fugitivo ex PM.

Assim, como diz hoje o Thai Rath, um jornal de língua tailandesa independente, o povo esquece que o governo actual não resolveu nenhum dos problemas no sector económico, começa a estar manchado por váriados casos de corrupção e nepotismo para além de governar à sombra de um sistema judicial que o protege. Hoje mesmo foi adiada, pela enésima vez, a decisão sobre o financiamento ilegal do Partido Democrata que a ser provada levará (mas tal nunca acontecerá) à dissolução do Partido. Recorde-se também que está quase a fazer 1 ano que o PAD, o pricipal suporte actual de Abhisit, ocupou os aeroportos da capital com os prejuízos de milhões de milhões de bath, mais do que o a totalidade do actual estímulo para a economia, segundo o Banco Central, e ninguém foi presente perante a justiça.
Para agravar as questões Thaksin concedeu uma entrevista ao Times onde faz comentários sobre a monarquia, e se bem que eles em si nada de especial representem, foi mais um prego no caixão que o espera. Todo o tipo de acusações estão a ser feitas o que o obrigou a vir acusar o jornal britânico de distorcer a verdade.

Uma nota interessante para ver como o sistema na Tailândia funciona sempre a favor do vento que sopra. Há dias foram constituídos arguidas algumas pessoas por terem reproduzido uma notícia da Bloomberg sobre a saúde do Rei. Hoje quando, inclusive membros do Governo o fazem, isso já não é uma ofensa passível de procedimento criminal. A já cansada prática dos dois pesos e duas medidas do sistema judicial.

Voltando a Thaksin, o ex PM não consegue parar para reflectir e preparar uma estratégia que seja favorável à sua causa. Thaksin quer voltar ao país, voltar ao poder. Argumenta que é um perseguido político que a condenação de que foi alvo foi politicamente motivada (o que é evidente) mas jogar o papel do separatismo em nada ajuda a sua causa.

Thaksin é conhecido por não ouvir ninguém. Só ele é que sabe, só ele é que tem a verdade. Nem mesmo no tempo em que esteve casado, e com uma mulher poderosa e inteligente, não lhe dava espaço para ouvir um conselho dela ao ponto de ela se ter cansado de seguir um homem sem rumo e sem estratégia.

O seu objectivo é ganhar o coração dos seus concidadãos, dos quais uma vasta percentagem ainda lhe presta grande vassalagem, mas não consegue largar o seu antigo hábito de ver todos os outros como os seus empregados.

Thaksin teve grande mérito em muitas questões na política tailandesa ao ponto de o presente governo replicar, passo a passo, linha a linha, muitos dos projectos que ele lançou ou mesmo alguns que estavam na gaveta ao tempo em que foi corrido pelo golpe de estado de 2006.

Um dos grandes problemas de Thaksin foi a sua atitude para com todos aqueles que eram seus “compagnons de route”, como o seu, actual, archi-inimigo, Sondhi L. Para Thaksin todos passaram de seus parceiros a seus empregados como o patrão que tudo tem e depois distribui os lucros do negócio, como e a quem quer, utilizando tal como uma forma de ir comprando serventias casuais.

Mais uma vez nesta guerra que ajudou a acender com o seu país e que Abhisit, fortemente pressionado pelo PAD, está a inflamar ao contrário do que seria desejável, Thaksin não conseguiu trabalhar nos ganhos iniciais que teve, aproveitar a precipitação do governo de Bangkok, e jogar ele a cartada do “pai do povo” como ele tão bem soube jogar no passado.

Um cão acossado é sempre mais perigoso do que um cão que tem espaço e capacidade para “pensar” e isso é o que se está a passar actualmente com Thaksin.

Deitou a perder o momento que criou e está envolvido numa guerra da qual dificilmente vai sair vencedor. Talvez lhe reste a possibilidade de renunciar à cidadania tailandesa e obter o passaporte, mais um, Cambojano.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Chavalit Yongchaiyuth

O Partido do fugitivo Primeiro-Ministro Thaksin, o Phue Thai, está na ofensiva.

Há cerca de duas semanas conseguiram que o antigo Primeiro-Ministro e antigo Comandante Supremo, General Chavalit Yongchaiyuth, aderisse ao partido e desde esse momento o vento tem soprado a favor.

Chavalit é um velho político, 77 anos, com bastante experiência e respeitado por muitos apesar de minimizado pelo partido no poder que dizem estar o General com Alzheimer.

Tanto no Norte como no Sul do país o General é altamente respeitado e tratado pela expressão Pho Yai (e a sua correspondente em malay-pattani), mostrando o respeito que por ele é nutrido. Foi nomeado Comandante Supremo das Forças Armadas tailandesas pelo General Prem, o Presidente do Conselho Privado do Rei, quando era Primeiro-Ministro. É uma voz ouvida junto dos vários poderes existentes no país.

É para muitos considerado o Presidente do Partido (no país visto o de facto ser Thaksin) ao que ele responde que está no partido somente para ajudar e poder resolver a divisão no país. Sempre a palavra-chave para granjear apoio.

Desde a sua adesão já muitos comentários foram emitidos por personalidades do campo oposto incluindo Abhisit e, fundamentalmente, Prem, o homem que nunca fala.

Isso só mostra a atenção que a sua reaparição na cena política merece.

O General Prem acabou mesmo por escorregar na casca de banana e afirmou ter enviado um emissário para dizer a Chavalit que deveria pensar muito bem antes de aderir ao Phue Thai pois isso “poderia ser visto como um acto de traição ao país”. Estas infelizes palavras, confirmadas de viva voz pelo General, que como referi, raramente fala e afirma nunca se meter em política, já lhe valeram duas acusações de difamação e outros crimes, mas fundamentalmente foram um trunfo para Chavalit.

No rescaldo dessas palavras 50 militares, recentemente reformados, portanto com 60 anos, resolveram aderir ao Phue Thai, numa clara resposta a Prem, afirmando que o faziam para defender a unidade no país e o respeito pela Monarquia.

Hoje foi um Deputado dos democratas que decidiu abandonar o partido para se juntar à oposição.

Contudo Chavalit está numa missão de soberania e de liderança. Aproveitando a extrema fragilidade de Abhisit, cada vez mais visto como o ”guarda da quinta” daqueles que o “contrataram” para essa função, o General resolveu iniciar a sua cruzada de Reconciliação.

Ontem foi ao Camboja tendo sido recebido efusivamente pelo seu “grande amigo” Hun Sen e aproveitaram para que este fizesse afirmações de dois sentidos. Sobre Thaksin umas e favoráveis a um entendimento pacifico e negociado com a Tailândia sobre as disputas fronteiriças, outras.

Quanto a Thaksin disse para ele vir para o Camboja onde será "recebido de braços abertos" e que ele próprio irá construir uma casa, por certo com o dinheiro dos contribuintes, para o fugitivo ex PM. A sua mulher disse que cada vez que fala de Thaksin lhe vêm as lágrimas aos olhos pois não entende o “que os tailandeses fizeram a quem de eles tão bem tratou”. A conversa desta manhã em Bangkok era estas notícias transmitidas pela televisão, pelas rádios e por todos os jornais como a grande “caixa”. Chavalit conseguiu também obter as afirmações positivas sobre a relação entre os dois países e sai assim vitorioso deste encontro. É importante notar que a partir de amanhã os líderes dos países da ASEAN se vão reunir em Cha-Am/Hun Hin, zona trasnformada numa fortaleza inexpugnavel sob a escolta de 36.000 militares e fortes contingentes de equipamento bélico da marinha e aviação, e Hun Sen chega lá fortalecido e irá falar com Abhisit numa posição de força mostrando que não é com ele que os problemas dos dois países se resolvem.

Continuando esta política externa Chavalit irá para a semana reunir-se com o PM malaio e com o General Than Shwei, o líder da junta birmane, também tentando obter declarações importantes no que respeita aos problemas nas duas fronteiras, Sul e Oeste.

Mas Chavalit não se fica por aqui. Já agendou para a semana uma visita ao Sul do país para discutir localmente as questões do conflito que se arrasta à 5 anos e todos os dias vitima pessoas. Terá ainda um encontro com o General Chamlong, nem mais nem menos do que o co-líder do PAD, falando-se que posteriormente se irá encontrar com Sondhi L. o outro co-líder e agora Presidente do partido político que o PAD fundou.

Chavalit aproveita a falta de liderança que Abhisit demonstra para mostrar ao país, através de actos que fazem as manchetes de todos os meios de comunicação social, quem é capaz de enfrentar e resolver os grandes problemas do país.

O General já afirmou que o seu objectivo é o de conseguir a harmonia dos tailandeses e depois pensar nas questões estritamente políticas como a respeitante à alteração da Constituição que tem sido o grande cavalo de batalha de Abhisit nos últimos dias. Essa batalha tem eventualmente o objectivo de fazer esquecer a profunda confusão que arranjou na Polícia. Esta corporação está profundamente enfraquecida e a perder respeitabilidade pelo facto de não haver novos comandos nomeados desde o dia 1 de Outubro. Os que estão são interinos e os que deveriam estar ainda não foram nomeados e acontecem agora, todos os dias, casos em que os subordinados não respondem às ordens, visto não reconhecerem a liderança que as dá.

O Velho Leão como muitos lhe chamam veio avivar a luta política no país, fazê-lo com estilo e com a experiência que um PM deverá ter e vê-se que sabe muito bem todos os movimentos que estão em curso no país. Espera-se agora a resposta do partido no poder mas para já a única coisa de que os democratas foram capazes foi ter Shutep avisado que se Thaksin entrasse no Camboja seria activado o processo de extradição, o que não é novidade pois isso já foi dito umas centenas de vezes. Não é em si um facto político e para que a Tailândia consiga a extradição é necessário que o Camboja active de igaul modo esse mecanismo o que a avaliar pelas palavras de Hun Sen nunca será feito.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Visto de Seul

Assim é visto em Seul o panorama político na Tailândia.

Para além da piada do cartoon ele reflecte duas outras realidades: há semanas Thaksin disse à imprensa que era um cão domesticável, mais uma vez tentando atrair alguma simpatia, aqui em Bangkok, para a sua causa tentando ser visto como alguém capaz de ser parta da solução e não parte do problema. Deste modo pretendia afirmar que se o soubessem tratar bem, se soubessem falar docemente com ele, seria capaz de ser fiel ao seu dono como será normal num cão. A outra realidade que o cartoon mostra é a forma como afinal o cão tem de sair do "seu" local, sem honra nem dignidade, acossado por muitos e fustigado por outros tantos.

Como um rafeiro, um cão de rua, Thaksin está neste momento fugindo de canto para canto sem encontrar a saída para os problemas em que se meteu e a notícia hoje vinda a lume de que uma boa parte dos Deputados do "seu" Partido poderiam estar a encontrar uma alternativa política para o futuro deles, embora sendo muito provavelmente uma manobra de contra propaganda, é ao mesmo tempo um sinal claro do moral actual das "tropas" vermelhas.

Essa falada mudança de 110 Deputados da oposição para "um outro Partido", que poderá muito bem estar ligada com mais uma investida de Nevin Chidchob oferecendo largas quantias de dinheiro para fortalecer o seu Bhumjai Thai Party, pode dar uma estocada muito forte em Thaksin e temporariamente nos planos da UDD, embora seja hoje em dia claro que com ele ou sem ele, muito mais provavelmente sem Thaksin, esse movimento irá desenvolver-se de forma autónoma representando sentimentos unitários contra o grupo que está por detrás da coligação no poder.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Passaporte de Thaksin

No passado Domingo o MNE tailandês anunciou que tinha retirado a Thaksin Shinawatra o passaporte que o cidadão utilizava.

Logo após a tomada de posse o governo tinha retirado a Thaksin o passaporte diplomático, que os antigos chefes de governo têm direito, e agora retirou-lhe o passaporte ordinário como o PAD e forças próximas vinham pedindo há algum tempo.

Não tardaram a aparecer nos jornais as notícias, já há muito faladas, de que Thaksin tinha vários passaportes consigo e a evidência aí está quando é confirmado pela Nicarágua que o Presidente Daniel Ortega, na foto, tinha conferido, em Janeiro de 2009, a Thaksin a categoria de Embaixador Especial daquele país da América Central.

Bem escolhido! A Nicarágua não tem representação diplomática em Bangkok e assim não haverá nenhuma manifestação reclamando que lhe seja retirado o passaporte.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Kasit Piromya (II)

Eles andaram todos na mesma escola e a comer dos mesmos cozinhados.

Já aqui uma vez referi que o grande líder do PAD Sondhi tinha sido parceiro de negócios de Thaksin Shinawatra aliás como a maioria daqueles que hoje se opõem ao ex-Primeiro.

A classe de empresários neste país não é assim tão grande e por isso não espanta que isso aconteça.

Como em muitos casos as comadres zangam-se e depois começam a partir a loiça. Na Tailândia o que se passou essencialmente foi que Thaksin quando juntou ao seu poder como empresário o seu poder como político entendeu que era chegado o momento de ficar com o bolo todo para ele dando umas pequenas fatias àqueles que lhe traziam os recados, como Nevin, e deixando as migalhas que ficavam no fundo do prato para os seus antigos parceiros como Sondhi e outros que hoje o odeiam por isso mesmo.

O facto é que todos andaram a roer o mesmo bolo durante uns tempos.

Vem isto a propósito de mais umas declarações de Kasit que, falando á imprensa, admitiu ter recebido dinheiro de Thaksin, é assim que os controlou a quase todos, mas afirmou, que nunca o usou em proveito pessoal mas sempre para o serviço das Embaixadas onde serviu. A cada um a capacidade de julgar as acções e as palavras, mas para mim o facto de aceitar é por si já mau. Quem não quer ser o lobo que não lhe vista a pele.

Entretanto Suthep Thaugsuban, o Primeiro Ministro em exercício, convocou uma reunião de emergência do Governo esta manhã para analisar a situação mas de concreto só se sabe que o Ministro do Interior solicitou aos governadores das províncias que seguissem com atenção os movimentos locais da UDD. Contudo saíram rumores de que Suthep teria afirmado estar pronto a negociar com Thaksin, naquilo que seria o reafirmar de uma vontade que em tempos já tinha manifestado como sendo a única forma de trazer paz ao país.