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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Até quando?



A clareza e transparência do sistema de justiça são, no meu entender, um dos mais importantes factores capazes de suportar um estado que quer viver um verdadeiro sistema democrático.

Por norma discute-se e manifesta-se contra a (falta de) qualidade dos sistemas de educação e de saúde, de facto dois sistemas fundamentais para a criação de uma sociedade sã e desenvolvida, mas sem um sistema que saiba aplicar a justiça com rectidão, a tempo e sem olhar a nomes ou meios, poucos objectivos se conseguem atingir já que acabamos sempre por ver a justiça ser usada a favor de interesses próprios por norma contra os interesses comuns.

Assim se passa infelizmente em muitos países no Mundo e uma má justiça está sempre associada à fragilidade do sistema político à corrupção dos políticos e de todos os que têm por obrigação servir o interesse público.

Assim se passa ali e assim se passa aqui.

Na Ásia para acrescer ao que disse há o factor sempre interveniente da necessidade de encontrar compromissos para que "ninguém sinta a perda da face". Por norma, e sempre que está envolvido alguém com alguma visibilidade pública, com poder ou simplesmente com meios financeiros, há que encontrar uma forma para que aquele que porventura possa ser acusado de algo de mal ter feito consiga escapar a "infâmia" de uma condenação.

A Tailândia não é excepção.

Desde os casos do "menino de ditas boas famílias" que atropela com o seu Porsche uma pobre rapariga e a mata ou deixa inválida, aos membros das forças de segurança que deixam funcionar estabelecimentos sem as menores condições de segurança onde depois há acidentes e morrem dezenas de pessoas, aos acontecimentos mais politizados como a morte por falta de ar de dezenas de muçulmanos transportados como gado em camiões militares, ao sequestro e desaparecimento forçado de activistas pelos direitos humanos (por todos vistos e conhecidos os autores) que nunca são resolvidos por "falta de evidências" até à eterna saga dos casos envolvendo políticos que nunca chegam a ser decididos, nenhum caso chega a ser decidido e os culpados acusados.

Como se costuma dizer em Portugal a culpa "morre sempre solteira" e nunca encontra alguém para emparelhar.

Um dia em conversa com um General da Polícia dizia-me ele que aqui ninguém queria estar na área da investigação por duas razões fundamentais. Primeiro porque o salário, já de si baixo, era inferior à maioria dos outros sectores na corporação e segundo porque as pressões era tantas e de tal forma violentas que ninguém queria avançar com nenhum caso para não vir a sofrer ele/ela mesmo algum percalço, seja físico seja de carreira, no futuro. Desse modo o sector de investigação está fortemente enfraquecido em termos de efectivos e os que lá estão têm que seguir a regra de "não incomodar o chefe".

Esta expressão faz-me lembrar um acontecimento no ano passado e durante as manifestações dos camisas-vermelhos quando uma delegação deles decidiu dirigir-se ao nosso escritório para apresentar um protesto. A polícia compareceu em força (mais de 200 homens fortemente armados no local) e eu tive de negociar a situação com os "vermelhos". Uma das questões que se colocava era saber se a polícia ia ou não prender os líderes que para lá se dirigiam pois vários estava já acusados de "terrorismo". Tudo acabou por ser passar muito pacificamente pois não era essa a missão da polícia. A missão era "não incomodar o chefe". O que se requeria era que os "vermelhos" chegassem, entregassem os documentos que quisessem, falassem para as televisões para a propaganda deles e saíssem suavemente sem que houvesse o menor problema. Assim o chefe não seria incomodado com qualquer notícia nos jornais menos agradável!

A falta de aplicação da lei ou a sua aplicação ao sabor do vento volta a estar em foco.

Desde que o governo pró Thaksin chegou ao poder várias foram as decisões judiciais que estava em "andamento" que foram decididas e, espante-se, a favor do fugitivo ex PM e família.

A condenação da sua ex mulher, em 2008, a três anos de cadeia por evasão fiscal viu o apelo entretanto interposto ser decidido a favor de Potjaman que assim foi ilibada

As eventuais queixas contra os seus filhos, também por evasão fiscal, e que estavam pendentes no Ministério das Finanças há cerca de 3 anos foram despachadas favoravelmente àqueles "visto não serem os legítimos proprietários dos bens" já que numa sentença de 2009 ficou provado que Thaksin transferiu os seus bens para eles somente para iludir o fisco. Conclusão eles não sendo os legítimos proprietários (!!) não têm de pagar impostos e como não há caso contra Thaksin por fuga aos impostos (ao fim de 5 anos o sistema não condenou o ex PM a mais do que "conflito de interesses") não há caso contra ninguém.

Também a famosa petição para amnistiar Thaksin apresentada ao Rei em 2009, da qual quase todos já se tinham esquecido pois o Ministério da Justiça tinha metido o processo na gaveta o que também está errado, acabou por reaparecer e o secretário-geral do ministério, o mesmo de dantes pois não foi mudado, anunciou que o processo de revisão dos milhões de assinaturas está concluído e que existem mais de 2 milhões que são válidas e portanto o processo está pronto para ser enviado para consideração superior.

Em 19 de Setembro de 2006 a noite em Bangkok acordou com um golpe de estado dito ter sido feito para acabar com o sistema corrupto do então PM Thaksin. Durante um ano esteve no poder um governo de iniciativa dos militares golpistas governo constituído para "devolver dignidade ao sistema político" e democracia ao povo. Foram nomeados novos membros de confiança dos agentes golpistas em todas as agências fiscalizadoras do bom funcionamento das instituições garantes da clareza do estado e todos os tribunais de última instância. Houve eleições, três primeiros ministro se seguiram, muitos meses se passaram e o país acabou caindo fortemente em todas as listas mundiais que classificam os países no que respeita a corrupção a transparência e a boa governação e também no sector dos direitos humanos.

Novas eleições ocorreram recentemente, sempre com o apoio e entusiasmo daqueles que querem ver o país progredir no sentido da democracia e no sentido de um sistema de governo onde os valores da justiça, liberdade, verdade, transparência, etc prevaleçam. Mas não tudo continua na mesma como sempre tem sido na história moderna tailandesa.

Até quando?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A Hipocrisia no Mundo

Esta manhã ao ler o The Nation reparei no "cartoon" que mostram a lembrei-me da Páscoa.

Parece uma contradição mas na realidade a Páscoa é (ou deveria ser) um bom momento para parar e reflectir naquilo que somos e naquilo que vamos fazendo.

A pausa que a Páscoa permite em quase todo o Mundo deveria ser propícia a um momento de reflexão sobre o nosso dia a dia.

Um dos maiores pecados da nossa civilização é a Hipocrisia, a falta de dignidade e verticalidade naquilo que fazemos.

Uma coisa que sempre muito apreciei e sempre me guiou foi a minha Independência a minha capacidade de não necessitar de "lamber botas" nem atropelar ninguém para atingir o que quer que seja na vida.

Olhar para o lado, para cima e para baixo, enfim para todos os que nos rodeiam, com os mesmos olhos, olhos de ver, de entender e de escutar deverá ser a forma de nos comportarmos na sociedade. Deveremos ter em mente constantemente o velho provérbio " não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti" não por medo de sofrer mas como uma prática de vida e de respeito pela dignidade dos outros.

Esta é de alguma forma uma mensagem de Páscoa que aqui queria deixar.

Voltando ao "cartoon" ele é por si um muito bom exemplo da Hipocrisia do Mundo em que viemos que nada mais é do que a falta do nosso respeito para connosco próprios.

A sua legenda é simples. A Republica Popular do Laos está empenhada na construção de uma barragem no Mekong e isso tem levantado clamores em toda a região e nas mais variadas organizações internacionais pelo facto de tal poder ser uma grave afronta á sustentabilidade do ecossistema na região e poder pôr em causa o sustento de muitos que vivem de actividades na parte baixa do rio. Até terão razão:

Essas mesmas vozes calam-se, escondem-se que nem ratos, quando a China construiu uma enorme barragem a montante do mesmo Mekong, com efeitos muito mais danosos, da mesma forma como condenam violentamente as violações dos direitos humanos na Birmânia e se calam quando o mesmo ou pior acontece na China.

A actual subserviência ao poder económico da China. Ao facto de ser o maior mercado para qualquer produto e/ou companhia leva a tapar os olhos sem nada dizer sobre o que naquele gigante dragão acontece e a "bater furiosamente" nos pequenos gatos que pouco mais fazem do que arranhar. O mesmo se passa agora na Líbia quando todos aqueles que andaram a bajular e a beijar Gadhaffi lhe apontam a porta de saída.

Esta política de duas caras é uma verdadeira demonstração da nossa menoridade como seres humanos e da hipocrisia reinante no Mundo.

A incapacidade existente para formar pessoas livres e com qualidades que possam ser líderes no nosso caminho é tremendamente preocupante.

Onde estão os valores que tão Hipocritamente queremos demonstrar?