sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Pai

Pai é uma pequena vila num vale no Noroeste do país na província de Mae Hon Song a província que se situa mais Nordeste na Tailândia temdo uma longa fronteira com a Birmânia.

Embora seja bem afastada de Bangkok (quase 1.000 km) é uma importante província pelo facto daquela fronteira por onde passa um pouco de tudo.

Guerra ou escaramuças entre os movimentos étnicos que se opôem ao regime ditatorial de Napidaw (a plástica capital da Birmânia, qual "bunker" a proteger Than Shwei) e as forças militares desse mesmo regime, a mais significativa parte do tráfico de drogas provenientes daquele país um dos principais produtores mundiais de opiáceos, todo o tipo de contrabando desde verdadeiras fábricas no sector textil (na maioria dos casos pertencentes a tailandeses) a grandes quantidades de vinhos e bedidas espirituosas, sempre enchendo os bolsos da burocracia dos dois países, etc.

Pai, que dista cerca de 120 km da capital da província e portanto da fronteira. é um oásis de calmaria no seu vale de arrozais rodeados por altas montanhas.

Recentemente Pai foi descoberta pelo turismo, inicialmente o turista da mochila às costas, mas tem vindo pouco a pouco a modificar o tipo dos visitantes e a ganhar qualidade sem perder a principal razão que atrai as pessoas. Os arrozais, a calma e o "dolce far niente" que se pode gozar em Pai.

Repetem-se os locais para ficar (hoteis, resorts, etc) mas na sua esmagadora maíoria preservando o ambiente tanto quanto é possível. Aliás os tailandeses quando bem instruídos são extremamente generosos na preservação da sua terra e da sua cultura e sabem bem o que não fazer.

Dois dias de descanso esperam-me.


Tak

Ontem ao passar por Tak, uma das portas de entrada no Norte da Tailândia, falou-se do Rei Taksin e uma pessoa confundiu o nome com o do ex-PM Thaksin.

Na realidade para ouvidos ocidentais pouco atentos a mudanças de som tão subtis é fácil de confundir Taksin (สมเด็จพระเจ้าตากสินมหาราช) com Thaksin (ทักษิณ ชินวัตร), se bem que aquela escrita já é por si própria uma tentaiva de ocidentalizar os sons da fonética tailandesa e portanto só tem o valor de tentar ajudar quem não lê tailandês a pode sonorizar as palvras.

A diferença é grande.

Taksin, o Grande, também chamado o Rei de Thomburi foi um dos monarcas mais influentes na história do Sião. Oriundo da província de Ayuthia reinou no último terço do século XVIII e foi o Rei do Sião que depois da destruição da antiga capital e sua cidade natal pelo Birmaneses assumiu a tarefa de reagrupor apoios, com a ajuda de alguns portugueses, e, a partir de Thomburi local que escolheu para a nova capital, antes de esta se transferir para Bangkok do outro lado do rio Chao Praya, lançou o ataque que expulsaria os invasores birmaneses e reestabeleceria a unidade do Sião.

Taksin o Grande reunificou o país. Thaksin dividiu-0.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Curta

O Governo do PM Abhisit está a tentar competir com o do fugitivo ex-PM Thaksin no que respeita o controlo sobre todo o tipo de oposição.

Foi enviada para todas as Universidades uma nota do Governo para que estas "cortem cerce toda e qualquer manifestação estudantil de carácter político" em nome da reconciliação nacional e para obstar à criação de divisões na sociedade.

Elementar, como dizia o outro.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Abhisit e o PAD

Como anteriormente referi o PAD decidiu manifestar-se durante o fim de semana erguendo mais uma vez a bandeira do nacionalismo como o estandarte da sua campanha.

Recentemente o Ministro do governo tailandês presente na reunião da UNESCO assinou as conclusões finais onde se dizia que o comité apreciava o trabalho levado a cabo pelo Camboja na preparação do plano de gestão para o templo de Phrae Viharn local recentemente designado como Património da Humanidade, de acordo com a definição da agência das Nações Unidas. Tal facto foi aproveitado pelo PAD para vir de novo afirmar que estaria em causa a soberania do território tailandês e que o governo Abhisit estava a capitular e a ceder às pressões do vizinho.

Note-se que no final deste mês irão ocorrer eleições para Conselheiros Municipais em Bangkok e pela primeira vez o partido da Nova Politica (PNP - o braço político do movimento amarelo) irá estar presente. A campanha, que já está na rua através de cartazes, é sintomática de que o PNP tem que disputar o espaço e os votos ao partido Democrata. Afirma-se nos cartazes que os bangkokianos sabem que têm de mudar e para serem mais claros usam cores significando mudar do azul claro (a cor Democrata) para o verde (a cor do PNP).

Assim não é de espantar que tenham levantado agora esta bandeira para de novo entusiasmar os seus apoiantes a criar um conflito com o partido do poder ao acusarem o PM de capitulação perante o "inimigo".

Abhisit tentou reagir mas fê-lo de forma pouco esclarecida.

No Sábado passado acedeu a ir falar aos manifestantes amarelos, reunidos numa manifestação num estádio da capital, e tal facto não só foi criticado por muitos (as sondagens posteriores feitas pela Universidade Católica mostram isso), como outros perguntam-se porque é que o PM não foi também falar aos manifestantes vermelhos (especialmente no seu início). Pior de tudo foi o que acabou por dizer visto ter feito afirmações que não só lhe podem criar problemas com o próprio PAD, um aliado que não deve ser menosprezado, como estão a criar com o Camboja.

Abhisit afirmou que agora seria mais simples solucionar a questão (o PM sabe bem as tremendas dificuldades que terá em conseguir a resposta que o PAD quer),e, caso fosse necessário, não só seria anulado o Acordo celebrado pelo seu antecessor e actual assessor sénior do partido Democrata Chuen Lekpai em 2000, como a Tailândia recorreria a todos os meios necessários, militares incluídos, para impedir qualquer perca territorial.

O Camboja está numa situação muito cómoda pois tem a seu favor os instrumentos internacionais (acordos de 1904 e 1907, decisão do ICJ de 1962 e o acordo de 2000), e a própria história e portanto nada tem de fazer senão continuar numa posição dominante e de força e esperar as reacções vindas de Bangkok.

Terá de ser a Tailândia, como se diz na gíria, a "correr atrás do prejuízo" e tentar encontrar soluções para uma questão que o PAD tenta sempre tornar numa grande questão nacional sabendo que isso é favorável a criar emoções nacionalistas e inflamar os seus apoiantes.

Abhisit meteu-se entre fogos cruzados, como se não lhe bastasse todos aqueles que tem, e sairá mais chamuscado de todo o conflito do que vitorioso.

Do lado do Camboja, o PM Hun Sen apresentou o caso à Assembleia-geral das Nações Unidas, enviando uma carta ao seu Presidente, solicitando a difusão dessa mesma aos membros do Conselho de Segurança, onde, baseando-se nas palavras de Abhisit, alerta para a mencionada possível denúncia unilateral de acordos internacionais por parte da Tailândia (afectação da credibilidade de um país como parceiro contratante em direito internacional) e para a ameaça do uso da força contra o seu país. Contra tal ABhisit já veio dizer que as suas palavras foram mal interpretadas e incorrectamente transcritas o que mostra a dificuldade do PM e a necessidade de estar à defesa.

Do lado do PAD o movimento tem agora como adquirido o "compromisso" do PM de resolver a questão sendo que Abhisit é por certo um dos que melhor sabe a reduzida possibilidade que a Tailândia tem de sair vitoriosa nesta contenda e, como referi, e que o Camboja não tem nenhuma razão, vantagem ou necessidade para suavizar a sua posição.

Um passo em falso de Abhist que cada vez se vê mais entalado no seu próprio campo quer pelos seus parceiros de coligação quer pelo PAD/PNP. Do outro lado da bancada o Pheu Thai/UDD aguardam o momento para voltar á acção realizando pequenos eventos de agitação propagandística para manter as suas forças vivas mas evitando ao máximo os perigos que para o movimento tem representado o Estado de Emergência e a repressão sobre o movimento actualmente em acção.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

PAD

Boa novidade para o PAD, o movimento amarelo que tanta perturbação causou em 2008.

Uma vez mais, a enésima, o Tribunal adiou a eventualidade de processar ou prender os líderes do PAD pelo envolvimento, sabido, conhecido e demonstrado em muitos registos, na ocupação da sede do Governo durante 192 dias e dos aeroportos da capital durante 9 dias. Expeculam os "mentideros" se o facto de o candidato do PAD não ter concorrido ás eleições intercalares em Julho em Bangkok terá a ver com a decisão. O candidato do Phue Thai, o actualmente líder da UDD Khorkaew, perdeu mas conseguiu uns inesperados 42,7% dos votos o que faz pensar que se o candidato do New Politics Party (braço político do PAD) não tivesse desistido o candidato Democrata, Panich, que conseguiu 50,4% poderia ter perdido visto o NPP is buscar votos ao mesmo eleitorado.

A próxima pronunciamento será no dia 7 de Outubro, e muito provávelemente será um novo adiamento. Aliás ainda não há muito tempo ouvi, eu e muita gente visto estarmos num fórum público, um alto representante do governo, equiparado a Ministro, dizer que quem tinha encerrado os aeroportos não tinha sido o PAD mas a AOT, a empresa que gere os aeroportos no país, e só depois é que os manifestantes os ocuparam visto terem necessidade de encontrar um local para descansar. Não é brincadeira. Foi mesmo dito por esse alto representante do governo de Abhisit na presença de muita gente estupefacta. Usando estes zelosos argumentos legalistas é possível tudo argumentar.

Outros incidentes acabam por se envolver pelo meio e afinal a notícia pode não ser tão boa.

Na reunião da UNESCO recentemente realizada no Brasil, o Camboja apresentou o plano para a gestão do parque histórico do templo de Phrae Viharn que incluía um Comité de Coordenação Internacional para o qual a Tailândia foi convidada, facto que recusou, alegadamente por temer isso ser visto como uma concessão ao país vizinho na disputa que mantêm sobre terrenos não demarcados adjacentes ao templo. Contudo o Ministro tailandês presente acabou por assinar a declaração final da reunião onde estava expresso a manifestação de regozijo dos estados presentes sobre o plano de gestão apresentado, facto que foi de imediato utilizado pelo PAD para mais uma vez levantar a bandeira nacionalista dizendo que o Ministro tinha capitulado e anunciado que iria manifestar-se na Government House, este próximo fim de semana, contra essa posição de fraqueza.

O governo de Abhisit é bem conhecedor de todo o intricado problema, embora ele próprio defensor, enquanto na oposição, da tese amarela de que o templo é do Camboja mas a terra onde está assente é tailandesa, veio dar grande voz ao facto de o Conselho da UNESCO não ter tomado nenhuma decisão na sessão no Brasil e adiado para a próxima reunião esse ponto dando assim algum espaço para "dormir sobre o assunto". Hoje veio também a lume uma carta escrita pelo Príncipe Sisowath, Thomico assessor do Rei Norodom Shiamoni, uma verdadeira peça de cultura diplomática, onde o Príncipe chama a atenção para o que é mais importante neste conflito e que os dois países não devem pôr em perigo a estabilidade da região com argumentações de reclamações territoriais que irão afectar os interesses dos dois povos que têm tanto em comum. Abhisit já deu apoio ao espírito da carta embora comentasse que não conhecer todo o seu conteúdo.

A posição do PAD, mais uma vez puxando pelas emoções nacionalistas, está assim contra o espírito que o governo quer instalar de conciliação e entendimento o que já levou o Vice Suthep a avisar de que se o PAD, os sempre aliados dos Democratas, avançar com alguma manifestação essa será dispersada pela força atento o Estado de Emergência reinante na capital.

Coincidência ou não, hoje mesmo a polícia, depois de já ter confirmado que o processo contra os líderes amarelos iria ser adiado para o dia 7 de Outubro, como acima se refere, avançou que os membros do movimento que não se apresentarem na esquadra amanhã (para ouvir essa decisão direi eu) serão objecto da emissão de um mandado de captura.

Entretanto os líderes vermelhos continuam presos, excepto os que fugiram e Veera Musikapong que foi libertado sob fiança de cerca de 75.000 Euros, e ainda não foram formalmente acusados, facto que é possível devido à lei sobre o Estado de Emergência que rege todas as detenções que têm vindo a ser feitas por todo o país e que ascendem a milhares. Entretanto a Comissão Nacional para a Reconciliação, presidida pelo ex-Acusador Público Kanit na Nakhorn, solicitou ao governo que ponderasse não mostrar em público os detidos agrilhoados de pés e mãos visto tal ser uma imagem de degradação.

Assim prossegue a justiça.

Prayuth Chan-ocha

O Conselho de Ministros ontem reunido aceitou, sem alterar, a lista para a remodelação anual dos quadros superiores da hierarquia militar apresentada pelo Ministro da Defesa Prawit e decidiu enviar para que seja revista e aprovada pelo monarca Rama IX se assim o entender. Sobre o apoio dado pelo governo à remodelação importa ver este artigo no The Washington Times

Deste modo a partir de 1 de Outubro próximo, altura em que o General Anupong Paochinda passa à reforma por ter atingido 60 anos de idade no presente ano fiscal tailandês, o General Prayuth Chan-ocha será por certo o novo comandante supremo do exército um dos postos mais importantes na estrutura do sistema político/militar em vigor na Tailândia.

Desconhecer os meandros dos quartéis e das estruturas militares e da Polícia (como que a quarta força militar no país), torna impossível compreender e interpretar os factos políticos sejam eles de que naturezas forem.

Prayuth ascendeu meteoricamente na hierarquia queimando etapas para atingir o lugar de topo. Proveniente da classe 12 da escola militar (Anupong é da classe 10 - as mesma de Thaksin) passou à frente de outros que se encontravam potencialmente melhor colocados devido á sua senioridade mas foram preteridos a favor deste "falcão" proveniente do regimento "os Guardas da Rainha", aliás como Anupong e muitos dos que agora estão em lugares de chefia. Recorde-se que foi este regimento que esteve em grande destaque nos confrontos do dia 10 de Abril contra os manifestantes da UDD em que morreram 25 pessoas e ficaram feridos perto de um milhar. Entre os mortos estava um dos coronéis de elite desta força, Romklao, cujo funeral foi presidido pela própria Rainha numa homenagem "aos seus guardas".

Ao contrário de Anupong que sempre foi hesitante nas posições que pudessem de alguma forma manchar a sua carreira, isto no que respeita a tomar posicionamentos políticos claros, Prayuth é um claro apoiante do actual regime e uma voz determinada contra as intenções vermelhas. Recordo a propósito disto que há meses numa conversa com um jornalista tailandês ele me dizia que se este ano for mau (falava-se antes da crise Abril/Maio) o próximo será pior pois Prayuth não terá hesitações no que respeita ao uso da força ao contrário de Anupong.

Prayuth e Anupong têm caminhos muito semelhantes. Para além de pertencerem ao regimento real que mencionei foram ambos comandantes da 1 ª Região (a mais poderosa do país) antes de se instalarem no quartel-general. Outro homem que estará na calha e neste mesmo percurso é o General Kanit Sapitak, o actual Comandante da 1 ª Região e que se tem mantido próximo dos dois generais. Poderá vir a ser o próximo numero dois na hierarquia e vir a suceder a Prayuth em 2014 quando este se reformar.

Apesar de ter saltado duas classes (havia generais da classe 10 na lista dos elegíveis e ainda havia a classe 11 da qual fazia parte o falecido General Kathya -Seh Daeng) Prayuth conseguiu obter todo o apoio político necessário para chegar ao poder e não deverá ter dificuldades no comando pois as alterações já produzidas nas reestruturações de Outubro passado e na intermédia que tem lugar em Abril (e por certo os últimos toques para o próximo Outubro) asseguraram que os lugares de comando funcional estejam preenchidos com homens de sua inteira confiança e leais à usa palavra.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Militares e Política

Este artigo de Chambers é melhor do que inúmeros relatos que se possam ler nos jornais sobre os políticos e os partidos na Tailândia quando respeita a compreender aquilo que se passa na essência da vida política no país.

Como diz um dos comentários. É necessário ler as folhas de chá da política intra-militar tailandesa para se poder compreender o país.

A estreita ligação da aristocracia com os militares, sempre presente na vida política da Tailândia(exemplo disso é o facto de a esmagadora maíoria dos Primeiro-ministros terem vindo da área milititar), determina todos os passos que são dados mesmo pelos políticos que aparentemente estão de fora desse círculo, da mesma forma que deternima o rumo da vida no país.

Abhisit é um protegido dessa parceria. Ele próprio foi professor na mais importante academia militar e o seu pai é amigo pessoal do Presidente do Conselho Privado do Rei, também ele um militar, General Prem.

A sucessão do General Anupong, que se aproxima, é o momento de reorganizar as forças armadas em torno do novo eleito e, para quem está de fora, obervar a forma como as diversas forças se cruzam e posicionam durante este processo de escolha. Contudo a presente sucessão deverá ser mais concesual já que o General Prayuth, o provável sucessor, preparou bem o caminho especialmente durante a dispersão da recente manifestação da UDD. Mesmo assim há que observar as possibilidades do General Piroon, mais antigo e pertencente ao ramo de cavalaria, área do General Prem, que é tido como o cavalo de Troia na presente corrida.

A primeira discusão sobre as listas, que serão mais tarde apresentadas ao Rei para confirmação, deverá ter lugar hoje mesmo na reunião do Conselho de Ministros.


PS: Já depois de escrito o texto acima veio a confirmação de que o Conselho de Ministros decidiu recomendar que a lista apresentada pelo Ministro da Defesa fosse enviada, sem alterações, para aprovação real, querendo isto dizer que o General Prayuth Chan-ocha está indigitado como o próximo comandante do exército e homem forte do sistema politico/militar vigente.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Regresso a Bangkok

Três semanas de férias e três semanas em que nada escrevi. Mesmo o post que coloquei antes das eleições em Bangkok já o tinha escrito antes de partir. Era tudo tão linear e sabido que tinha a certeza de que nada se iria alterar. E assim foi.

Aqui em Bangkok a situação em pouco ou nada mudou e continua em vigor o Estado de Emergência, qual vara de condão utilizada para se continuar a proceder á "limpeza" das cores encarnadas no país. E também assim vai acontecendo.

As questões políticas mais prementes dizem contudo respeito ao foro do partido e da coligação no poder pois continuam a não ter sossego apesar dos sucessos contra a oposição. Muitas vezes se ouve dizer que os piores inimigos são aqueles que temos dentro de casa, ou seja os nossos amigos.

Ontem Suthep, o inefável Vice do governo Abhisit, disse na conferência do Partido Democrata realizada em Phuket, que estava vivendo o tempo mais difícil da sua já longa carreira de 30 anos na política, acabando por afirmar que as instituições e o sistema democrático na Tailândia estavam em risco e que uma guerra civil era possível. Esta expressão, que continua a sustentar a existência do Estado de Emergência, deve ter sido bem traduzida visto ser repetida em vários meios de comunicação sempre mencionando aquela "possibilidade", da qual, pessoalmente, não partilho.

É um facto que as acções posteriores a 19 de Maio que têm tido como objectivo acabar com a oposição e com o "thaksinismo", missão na qual o governo do General Surayud saído do golpe de estado de 2006 falhou ao permitir o regresso dos "clones" de Thaksin ao poder, criam um clima de grande animosidade nos apoiantes da causa vermelha mas esta está, ainda, enfraquecida e desorganizada. Segundo um dos líderes de uma das facções, a viver há mais de um ano no exílio, Jakrapob Penkair, a coordenação da luta dos camisas vermelhas faz-se agora do exterior o que ainda tornará mais difícil a sua condução.

Contudo ontem em Samut Sakorn, uma província às portas de Bangkok onde foi levantado o Estado de Emergência, estes realizaram uma manifestação presenciada por milhares de vermelhos, segundo os vários relatos que li, e onde Thaksin falou de novo aos seus apoiantes, facto que já não acontecia há meses. Mesmo assim a máquina do governo, operada pelos militares, é mais forte e eficaz do que a máquina de propaganda vermelha.

Enquanto estive lá fora, em Portugal, as pessoas perguntavam-me repetidamente sobre a situação no país e mostravam não compreender várias coisas. Primeiro porque é que as manifestações tinham demorado tanto tempo e segundo porque é que ninguém tinha intervindo com uma palavra de sensatez. Eram no essencial as duas perguntas que me eram feitas por quem está habituado a que as pessoas por um lado acatem a orden e a lei e portanto uma manifestação nunca pode atingir as proporções do que aqui acontece (recorde-se por exemplo que os "amarelos" ocuparam a sede do governo durante 192 dias ou seja quase 7 meses) e quando a situação começa a descarrilar existe no sistema constitucional alguém com o poder de mediação e de isenção capaz de falar para todo o país independentemente das posições de quem ouve.

O facto é que aqui na Tailândia nem o primeiro é verdade já que a permissividade, o "mai pen rai" e o facilitismo levam a que situações como as que se têm vivido nos últimos dois anos sejam "aceitáveis" e, nem o segundo, com o extremar e radicalizar de posições, torna possível encontrar alguém neutro capaz de mediar e a chefia da Nação, o Rei, não é por tradição e prática, envolvido em questões tidas por serem políticas e partidárias.

O grande desafio que se coloca no curto prazo a este Governo é o da aprovação do orçamento pois existe o risco verdadeiro de não vir a ser aprovado no Parlamento já que os Ministros não devem votar visto isso ser considerado uma questão de conflito de interesses. Esta tem sido a prática de sempre no Parlamento tailandês mas o facto de este fim-de-semana no congresso do partido ter havido um apelo ao voto dos Ministros mostra a dificuldade actual do executivo. A oposição acusa já o governo de estar a tentar aliciar alguns Deputados, que não fazem parte de coligação, com promessas de benefícios vários incluindo grossas verbas monetárias.

Para além desta questão crucial visto ser não só importante para o funcionamento do país mas também para manter coesa a coligação através dos dotações dos ministérios ocupados pelos vários partidos que a compõem, existem as negociações que serão feitas nas esferas militares e policiais respeitantes á remodelação que todos os anos tem efeito a partir do dia 1 de Outubro. Tendo em vista o presente controlo da situação que ambas as corporações têm sobre o aparelho executivo parece ser credível que as listas serão facilmente elaboradas especialmente a do exército onde o General Anupong tem praticamente tudo definido desde que há dois anos começou a organizar a força em redor dos seus aliados.

No caso da polícia, que passou um ano inteiro com uma chefia interina, facto inédito na história da corporação, visto o candidato apresentado duas vezes por Abhisit ter sido derrotado, as mesmas questões poderão vir a colocar-se de novo mas de forma menos evidente do que no ano passado.

Igualmente este mês de Agosto irá marcar, no dia 26, o 90º aniversário do general Prem, Presidente do Conselho Privado do Rei, que recorde-se continua internado no hospital desde 19 de Setembro de 2009. O General é uma figura incontornável na cena política do país pelo seu historial, carisma, facto de ser militar e pertencer ao restrito circulo próximo de Rama IX, e apesar de fazer 90 anos continua a mostrar uma forma física notável e a ser sempre uma referência aquilo que possa dizer ou mesmo o seu silêncio.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Eleições de Julho

No dia 25 deste mês irão realizar-se eleições intercalares para a área 6 da capital devido ao facto de o Deputado, anteriormente eleito pelo Partido Democrata, ter falecido.

Foram nomeados inicialmente, para além de candidatos "menores", três políticos que seriam os principais candidatos ao lugar, embora os Democratas tenham em principio vantagem.

Um candidato do partido do poder, Panich, actual sub-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, um candidato do principal partido da oposição o Pheu Thai (PT), Korkaew e um deputado do Partido da Nova Política (PNP), o braço político do movimento PAD – amarelo.

Acontece que o Phue Thai, numa muito estranha e internamente contestada decisão, que bem mostra a falta de estratégia que neste momento há no partido, decidiu avançar com um dos líderes da UDD que se encontra detido e acusado de terrorista como o seu candidato.

Korkaew não é sequer um nome sonante e tem todo este "problema" de se encontrar em prisão preventiva. Por outro lado a decisão retirou independência ao partido tornando-o, como ao PNP no braço político de um movimento de rua. O facto do movimento vermelho ser eventualmente mais conhecido do que o PT, só acontece devido à falta de clarividência no discurso político do partido e á falta clara de liderança. Aliás recentemente o PT reuniu o seu estado maior e o que saiu de lá foi a confirmação das dissidências internas e da falta de liderança. Há que entender que o PT nunca conseguirá impor-se como uma força política enquanto continuar a ter como "líder" uma pessoa que não está no terreno e só manda ordens de fora com é o caso de Thaksin. É a escolha deles mas isso só continua a favorecer o Partido Democrata.

Este também se encontra fragilizado, também com dissidências e contestação interna inclusíve à liderança do PM Abhisit que é visto por muitos como um instrumento de outrem e não como o porta voz da política do partido. Um dos grandes "pecados" de Abhisit é, no entender de uma larga fatia de deputados Democratas, favorecer mais os outros partidos na coligação e dar-lhes tudo, ao contrário do que faz com os membros do seu próprio partido.

Esta decisão do PT foi um sopro de vida para a situação pois o candidato do PNP imediatamente desistiu da campanha dizendo que não iria concorrer contra um "terrorista" dando assim de mão beijada a vitória a Panich, já que a candidatura do PNP iria retirar votos ao campo Democrata e tal só iria favorecer o candidato do PT.

Comenta-se que isso terá sido um arranjo entre os dois partidos e a Comissão Nacional de Eleições está a "investigar", mas como sempre nada irá encontrar e irá arquivar o caso já que Korkaew "não pode ganhar". Fala-se mesmo em dinheiro que terá sido pago ao PNP para que se retirasse, o que não é nada de espantar. Funciona sempre assim. Thaksin fez o mesmo em 2 de Abril de 2006, quando mascarou umas eleições pagando aos seus adversários para competir no momento em que os Democratas decidiram não o fazer e boicotar as eleições.

Entretanto assiste-se a um cenário surrealista que é o de ter um candidato, potencialmente o "challenger", que não pode fazer campanha eleitoral pois está em prisão e são outros a fazer a campanha por ele.

Acresce que as eleições irão ser disputadas numa província onde está em vigor o Estado de Emergência e onde a qualquer momento uma pessoa pode ser presa sempre que o seu comportamento não seja do agrado dos militares. De igual modo a zelosa aplicação da lei impedirá qualquer acção de campanha visto muito fácilmente se juntarem mais do que 5 pessoas e assim violar-se a lei. É também perfeitamente legal, embora de pouco gosto, que as secções onde se vote estejam sob "protecção" de militares fortemente armados criando alguma intimidação sobre os eleitores.

Assim se constroi o caminho da Democracia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Viva España

A Espanha sagrou-se ontem, com todo o mérito Campeã Mundial de Futebol dando continuidade a um trabalho que vem de longe desde o tempo que foi campeã de sub-20 e depois Europeia.

Ontem no onze principal só mesmo no final actuou um jogador, Torres, que não joga em Espanha ao contrário da maíoria dos países que têm as suas selecções formadas por imigrantes cada um habituado a um estilo diferente de futebol. Para mim uma das razões do exito.

Outro homem muito importante Vicente del Bosque. Dom Vicente é o mais velho treinador a sagrar-se campeão mundial e é um exemplo de modéstia. Raramente se ouve falar para a comunicação social. Sempre concentrado no seu trabalho e nos cuidados aos seus meninos.

E o Paul safou-se da grelha ou de ser comido a la Gallega.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Notas sobre a Reconciliação

Quatro dos líderes da UDD, Veera, Dr. Weng, Natthawut e Wiputhalaeng saíram ontem da prisão onde se encontra às ordens do Departamento de Investigações Especiais da Polícia, aguardando ser ou não indiciados pelos crimes de que podem ver a ser acusados, para serem constituídos arguidos, pelo Tribunal Criminal, pelo facto de em 2007 terem organizado uma manifestação junto da residência do Presidente do Conselho Privado do Rei, o General Prem.

Os dois últimos dos detidos apresentavam-se com as pernas agrilhoadas com correntes de ferro uma prática no país mas humilhante para os presos a meu ver. Já tive a oportunidade de presenciar detidos nessas condições, em visitas a cadeias, e é com alguma dificuldade que se presencia tal "espectáculo". Pessoas a caminharem descalças com as duas pernas agrilhoadas com uma corrente presa a uma argola que algema também as mãos. Pior ainda quando ele é trazido para as primeiras páginas dos jornais violando a privacidade das pessoas. Presos ou não todos os seres humanos têm direito a serem tratados com dignidade, e os detidos em questão ainda nem sequer estão indiciados por nenhum crime, embora continuem detidos á ordem dos inquiridores já que a lei do Estado de Emergência permite que tal facto se prolongue sem serem acusados.

Entende-se agora porque é que os militantes da UDD que encerraram os aeroportos da capital durante 9 dias ainda não foram chamados a tribunal. Pelos vistos as acusações ainda vão no ano de 2007 e aqueles facto, bem como a ocupação e destruição de todo o exterior da Government House ocorreu em 2008. Teremos então de continuar a esperar embora saibamos que há os casos como os de muitos que foram posteriores e já estão os autores incriminados.

Ainda no que respeita o movimento vermelho, o exército decidiu duplicar o número de soldados anteriormente anunciado para a "Campanha de Alfabetização versão tailandesa" para 20.000. Será agora este contingente que irá "explicar" ao país a acção das forças armadas em Maio passado. Entretanto o Pheu Thai decidiu recrutar 100.000 (cem mil) voluntários para observarem de perto aquela acção dos militares.

Entretanto o Dr Niran Pitakwatchara, membro da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, visitou uma base militar em Saraburi e uma prisão em Bangkok, onde se encontram presos, sem acusação, militantes vermelhos e declarou o seguinte "muitos de entre os detidos não têm advogado, não foram autorizados a contactar a família e não recebem tratamento médico".

O Comissário disse ir agora visitar prisões em Khon Kaen, Udon Thani, Ubon Ratchasima, Amnart Charoen, Mukdaharn, Chiang Rai, Chiang Mai e Kanchanaburi para inspeccionar as condições de outros detidos. Há relatórios de diariamente serem feitas prisões, um pouco por todo o país, já que não é necessário obter mandado de captura nem evidência de violação da lei para que os militares procedam a detenções.

O PM Abhisit, apesar da Polícia e do Internal Security Operations Command (ISOC) terem negado a existência das anunciadas bases de treino de militantes no uso de armas, veio defender o seu porta-voz afirmando que se Thepthai Senapong tal afirma é porque existem indícios de existir.

Entretanto o famoso pianista Russo, Mikhail Pletnev, acusado de sucessivos abusos sobre menores em Pattaya, foi libertado sob fiança e já se encontra em Moscovo. A União Europeia tem repetidamemnte solicitado ao Governo do país que os pedófilos que são capurados não sejam libertados sob fiança, como sempre acontece, já que depois saiem do país sem serem formalmente acusados e portanto não será possível levar a cabo acções nos seus países de origem quando a Polícia tailandesa e o sistema de Justiça (?) não colaboram.

Assim continua a Justiça e vai andando o processo de reconciliação nacional.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ainda a Decisão do Governo


Os ecos da decisão do governo de manter o Estado de Emergência continuam a fazer-se ouvir por todo o lado e hoje o Matichon dizia ser "triste constatar que o Governo não encontra outras medidas, senão o decreto de urgência para remediar as divisões no país".

O Thai Rath por seu lado afirmava o seguinte: "As autoridades actuais deveriam lembrar-se que os ditadores do passado que utilizaram o estado de emergência para governar o país foram destituídos e apelidados de traidores da nação".

Estas afirmações de dois dos mais lidos jornais diários de língua tailandesa são bastante fortes e reflectem o sentido de muitos que não vêm na imposição de tais medidas mais do que uma forma de pressão dos militares sobre o governo civil de Abhisit.

A presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, a Dra. Amara Pongsapitch, como já referi, uma tradicional apoiante deste governo, informou que a comissão irá chamar para prestar declarações os responsáveis do CRES, do Departamento de Investigações Especiais da Polícia e do gabinete do Procurador de Justiça, para que possam explicar factos aliados á aplicação do Estado de Emergência e a sua necessidade.

Em mais uma declaração caricata, a que nos habituou tal a sua regularidade, o porta-voz do Partido Democrata disse que existem no país três bases, indicando os locais (Korat, Kanchanaburi e arredores de Bangkok), onde estão a ser treinados militantes vermelhos para posteriormente procederem a ataques armados contra edifícios do governo ou pessoas a ele conotados. Em qualquer país o senhor seria chamando à polícia para prestar declarações que tão úteis seriam para ajudar a desmantelar essas redes, sob pena de se tornar cúmplice daqueles actos. Aqui não é tão somente um acto de propaganda político partidária para reforçar a posição do governo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Decisão do Governo

Como previsto mas contra a opinião da grande maioria (associações e confederações empresarias, sondagens, académicos, representantes da sociedade civil, etc) o governo decidiu prolongar a imposição do Estado de Emergência por três meses, ou seja até passada a remodelação dos sectores militares mas retirou do conjunto de 24 províncias 5 que no entender do CRES não registam nenhuma instabilidade (sic). Várias pessoas lembram que no Sul do país o Estado de Emergência está em vigor à 5 anos e o facto é que a situação não melhorou muito pelo contrário. Nos últimos meses os incidentes têm sido mais violentos causando mais vítimas.

São elas Kalasin, Sisaket, Nakhon Phathom, Nan and Nakhon Sawan, as duas primeiras no Nordeste, a terceira a Oeste de Bangkok, Nan no Norte e a última no Centro do país.

Ainda ontem o Ministério dos Negócios Estrangeiros falando sobre os alertas aos turistas afirmava que só um país do Médio Oriente tinha levantado por completo as restrições ao trânsito de nacionais, esquecendo-se de referir que o primeiro a dizer que existe instabilidade, é o próprio CRES facto que o governo abençoa.

Na realidade para quem vive aqui não existe mais instabilidade do que aquela que existe na Áustria (para referir um país do qual se fala pouco) e a manutenção da situação nada mais é do que uma forma de continuar e perpetuar a "limpeza" que está a ser feita pelos militares em todo o país e para continuar a gozar do orçamento extraordinário de que foi dotado o CRES, facto que tem levantado inúmeras questões em vários cantos da sociedade. Uma das medidas também ontem anunciada foi a decisão do comando do exército de enviar 10.000 dos seus homens, por certo com generosos per diem, por todo o pais para "explicar" a acção levada a cabo pelas forças armadas em Maio. Como era esperado essa acção vai incidir sobretudo no Nordeste do país, a zona vermelha, e já se teme que isso acabe no aumento de prisões arbitrárias ao abrigo do Estado de Emergência, pois quem discorde pode ser chamado a "explicar-se". Ainda ontem, a mais que insuspeita Comissão Nacional dos Direitos Humanos afirmou, através da boca de um dos seus comissários, afirmou que estavam a ser violados os direitos de mais de 2/3 dos detidos na ressaca do Maio vermelho, pois, entre outros factos, não os autorizavam a contactar as famílias nem mesmo para dizer que estavam vivos.

Quase caricato foi algumas das "razões" usadas para suportar a manutenção do Estado de Emergência.

O porta-voz do Primeiro-ministro disse que era conhecido existir vários locais no país onde activistas vermelhos eram treinados no uso de armas! Se é conhecido e estando em vigor o Estado de Emergência porque não se põe cobro a isso, já que tal, se for verdade é uma ameaça real para o país?

Suthep disse que tinha de ser mantida a lei porque os vermelhos iam lançar uma nova estação de televisão para colmatar a falta da People's Channel cujo sinal foi cortado pelo governo (recorde-se que os meios de comunicação amarelos, incluindo uma televisão, que são tão facciosos como os vermelhos, continuam no ar)! Então o governo não é o próprio a querer uma comunicação social livre como consta do ponto três do Road Map para a reconciliação? Se fechou por várias vezes o canal vermelho não o pode voltar a fazer agora sem necessitar da lei?

Por fim o CRES afirmou que os vermelhos estão à espera que seja levantado o Estado de Emergência para regressar às manifestações! Quer isso dizer que não é mais possível haver manifestações, ou oposição ou que o Estado de Emergência irá ser prolongado indefinidamente ou até à total supressão da oposição?

No fim de contas quem sofre é o país e a sua reputação. Basta para isso ouvir os noticiários internacionais onde todos, sem excepção, referiam que "apesar dos apelos dos agentes económicos o governo do PM Abhisit Vejjajiva decidiu estender o período da lei de excepção por mais três meses". Foi em síntese esta a mensagem que ouvi repetidamente esta manhã.

O PM, embora tenha falado na abertura de um forum sobre investimento não se manifestou sobre a decisão que o seu gabinete tomou.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Bangkok e o Sul

Já há dias relatei que a sede do Partido Bhum Jai Thai foi alvo de um atentado à bomba que fez um ferido mas não causou danos maiores.

Este e outro incidente vieram no momento em que a comunidade em geral solicita ao Governo que levante o Estado de Emergência.

Comenta-se que estes actos foram organizados para suportar a tese do governo de que o país está ainda instável e portanto é necessário continuar com grande vigilância.

Ontem foi apresentado um abaixo-assinado por associações empresariais e académicos solicitando o levantamento do Estado de Emergência e até a Comissão Nacional dos Direitos Humanos, tradicionalmente sempre alinhada com o governo, fez semelhante pedido. De vários cantos da comunidade internacional vieram os mesmos ecos.

Hoje o Conselho de Ministros deverá aprovar a proposta do CRES para manter o estado de Emergência por mais três meses, uma medida que segundo muitos tem a ver com a imunidade que se quer garantir para os comandos militares e também garantir a transferência de poderes militares que acontece a 1 de Outubro sem sobressaltos.

Interessante neste episódio foi o facto do Governo do Reino do Camboja ter rapidamente apanhado os dois suspeitos do atentado e decidido repatriá-los para a Tailândia.

Deste modo ontem aterraram em Bangkok um casal que é tido por ser o principal suspeito no caso. Ficaram à custódia da Polícia aguardando serem ouvidos pelo tribunal que por certo irá determinar a prisão.

Os suspeitos, sem surpresa, negam o envolvimento no acto de que são acusados, mas referem, vá lá saber-se porquê, que são simpatizantes da UDD. Tal facto faz as manchetes dos jornais. O movimento vermelho pelo seu lado afirma que desconhece os suspeitos e não os reconhece como "seus".

Duas perguntas ficam no ar sobre esta estranha operação.

Porque é que as manchetes dos jornais destacam o facto de serem "vermelhos", criando um cenário de acusação pública, em vez de descreverem o contexto do que aconteceu ou mesmo fazerem alguma investigação sobre quer a explosão quer sobre o comportamento do Governo de Hun Sen?

Segundo porque é que o "grande inimigo" Hun Sem capturou e decidiu extraditar estes dois indivíduos no curto prazo de dois dias, quando é sabido, e relatado diariamente, que dois dos mais importantes cabecilhas da UDD, acusados de terrorismo pela justiça tailandesa, se encontram no território onde se passeiam animadamente, segundo os relatos, em Boi Phet e em Siem Reap?

Que interesses estão por detrás desta súbita aproximação de dois países que ainda estão sem Embaixadores nas respectivas capitais?

Seria interessante entender a verdade sobre toda esta história, já que aquela que nos é contada soa muito desconchavada.

Entretanto no Sul do país, aparentemente sem que isso tenha grande importância para a comunicação social, morreram nos últimos dias uma mão cheia de militares, daqueles que recebem, por dia, menos de metade do que os seus colegas que servem no ar condicionado do CRES em Bangkok. Tal facto tem aumentado o desconforto na corporação.

Ainda o Mundial

Sem comentários

Consultar o Povo

Como parte do plano de Reconciliação Nacional o PM Abhisit lançou uma mega operação entitulada 63 milhões de vozes tentando obter a opinião dos Tailandeses sobre as necessidades sentidas e quais as mensagens que queriam transmitir ao Governo para acção.

As pessoas eram chamadas a ligar para um número que o governo pôs à disposição ou a enviar emails para o sítio do PM. No lançamento do programa o próprio Abhisit esteve no Call Centre para atender a chamadas e anotar o que ia sendo dito.

Clara acção de propaganda, como sempre o são por mais bem intencionado que seja o proponente, que acabou sendo um tiro no pé.

O prazo para a campanha foi curto: de 1 a 6 de Julho.

O número de linhas disponíveis reduzido: 300 linhas.

O processo pouco claro e lançado à pressa: anunciado escassos dias antes de começar.

Conclusão. Ao fim da primeira hora o sistema intupiu com tantas as chamadas feitas tornando-se inútil a presença de Abhisit e irritando os respondentes. Quando foi retomado as queixas eram mais do que as sugestões. Os temas principais eram o endividamento das famílias e o custo de vida (como seria de esperar) e o próprio Abhisit foi bombardeado com insultos e impropérios que teve de ouvir.

Como mostra o cartoon do Bangkok Post de hoje o PM estará mais mareado do que esclarecido tantas são as questões que foram colocadas e a campanha que era suposto ser um trunfo a favor do Governo numa campanha de boa imagem acabou por se tornar um exercício pouco esclarecedor e demasiado custoso como o qualifica parte da comunicação social.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Modernidades

Em tempo de Campeonato do Mundo e de tanto apelo à introdução de alguma tecnologia que auxilie os 8 olhos dos árbitros em campo este cartoon hoje publicado no The Nation merece aplausos.

Frustação?

Várias pessoas me têm perguntado se fui de férias devido à ausência do "espaço" há já uns dias.

Na realidade não fui mas apoderou-se de mim uma certa dificuldade para prosseguir.

Quando comecei a escrever já lá vão dois anos pretendia relatar um pouco do meu dia a dia em Bangkok. Acontece que durante esse tempo aquilo que acabou por dominar o meu trabalho e o meu dia a dia na capital foi os acontecimentos políticos.

Por força da minha actividade profissional, pelo impacto no nosso viver e porque na realidade este aspecto da vida da sociedade tailandesa era o dominante.

As lutas que se desenvolveram, primeiro contra os governos de raiz Thaksin, constituídos após as eleições de 2007 em que o Partido que representava os seus interesses ganhou, e depois contra o presente governo de Abhisit Vejjajiva foram o "prato do dia", e continuam a condicionar a vida diária não só nesta capital mas também em todo o país.

A Tailândia viveu momentos muito difíceis, infelizmente bastantes pessoas pagaram com a vida as diferenças que se iam acentuando na sociedade, mas também de alguma forma foi crescendo em consciência e em entendimento a necessidade de algo ser mudado. Tal veio ontem a lume em mais uma sondagem da Universidade Católica, que confirmava que uma larga maioria, mais de 2/3 dos inquiridos, de uma amostra superior a 2.000 pessoas por todo o país, embora não acreditando no plano de reconciliação iniciado pelo Governo, estavam desejosas de ver o país caminhar num rumo democrático e onde todos pudessem ter a sua voz.

O país está disposto a aceitar a diversidade e as diferenças de opinião, sempre tão positivo numa sociedade, mas na realidade tão não acontece.

Após ter sido interrompido o protesto da UDD, e digo interrompido já que nenhuma das causas que o iniciou se alterou e portanto o seu regresso é somente uma questão de tempo, o país mergulhou num período de estranha apatia e alguns dos sinais que existem são deveras preocupantes.

Em primeiro lugar o Estado de Emergência continua em vigor, o que por si só significa que o Governo entende que o país não está estabilizado. Há muitas leis que podem ser invocadas para defender ameaças para além do Estado de Emergência. Há muitos que contestam o facto de todos os países continuarem a ter alertas sobre as condições de viagem para o país, mas esquecem-se que os primeiros a dizer que a situação não está estabilizada é o próprio governo tailandês.

O Estado de Emergência mantém-se em vigor apesar dos apelos de muitos, inclusive apoiantes do governo, nomeadamente o sector empresarial (a falta de clientes na maioria de locais como hotéis, restaurantes, lojas, etc é uma realidade em todo o país), e para sustentar a sua manutenção o governo alega o facto de ter havido recentemente dois incidentes com explosivos. Um na sede do partido de Nevin (os jornais esqueceram-se de referir que o próprio Nevin, nos tempos em que alinhava com Thaksin, fez explodir a própria casa em Buriram e quando as evidências eram tantas de que não tinha sido um atentado escudou-se num acidente) que provocou pequenos estragos e um ferido ligeiro. O outro incidente foi o lançamento de três granadas contra um depósito de combustível na região da grande Bangkok. Os jornais no dia seguinte vieram com grandes manchetes de que teria sido um acto muito bem e demoradamente preparado. Difícil de crer já que os depósitos estão desactivados há mais de 20 anos e portanto se foi longamente preparado talvez tenha começado por essa altura mas os autores esqueceram-se de reanalisar a situação. O ataque não provocou nenhuns danos para além de mostrar, ainda mais, a ferrugem que corrói esses depósitos.

Onde o Estado de Emergência está a ser eficaz é no controlo da comunicação social e de toda a informação que circula na net. Têm sido realizados vários seminários na capital abordando essa questão, que parece ser o tema do momento, e a aplicação do art.º 9 do decreto que estabelece o Estado de Emergência que autoriza o governo a fechar meios de comunicação e a exercer censura sempre que entender que a segurança do estado está em perigo. Nós portugueses, conhecemos, infelizmente, bastante bem o que são este tipo de intervenções em defesa da segurança do estado. Deveremos ser mesmo peritos a nível mundial pois sofremos essa mesma indesejada intervenção vinda de dois quadrantes políticos ditos opostos.
Nos tempos de Thaksin os abusos sobre a liberdade de imprensa eram exercidos pela via do dinheiro. O estado e as empresas que queriam estar de bem com o governo selecionavam os meios de comunicação onde colocavam a sua publicidade de acordo com aquilo que estes relatavam. Outro modo era a continuada pressão através de acções criminais contra editores ou jornalistas que escreviam artigos tidos por ser contra o regime. Agora é tudo mais silencioso e feito ao abrigo da evocação da segurança do estado. Fecham-se os meios de comunicação, bloqueiam-se acessos e prendem-se pessoas mas ninguém é acusado formalmente e nem sequer à capacidade de apelar. Assim acontece e não há contestação possível.

Os sítios de net, Twitters, Facebook, etc, que têm sido fechados atingem, segundo alguns, já a casa dos 6 dígitos e o trabalho continua. Para além disso o governo, dizia hoje um dos mais reputados professores de ciência política da Universidade de Chulalongkorn, se o facto se deveria á desproporcional força actualmente detida pelos militares e não propriamente ao governo, está apostado na erradicação de todos os meios de comunicação que não transmitam a "verdade". Um jornalista francês que trabalha para a agência France 24, refere, também hoje, que durante os incidentes de Maio foi chamado ao CRES onde lhe perguntaram porque ia regularmente ao acampamento de Rajaprasong, ao que ele disse que ali ia para obter informação. A resposta que obteve é que, como ele fala tailandês fluentemente, deveria ouvir a televisão (estatal) se queria ter informação correcta e clara (presume-se que não disseram isenta ou que o trabalho de um correspondente é sentar-se no sofá e reproduzir a informação oficial).

Para além disso muitos outros factos vão acontecendo pelo país fora que não revelam estar-se num período de reconciliação ou a para lá caminhar.

Torna-se por demais doloroso ver que a muito necessária reconciliação e unidade não avança.

Sempre acreditei que os valores não se impõem, que os sentimentos não se injectam. O fundamental quando há uma mensagem a transmitir é que ela chegue ao destinatário e dele seja entendida no sentido de assimilada. Só assim a comunicação flui só assim se criam consciências desenvolvidas e capazes de intervir para benefício das sociedades em que se inserem.

Impor seja o que for a nada conduz mas pode contudo levar exactamente ao contrário daquilo que se pretende. É a velha história de empurrar a tampa da panela com força para baixo enquanto a água continua a ferver. Não resulta ela irá saltar um dia e nesse momento em vez de ser um movimento concertado será uma erupção, sempre pior.

Um dos grandes erros que muitas vezes as pessoas fazem é saber que uma mudança está no ar mas lutar desesperadamente contra ela. Se essa mudança é inevitável, e não me refiro exclusivamente a este país refiro-me a tudo em geral, é sempre preferível sermos o agente da mudança do que sermos colhidos na torrente das águas dessa mudança e portanto sermos levados na enxurrada sem nada poder-mos fazer.

No fundo talvez seja alguma frustração que me levou a parar estes dias, na expectativa de ver algo positivo acontecer.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sétimo Céu

Estar fora faz olhar para "dentro" com outros olhos e é sempre uma alegria, uma emoção quando vemos o vermelho e verde da bandeira e das cores de Portugal a fazerem as manchetes na comunicação social.

Os dois jornais de língua inglesa na capital trazem curiosamente o mesmo título para falar sobe a inesperada goleada da selecção portuguesa contra os norte coreanos – Seven Heaven, assim titulam quer o Bangkok Post quer o The Nation.

As páginas dos jornais, incluindo os de língua tailandesa trazem todos na primeira página destaques com o "feito" da Selecção e sempre com a referência ao 7 que é o número de Ronaldo muito conhecido por aqui fundamentalmente pelo seu trabalho no Manchester United. Os tailandeses são grandes aficionados do futebol e todos os jogos do campeonato inglês são transmitidos em directo pelos vários canais de desporto pelo que os jogadores ingleses e das equipas da "premiership" ganham enorme popularidade.

Por outro lado os patrocinadores de variados produtos que apoiam o seu marketing nas imagens de jogadores de futebol estão bastante activos no mercado tailandês e existem por todo o lado promoções de produtos com as caras dos craques a actuar na África do Sul e Ronaldo é um dos que tem uma das maiores fatias nessa publicidade.

Muitos dos metros de superfície têm o seu exterior decorado com a fotografia de Ronaldo publicitando uma marca de "shampoo".

Muitas foram as mensagens de felicitações que ontem recebi pela "cabazada" da Selecção o que é sempre um motivo de orgulho e regozijo.

Esperemos agora pelo Brasil para ver a consistência da equipa nacional.

A única coisa que me preocupa agora é pensar que os Estados Unidos vão por certo requerer a nossa astúcia para resolver os problemas que têm com a Coreia do Norte.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

19 de Junho

No dia 19 de Junho "celebrou-se" um mês sobre os acontecimentos sangrentos e tristes que ensombraram a cidade de Bangkok e que puseram fim à manifestação da UDD com as consequências em perdas de vidas e bens que se conhece.

Continua sem se saber o que quer que seja sobre quem, como, e por que razão foram mortas tantas pessoas, na sua grande maíoria, civis indefesos, incluíndo alguns jornalistas estrangeiros, e foram destruidos ou danificados tantos edifícios. Muitos especulam mas verdades duras e cruas não existem.

Tarda em haver um inquérito e já ninguém acredita que a investigação que será levada a cabo (será?) por Kanit na Nakhon, venha a ver a luz do dia, como o mostram todas as sondagens que recentemente saíram onde mais de 50% dos inquiridos nela não acredita.

Como parte do "lembrar o dia 19" foi realizado, no Sábado, na Universidade de Thammasat um seminário onde falaram vários académicos que se mostraram fortes críticos do governo e da actuação das forças da ordem durante as operações que causaram as perdas que referi.

Deixo aqui o relato desse seminário conforme foi visto pelos jornalistas do The Nation, cuja leitura recomendo.

Uma curiosidade sobre esta data 19.

Foi no dia 19 de Setembro de 2006 que aconteceu o último golpe de estado. Foi no dia 19 de Setembro de 2009 que o Rei Bhumipol foi internado no hospital Siriraj, onde ainda se encontra já lá vão mais de 9 meses apesar de por duas vezes uma das suas filhas ter dito que o monarca estava bem de saúde e saíria em breve, e foi no dia 19 de Maio de 2010 que o governo decidiu avançar contra os manifestntes da UDD pondo fim à manifestação que durava desde 12 de Março terminando assim uma página triste da história da cidade e do país.