quinta-feira, 31 de março de 2011

Submarinos

Um dos temas do momento é a mais que provável decisão do governo esperada (ansiosamente) pelo Chefe do Estado-maior da Armada sobre a compra de seis submarinos alemães que hoje mesmo são desactivados do serviço efectivo das forças armadas alemãs.

Diz o CEMA tailandês que os submarinos têm um tempo de vida de 6 a 7 anos e por isso requer uma decisão urgente do Governo.

Clama-se que o país necessita de fortalecer a sua esquadra no Mar Andamão visto os seus vizinhos (Singapura, Malásia e Índia) estarem muito melhor equipados do que a marinha tailandesa e que a ambição de ter submarinos já tem 60 anos.

Num momento em que a generalizada subida dos preços com o consequente impacto no agravar das condições do custo de vida para as populações está a pedir muitos sacrifícios há muitas perguntas no ar sobre a razão da compra e necessidade daqueles submarinos.

No momento também em que o Sul do país se debate com fortes problemas provocados por chuvas intensas e onde muitos (relata-se mais de 1 milhão) se encontra desalojado e a viver de apoios que lhes possam ser fornecidos e pelas doações que estão a ser pedidas em todos os meios de comunicação social as vozes contra o dispêndio dos 7,7 milhões de baht não se calam.

Coincidência ou não a marinha tem sido a principal força a actuar no apoio às vítimas mostrando e dando uso aos meios de que dispõem.

O cartoon hoje publicado pelo Bangkok Post é bem o sentir de muitos sobre a situação.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Clima na Tailândia

Já há dias me referi ao clima actual na Tailândia e ás suas mudanças não muito diferente do que se passa pelo Mundo. Já passou aquela altura em que podíamos responder com certeza ao tempo que iria fazer numa certa altura do ano. Em Agosto por certo que havia calor e em Dezembro frio e chuva. Agora parece que tudo mudou e para pior. Não sou cientista só sei ler as permanentes noticias sobre as modificações climatéricas que o nosso modo de vida vai causando a este planeta mas penso que é de todos sentido que a nossa acção não é de facto a melhor. Basta vermos os fumos e os gazes que produzimos, os triliões de toneladas de lixo não biodegradável que atiramos para o mundo, para vermos que algo está mal. Por outro lado as mais constantes catástrofes naturais deveriam ser uma alerta mas são somente um sinal para mais discussões e reuniões infrutíferas. Actualmente a Tailândia está a sofrer o seguinte, numa altura em que deveria haver tempo seco temperaturas entre os 25 e os 30 graus e pouca humidade. Frio em Bangkok e no norte do país com temperaturas a atingirem os 4,8º na província de Loei. Em Bangkok sente-se realmente frio e nestes todos anos que já cá vivo foi este o primeiro em que senti frio de verdade. A temperatura varia entre os 15 e os 22 º mas o vento que também não existe normalmente faz com que a temperatura real seja bastante inferior. No Norte do país morreram inúmeras cabeças de gado devido ás baixas temperaturas e o Ministério da Agricultura já pôs em funcionamento vários apoios a agricultores que não estão habituados a estas temperaturas. Outras zonas do Norte e Nordeste foram declaradas zonas de seca pois não chove a os arrozais estão a esgotar a água.

Mas o problema maior regista-se no Sul onde já morreram pelo menos umas 20 a 30 pessoas por problemas causados por fortes chuvas e ventos que inundaram um largo número de províncias e deixaram milhares de turistas bloqueados em Samui, Ko Tao, Ko Pangnan e Krabi. O total de pessoas afectadas anda na casa de 1 milhão. A marinha já fez deslocar para lá um porta-aviões e uma fragata de modo a possibilitar a evacuação de populações aprisionadas pelas águas e as operações de socorro prosseguem. Não há dúvida que o país é bastante comprido cobrindo cerca de 12º de latitude mas temos actualmente quase que todas as situações climatéricas e algumas totalmente opostas. Para além disso não são as esperadas ou previsíveis para esta altura do ano. Os consulados de todos os países têm estado a trabalhar sem descanso para informar o seus nacionais que se encontram bloqueados pelas cheias ou aguardando transporte mas há sempre quem tenha um prazer em entrar pela porta errada.


Um jornal de Phuket Wan Tourist News anunciava esta manhã num despacho de um jornalista (?) que perto de Krabi tinha havido uma avalanche que tinha destruindo 8 aldeias e havia pelo menos 1.000 mortos. Nos dias de hoje como se sabe a notícia espalhou-se rapidamente e colocou todos em busca da verdade que felizmente está muito longe daquilo que o senhor Allan Morison escreveu. Houve na verdade uma pequena avalanche, como é normal nestes casos de chuvas intensas e contínuas, que provocou a morte, confirmada de 10 pessoas. Uma questão de zeros e de seriedade que ainda não vi desmentida no dito jornal (?). Assim vamos tratando o nosso mundo.


Mal com a nossa actuação descuidada e pessimamente aqueles que pensam informar mas desinformam.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Encerramento do Aeroporto

O Tribunal Civil acaba de pronunciar uma sentença condenando 13 líderes do PAD a pagar à AOT, a empresa que gere os aeroportos tailandeses, a quantia de 552 milhões de baht, qualquer coisa como um pouco mais de 12 milhões de euros, pela ocupação e consequente encerramento dos dois aeroportos da capital durante uma semana em Dezembro de 2008.

Será que vai ser pago é uma questão que fica no ar?

Note-se a disparidade deste número com o então calculado pelo Banco da Tailândia, o banco central, que foi de 61 mil milhões de euros de prejuízo. De igual modo bastantes companhias aéreas estrangeiras que viram as suas operações afectadas solicitaram à AOT indemnizações de largas centenas de milhões de Euros. Tal indemnizações não chegaram a ser pagas porque foram feitos acordos extrajudiciais com os queixosos. Não me parece que as companhias tivessem baixado os seus pedidos das largas centenas de milhões para se encaixarem naqueles "modestos" 12 milhões.

Um caso a seguir.

Declarações em tempo Eleitoral


Em tempos de pré campanha eleitoral muitas vezes dizem-se coisas que fazem pouco sentido e algumas provocam mais ondas de choque do que o tremor de terra ontem sentido no Norte da Tailândia cujo epicentro se situou na Birmânia não muito longe da fronteira com Chiang Rai. Desse tremor não são conhecidas as consequências no país vizinho, sempre tão fechado ao Mundo, e aqui provocou a morte de uma mulher que foi atingida pela parede da sua casa que ruiu, na província de Chiang Rai,

Foi esse o caso das palavras proferidas pelo Vice-primeiro-ministro Suthep Thaugsuban ontem e relatadas em toda a imprensa nacional e internacional.

Os jornalistas perguntavam a Suthep sobre a possibilidade de haver observadores estrangeiros nas próximas eleições parlamentares em princípio agendadas para a última semana de Junho ou primeira de Julho ao que o governante respondeu não.

Suthep numa declaração muito clara, afirmou que " Eu não respeito os estrangeiros (usou a palavra farang sinónimo de ocidentais) e acho que não temos que nos vergar a eles" para continuar dizendo não entender como é que os camisas vermelhas queriam "abrir mão da soberania tailandesa" ao requererem que observadores estrangeiros estivessem presentes durante as eleições.

Suthep estava a fazer uma intervenção política clara, tentando apelar a elementos nacionalistas mas foi pouco cuidado na forma como se expressou o que espantou tudo e todos.

Recorde-se que a Tailândia se dispensasse os "farangs" e outros estrangeiros como os japoneses, veria a sua indústria basicamente desaparecer visto ela ter por base, em mais de 80%, o investimento estrangeiro.

No que respeita a observação das eleições continua a ser confundido tal facto como uma ingerência interna nos assuntos tailandeses tal como o foi durante as eleições de 2007. Recordo que nessa altura quando o então Embaixador de Portugal, exercendo a presidência da União Europeia, foi propor ao governo uma missão de observação, tal facto originou fortes e errados comentários na comunicação social alguns mesmo de carácter profundamente xenófobo. As missões de observação eleitoral da UE acontecem em muitos países no Mundo, incluindo os Estados Unidos, e são sempre bem recebidas pois são usadas para fortalecer o processo e nunca para nele se imiscuir.

Suthep para terminar a sua cruzada anti-estrangeiro acabou a dizer que concordava com os chefes militares tailandeses no que respeita a recusarem-se a participar na reunião da Comissão de Demarcação da Fronteira (com o Camboja) agendada para Jacarta dentro de duas semanas visto no seu entender a reunião não necessitar de nenhuma mediação e deve ser somente bilateral. Suthep parece ter-se esquecido que essa reunião tinha sido previamente acordada (a 22 de Fevereiro) pelo seu colega de gabinete, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, e por certo a posição da Tailândia nessa reunião foi discutida e concertada em conselho de ministros onde Suthep é o número dois como sempre acontece nestes casos.

As campanhas eleitorais por vezes fazem com que os pensamentos e as palavras dos políticos sejam mais rápidos do que o que a cabeça deverá ditar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Demissão de Sócrates

Numa mais que anunciada e muitos dirão atrasada decisão o PM português entregou a sua "resignação" ao PR ontem ao final do dia depois de ter perdido no Parlamento o voto que lhe daria mais uns tempos em São Bento.

O Parlamento acabou por dizer Não ao PEC IV. O PSD desta vez, contrariamente ao que tinha feito antes (abstenção), votou contra o que foi o suficiente para que mais uma medida de austeridade levasse a que ao fim de seis anos o PM apresentasse a sua demissão do cargo.

Cabe agora ao PR consultar os partidos com assento parlamentar e todas as forças que entender por bem, e decidir. Poderá decidir por solicitar ao partido mais votado, o do demissionário PM Sócrates, para apresentar outro governo, pode solicitar a outro partido que se "aventure" a constituir governo ou pode, sendo esta a mais provável decisão, depois de consultar o Conselho de Estado convocar novas eleições legislativas que se realizarão num prazo de até 55 dias após a sua convocação.

O plano de austeridade ontem apresentado era o PEC IV, ou seja tinha três irmãos anteriores, três planos que se mostraram incapazes de resolver o que quer que seja e só mantiveram a nau a flutuar num mar muito revolto.

As medidas têm sido pouco criativas e assentam sempre em duas vertentes. O corte de custos públicos e o aumento da receita fiscal. Qualquer das medidas tem o seu limite e caricaturava-se há dias em todos os jornais mostrando que o PEC IV era a forma de os contribuintes irem entregar a última coisa que lhes restava ou seja a roupa que vestiam.

A capacidade dos portugueses encontrarem mais fundos nos bolsos está esgotada e pedir mais aos mesmos nada adianta a não ser manter essa nau desgovernada a flutuar por mais um tempo, cada vez mais escasso.

Em Julho do ano passado este mesmo governo que ontem "se rendeu" tinha apresentado um plano de austeridade anunciado quer pelo PM quer pelo Ministro das Finanças como a correcção necessária para os desajustes da economia portuguesa.

Esse acto mostrou a total incompetência do executivo Ou por um lado não sabia qual era a realidade financeira do país, o que é grave pois está na sua mão conhecer as contas do estado, ou por outro lado estava a mentir ao povo português levando-o a entender que aprovando aquele plano se entraria num novo capítulo de ajustes orçamentais e estruturais da economia.

Enganado Portugal lá teve de aceitar um segundo e um terceiro plano sempre com as mesmas medidas cada vez mais rigorosas mas sempre socorrendo-se dos bolsos rotos e esvaziados dos contribuintes.

A economia mundial já tinha passado pelo seu pior momento do último choque quando Sócrates apresentou ao país o seu PEC I salvador da crise que afectava o país o que lhe oferece menos desculpas.

Portugal vive sobre a espada de uma intervenção do FMI como se isso fosse uma desgraça que levaria o país para o fundo de uma escuridão de onde não sairia.

Na nossa casa não se deseja haver outros a impor regras mas quando não somos capazes, e há que lembrar que os portugueses reelegeram o actual demissionário PM recentemente, devemos aceitar isso de cara limpa e olhando para a frente e há no Mundo exemplos de sobra de países que ainda há pouco estavam nessa situação e que agora brilham (Indonésia e Argentina são dois exemplos). O facto de estarmos na zona Euro retira-nos alguma margem de manobra mas o mesmo se passou com a Grécia e a Irlanda e o facto de terem sido ajudados não lhes retirou capacidade de futuro.

O que nos tirará essa capacidade será a nossa inabilidade, se assim continuarmos, para construir o país.

Falta-nos uma noção de país, de pátria e uma capacidade de projectar vitórias. Não somos capazes de dar as mãos em seguir em frente. Só causas fúteis como a Selecção de futebol é que nos consegue aglutinar e mesmo assim teve de ser um brasileiro, Scolarai, a dar esse empurrão.

Há uma anedota que corre na net que mostra isso bem. Pergunta um português a outro. "Como é possível que um povo como o nosso descendente dos grandes conquistadores do Mundo chegue tão baixo?" E o outro responde: "Estás enganado nós somos descendentes daqueles que ficaram não dos que partiram à conquista do Mundo".

A apresentação de demissão de Sócrates, que muito provavelmente será aceite pelo PR, coloca contudo mais incertezas do que certezas.

Qual vai ser a solução possível? Quem é o líder que neste momento é capaz de galvanizar os portugueses para o futuro? Quem terá a coragem de apresentar ideias inovadoras que consigam colocar o país a olhar para a frente e não para os pés? Vem esse líder que de partido? E se as eleições continuarem a mostrar a enorme insuficiência de mentes capazes de fazer aquilo que atrás descrevo?

Confesso que tenho grande dificuldade em vislumbrar neste momento quem, será capaz de semelhante tarefa e tenho um terrível medo quando de alguma forma considero Sócrates como um dos melhores políticos actualmente em Portugal, pelo menos visíveis à superfície.

Sou voluntarista por natureza e tento pensar que há no espectro partidário português pessoas capazes da tarefa que se lhes vai pedir, mas acabo por ser pouco convicto neste meu sonho que quero que seja uma realidade.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Indiferença

Desde os tempos de Thaksin Shinawatra que os Primeiros-Ministros se habituaram a ter um programa televisivo semanal onde falam aos tailandeses tentando explicar as suas políticas e atrair atenção do país e porque não dizê-lo dos eleitores já que esses programas, qualquer que tenha sido o protagonista, são sempre usados para promoção política pessoal.

Abhisit não fugiu a essa regra e desde sempre tem um programa ao Domingo de manhã nas televisões estatais. Dantes intitulava-se "Trust in Thailand under PM Abhisit weekly show" e agora chama-se "Inside the cabinet show". O programa tem como propósito mostrar ao país as políticas do governo e a forma como o são implementadas.

Hoje veio a público uma sondagem feita pelo Instituto Nacional de Estatística entre 1 e 17 de Dezembro de 2010 que mostra a indiferença do público para com o programa e a forma como tal tem crescido.

Antes 6.2% dos inquiridos viam o programa com regularidade contra somente 3,4% durante o período que correu o inquérito; Viam ocasionalmente 54,6% contra 33,1% e nunca viam 39,2% contra os actuais (Dezembro) 63,5%. A diferença é bastante significativa e mostra um desinteresse pelo programa perto do dobro do anteriormente registado.

Também aqui na Tailândia, como em muitos outros países no Mundo, começa a haver um sentido de desinteresse pelas questões da política que se torna preocupante. As pessoas a cada dia sentem mais as preocupações e as dificuldades com o aumento do custo de vida e é isso que os interessa.

Ainda anteontem, ao mesmo tempo que o PM Abhisit dizia na sua alocução no FCCT que a economia estava a brilhar e a crescer, o antigo Ministro das Finanças do governo do General Surayuth (governo constituído na sequência do golpe de estado de 2006), M.R. Pridyanon Devakhula, afirmava exactamente o contrário. O ex Ministro alertava o país para os graves riscos que está a correr, no seu entender, com o excessivo endividamento e com as políticas intervencionistas do governo. Um dos exemplos disso é o caso do gasóleo pois por cada litro consumido o governo gasta 1/5 do preço total. O mesmo tipo de política de manutenção artificial de preços baixos passa-se com um significante número de outros produtos o que está a constituir um peso muito significativo para o orçamento sem que disso a população mostre perceber resultados. De igual forma o aumento das despesas militares em 161% desde 2006 até ao presente orçamento são outra questão a fazer subir a preocupação.

O alheamento dos cidadãos da política do seu país nunca foi um bom sintoma e acaba quase sempre por ser aproveitado por minorias que se tornam os arautos do descontentamento enquanto as maiorias se mantêm silenciosas. A Tailândia tem visto isto bem nos últimos anos com os movimentos de rua venham eles de que lado vier. Um exemplo disso muito recente é o facto do PAD-Amarelo estar a ocupar uma parte importante da cidade velha desde o dia 25 de Janeiro, não sendo mais do que umas escassas centenas, e já ninguém se preocupa com o facto.

A indiferença é um mau sinal para a Democracia

terça-feira, 22 de março de 2011

Autoridade

O Chefe do Estado-maior do Exército e o Ministro da Defesa anunciaram hoje que se recusavam a participar na reunião bilateral com o Camboja relativa às questões fronteiriças que terá lugar no início de Abril em Jacarta.

Na sequência dos conflitos fronteiriços de há cerca de um mês entre os dois países e da reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 22 de Fevereiro os Ministros dos Negócios Estrangeiros da ASEAN reuniram-se em Jacarta, sob os auspícios da Indonésia, actual Presidente da ASEAN, onde decidiram que a Indonésia enviaria uma missão de observadores para a fronteira entre os dois países e organizaria as reuniões da Comissão de Demarcação da Fronteira, reunião essa que foi então aprazada para o início de Abril como refiro acima.

Na sequência daquela reunião de Jacarta foram enviados a cada país os termos da missão de observadores e a convocação para a reunião.

No que respeita aos observadores o Camboja anuiu de imediato com a proposta Indonésia mas o MNE da Tailândia enviou o documento para análise das estruturas militares de onde ainda não saiu decisão, embora o General Prayuth já tenha feitio saber que não está de acordo com a presença dos observadores e mesmo recusou uma proposta cambojana para a constituição de patrulhas conjuntas (tailandeses e cambojanos) acompanhadas dos observadores indonésios.

O General afirma que as forças armadas dos dois países têm muito boas relações e portanto todas as questões deverão ser tratadas entre eles "sem nenhum intervenção externa".

Compreende-se o que o General diz mas o que está em questão é a credibilidade do país no contexto internacional. O país através do seu qualificado representante acordou uma matéria num fórum internacional que vem mais tarde a ser colocada em causa pela estrutura militar.

Difícil de entender isto um dia após o PM Abhisit ter afirmado na sua anual presença no Clube dos Correspondentes Estrangeiros, que presenciei, e respondendo a uma pergunta de uma jornalista australiana sob a capacidade do seu governo implementar o programa que se propõem quando segundo ela há forças que parecem interessadas no seu bloqueio, que o seu governo é o único legítimo representante dos interesses da nação tailandesa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Frio



O tempo na Tailândia está anormalmente frio. Esta manhã quando me dirigia para o escritório estavam 18º e ao meio-dia 20º.

Se bem que possa fazer sorrir muitos dos leitores esta temperatura é considerada uma temperatura fria e então se há uma pequena brisa sente-se mais.

É normal ver-se as pessoas usarem agasalhos nesta altura.

Fundamentalmente há duas estações no país.

Uma estação mais fria que vai de Novembro até final de Março e onde as temperaturas andaram normalmente na casa dos 20º mas mais perto dos 30º do que dos 19º, a humidade é relativamente baixa e fundamentalmente não chove.

No resto do ano as temperaturas andam sempre acima dos 30º, a humidade bastante alta e as chuvas (tropicais em geral) são diárias se bem que isso pouco incomode. Basta guardar-se um pouco esperar pela passagem da chuva e continuar e mesmo quando se apanha uma forte molhadela a roupa seca rápido.

Contudo nos últimos dias a temperatura baixou e houve alguns períodos de chuva ora chuvadas muito fortes ora, como hoje, uns chuviscos muito ligeiros.

É normal os europeus "gozarem" com o frio que os tailandeses (tal como os ingleses o tempo é tema preferencial nas conversas) sentem pois na realidade temperaturas como as que hoje se sente são verdadeiras primaveras para nós mesmo para aqueles, como eu, de climas mais temperados do sul da Europa.

Hoje, contudo, apareceu uma notícia num jornal, que se não se tratasse de um drama dava para rir por longo tempo.

O título rezava: "O frio mata homem de idade". No corpo da notícia descreve-se que foi encontrado, na província de Pithsanulook um homem de 83 anos morto que apesar dos 16º registados estava simplesmente vestido com uma T-Shirt e uns calções e isso teria sido a causa da sua morte. A notícia refere ainda que junto do corpo foram encontradas algumas garrafas (plural) de "lao khao" um whisky local, feito de arroz, com um muito elevado teor álcoolico.

Parece credível ter sido os graus dentro das garrafas e não os graus no ambiente a causar a tragédia.

terça-feira, 15 de março de 2011

Guerra dos Urinóis

Hoje ao ler o título de uma notícia local só meu deu vontade de rir. Dizia a local que a " a Polícia falhou a conquista dos urinóis do PAD" .

Está instalada a guerra dos urinóis como grande símbolo da conquista amarela na capital.

O incidente conta-se em duas linhas.

O PAD ocupa parte de Rajadamnoen desde 25 de Janeiro e uma das primeiras operações foi a de montar uma verdadeira aldeia (tendas, locais para dormir, tomar banho, cozinhar e os famigerados urinóis) onde os seus apoiantes pudessem estar acampados. As manifestações aqui desenvolvem-se assim. Podem ser poucas pessoas (o que é um facto neste caso) mas ocupam largos espaços pois montam-se verdadeiros acampamentos onde as pessoas permanecem largos tempos (lembre-se que a anterior dos amarelos em 2008 durou 192 dias).

A polícia da capital já emitiu um sem número de comunicados avisando os amarelos de que têm de abrir espaço para o normal funcionamento da zona (passagem de pessoas e carros e acesso a edifícios) mas os manifestantes fazem orelhas moucas e há dias mesmo o General Chamlong avisou que se a polícia os desalojasse pela força ele próprio comandaria um grupo dos seus militantes para invadir o palácio do governo (e pessoas ninguém o vai prender já que le está em liberdade sob caução e impedido de incitar à insurreição).

Ontem então uma força de 1.200 polícias em fatos de combate anti-motim avançou para o local com o nobre intuito de "conquistar os urinóis" mas foi de tal impedido por uma dezena de guardas do PAD que desafiaram a polícia com as grades de ferro que usam para cercar o acampamento tendo a polícia, devido por certo á sua fraqueza numérica (1.200 contra 10), retirado par repensar a estratégia.

Grande vitória esta madrugada pelas 5:30 da manhã os urinóis foram desalojados e o terreno declarado terra libertada.

Assim se fazem as grandes conquistas contra as dezenas de guerreiros amarelos na capital.

Uma questão que continua por se entender é porque razão eles ali estão já que não se sabe bem o que é que pedem.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Somos todos Japoneses

Embora a cerca de 4.900 quilómetros de distância em Bangkok "sentiu-se" bastante o drama que se vive neste momento no Japão.

Não me quero alargar muito sobre tamanha tragédia já bem conhecida de todos.

Estava a almoçar na Sexta quando recebi (seria 12.50 hora de Bangkok) uma mensagem através de um serviço de alertas sobre o que se tinha passado na costa Leste do Japão. As notícias correm tão rápidas como a devastação daquela massa disforme de água que tudo levou na sua fúria.

Ao princípio falava-se de uma pequena zona e de umas dezenas de fatalidades. Fez-me lembrar semelhante caso em 26 de Dezembro de 2004, aqui bem perto, quando as primeiras notícias que recebi falavam em algumas zonas destruídas em Phuket e em cerca de 200 mortos. Como infelizmente se sabe acabou por se estender a uma muito vasta área no oceano Indico e o número de mortos só parou próximo dos 300.000.

A tragédia japonesa tem dimensões ainda difíceis de se contabilizar. Em números de pessoas que perderam a vida (nem quero dizer nenhum número pois o que gostaria de dizer era zero), os danos, totalmente incalculáveis e irrecuperáveis, em bens perdidos pelas pessoas, os perigos para a saúde presente e futura devido ao que está a acontecer nas centrais nucleares, os danos para a economia do país com a falta de energia, com os portos fechados á exportação, com as fabricas paradas por falta de tudo, com a fuga do investimento, com os triliões que vão ter de ser usados para tentar sarar as feridas de um país tão martirizado, etc., etc.

O Japão é o maior investidor estrangeiro na Tailândia e existe uma grande comunidade japonesa vivendo aqui e conheço bem a qualidade de que é feita este povo. Durante a minha vida profissional tive a oportunidade de trabalhar bastantes anos com Japoneses, de visitar inúmeras vezes o Japão donde conheço não só a maioria das cidades como parte do interior do pais e consigo compreender um pouco como é que irão voltar a andar de cabeça erguida, sofrendo no seu intimo mas com a mesma determinação como construíram a segunda maior economia do mundo no rescaldo do pós guerra.

Como disse o PM Naoto Kan este é o maior desafio para o Japão depois da devastação que aconteceu após a segunda guerra mundial, e pessoalmente penso que é mesmo maior se bem que o número de mortos será inferior ao dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. O sentir dos japoneses nos anos 40-50 é bem diferente daquele que existe hoje em dia. Os japoneses conseguiram, fundamentalmente nas décadas entre 65-85 transformar o país de uma forma que também transformou a cultura do país de forma significativa. Hoje o país pode estar preparado para enfrentar um desastre das proporções do de Sexta passada mas no que respeita a reconstrução do país haverá sentimentos diferentes do que os daqueles tempos. Não quer isto dizer que os japoneses irão baixar os braços, não é povo para isso fazer, mas irão ser mais cerebrais, mais calculistas, mais formais na forma como enfrentarão a crise.

As palavras ditas na ocasião pelo Presidente Obama deveriam soar forte no Mundo. "Nestes momentos entendemos que não existem cores, religiões ou raças, somos todos humanidade e assim deverá ser" (de memória). Apetece-me dizer que todos somos japoneses.

A minha muita admiração pelos Japoneses (sentimento ainda há segundos confirmado em conversa com a Embaixada do Japão aqui em Bangkok) faz-me crer que saberão chorar sem medo, lavar as lágrimas e deitar mãos à obra e reconstruir o país com determinação e lá irão adiando aquela pergunta que se houve em Tóquio muitas vezes: "E para mim?" quando os japoneses se referem aos esforços que sempre fizeram em prol do país.

Entretanto a Tailândia irá em principio decidir hoje uma ajuda de emergência para o Japão no montante de 200 milhões de baht (4,7 milhões de Euros).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Imprevisibilidade

Já por várias vezes que referi que o mais previsível na Tailândia é a imprevisibilidade.

De alguma forma isto é um dos elementos que transforma este país, este povo e esta forma de vida numa caixa de surpresas diária e confere algum interesse àqueles que se dedicam a investigar o que por aqui se passa.

Anteontem e ontem referimos a decisão do CAPO de interditar todo e qualquer movimento não autorizado numa larga zona envolvendo a casa do PM Abhisit.

Pois hoje é anunciado que afinal a "No Go Zone" passa a ser uma "Go Zone" só que manifestações ou o uso de altifalantes na zona está proibido.

Felizes os residentes e comerciantes que se manifestaram contra a medida mas atenção que amanhã poderemos ter uma nova reviravolta no processo já que o navio parece ter demasiados comandantes ao leme e cada um pode ter afinal uma nova ideia sobre o rumo a seguir.

Entretanto no Sul tudo como dantes ou seja lá vão sendo colocadas mais umas bombas, morrendo umas pessoas, continuando o clima de medo entre as populações mas isso são pormenores sem grande significado. Uma vez numa visita a Khon Kaen, no nordeste do país, perguntava às pessoas com quem me encontrei a opinião deles sobre a insurreição no Sul do país e as respostas eram sintomáticas. Isso é lá no Sul (como se de outro país se tratasse) e é entre budistas e muçulmanos! Na realidade sendo um assunto que não faz ganhar votos, e as três províncias do Sul onde há confrontos diários há cerca de 7 anos elegem um número reduzido de deputados, não vale a pena o poder nem mesmo as populações não directamente afectadas preocuparem-se, pelo menos assim pensa quem vive ao Norte dessas três províncias!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mai Pen Rai

Ontem referi que a política de concessões e de cedência às manifestações por parte do governo podia criar precedentes complicados de gerir no futuro da mesma forma que será difícil de gerir o constante aumento do deficit orçamental.

A situação neste momento no que respeita manifestações começa a ser um pouco caricata com o aparecimento diário de grupos a protestarem por isto e aquilo.

O uso de direitos democráticos é um direito mas também um dever a quando começa a haver grupos sem ou com limitada representatividade a interferir com o normal funcionamento da sociedade temos que a democracia anarquiza-se para prejuízo de todos.

Os amarelos do PAD, estão aquartelados desde o dia 25 de Janeiro na zona nobre do sector mais antigo da cidade (Rajadamnoen) e embora sejam menos do que 500 ocupam uma parte significativa do local. Já foram intimidados por ordem judicial a "levantar o acampamento", que não obedeceram, já viram por duas vezes a polícia reduzir o espaço onde têm montadas tendas sendo que após a segunda vez o Major General Chamlong de imediato anunciou que iriam recuperar o "terreno perdido" e assim fizeram.

Um pouco mais acima, na parte Leste da Praça Real onde se encontra a estátua a cavalo do Rei Rama V e está o palácio de Ananta Samakhon, um grupo, também de não mais do que umas escassas centenas, da Assembleia dos Pobres está acampado impedindo o acesso ao Parlamento e ao Zoológico. Ali estão calmos e sossegados mas não se percebe bem o motivo a não ser que requerem que o governo os ajude a enfrentar os problemas financeiros em que se envolveram.

Em redor da Government House acampam sub grupos dos amarelos – a seita religiosa Sancti Asoke (tipo budistas radicais) e a Rede dos Patriotas Tailandeses que pedem a dissolução do governo. Também não são mais do que uma ou duas centenas.

Outro grupo que se manifesta no local é o PMOVE, o People Movement for Just Society, que reclama justiça igual para todos. Parece ser eventualmente uma dissidência dos vermelhos da UDD mas não se consegue bem entender já que pouco mais apresentam do que simples cartazes solicitando justiça.

Agora um grupo de residentes e empresários da zona onde vive o PM Abhisit e que se sente extremamente incomodado com o bloqueamento da zona onde vive (extremamente alargada como referi), manifesta-se solicitando a Abhisit que se mude para a residência oficial e deixe funcionar o comércio e que as pessoas possam chegar a suas casa sem problemas. Posso confirmar que a zona se transformou num "inferno" com a presença maciça de militares, arame farpado e armamento, como se de uma guerra se tratasse e é extremamente incomodativa para quem tenha ou queira deslocar-se na ou para a zona. Há pelo menos dois restaurantes na área que eu gosto de frequentar e nem sei se lá posso ir ou mesmo que consiga convencer os militares que montam as barreiras até lá chegar não me apetece dar-me a esse trabalho nem às demoras que isso acarreta.
Mas o problema não é só Bangkok. Há neste momento manifestações, por isto, por aquilo e por coisas que ainda nem sequer estão no pensamento de ninguém em Phitsanulook, Nakhorn Sawan, Angthong, Ayuthaya e eventualmente outros sítios que não conheço. Interessante que nenhuma destas províncias se situa em zonas tidas por serem vermelhas o que quer dizer ou que estes estão mais espalhados do que se sabe ou que muitos outros estão descontente ou a aproveitar-se das políticas "mai pen rai" do governo.

Mai Pen Rai é uma expressão estremamente típica na Tailândia, que inclusive mereceu ser título de um livro com algum interesse para quem queira entender a cultura base urbana do país, e que significa basicamente "não tem importância" de alguma forma associada com "não faz mal", não há problema" ou outras expressões semelhantes.

Quando se abre a porta nunca se sabe quem vem atrás e entra por ela e é isso que está a acontecer com a permissividade mostrada em Government House do que o descrito acima é um simples sinal.
Entretanto no Sul ontem morreram mais duas pessoas, um chefe de uma aldeia e uma criança de 14 meses, vítimas inocentes de uma situação que parece ser menos importante do que a casa do PM em Bangkok.


Ironias e Contradições

Contradições em tempos eleitorais: Por um lado o partido Democrata do PM Abhisit consegue reunir num jantar de colheita de fundos 750 milhões de baht (19 milhões de euros) atraindo inúmeras pessoas e portanto mostrando a sua popularidade o CAPO (Center for the Administration for the Peace and Order) decidiu fechar as ruas numa muito vasta área em redor da casa de Abhisit a todos os veículos não autorizados.

Entretanto o jantar está já a colocar algumas questões pois é obrigatório que as doações aos partidos superiores a 100.000 sejam declaradas á Comissão Nacional de Eleições e até esta manhã ninguém tinha apresentado nenhuma declaração relativa ao jantar de ontem. Fica a assim a dúvida de nesse jantar estariam 7.500 pessoas e todas sem excepção, incluindo Abhisit pagaram 100.000 baht. Lembremo-nos que em dois casos anteriores de doações ao partido no poder não declaradas, uma de 258 milhões da baht e outra de 68 milhões, os tribunais vieram a dar como não procedente um pedido acusando o partido de violação da lei devido a irregularidades nesses processos que assim foram arquivados.

Abhisit e a sua governação são assim fortemente aplaudidas e saudadas ao ponto de conseguir num jantar aquela grande quantia mas tem de viver como um recluso entrincheirado numa zona de exclusão de vários quilómetros quadrados.

Ironias e contradições em tempos eleitorais.

terça-feira, 8 de março de 2011

El Dorado e Inferno

Ontem referi os sinais de que as eleições se aproximam e ontem mesmo o PM antecipando a reunião semanal do gabinete, decidiu a continuação da distribuição de subsídios à esquerda e á direita.

Para manter artificialmente o preço do gasóleo abaixo dos 30 baht (actualmente é 29.99) o governo gastará até ao final de Abril mais 18 mil milhões de baht. No que respeita o preço, também artificial, para o arroz na produção e assim calar aqueles que se estavam a manifestar em Pitsanuilok, 60 mil milhões de baht. Para aumentar os salários dos deputados 13 mil milhões de baht e para manter a electricidade gratuita para aqueles que gastam abaixo de um limite estabelecido 10 mil milhões. Foram estas as decisões do Conselho de Ministros no que respeita benefícios a distribuir. Um total de 101 mil milhões de baht ou seja qualquer coisa como 2,4 mil milhões de Euros só para calar as bocas de alguns.

Rico país que se pode dar a estes luxos nos tempos que correm mas de alguma forma pouco compatível com algumas palavras de precaução há meses lançadas pelo Ministro das Finanças, aquele que tem a chave do cofre e sabe quanto dinheiro lá existe, sobre os perigos dos deficits orçamentais.

Entretanto estas medidas que o PM vem anunciando de alguma forma são elas próprias propícias a que mais e mais sectores da sociedade se manifestem por isto ou por aquilo pois vão ficando a saber que desse modo conseguem os seus objectivos através do largo saco azul da Government House. Hoje por exemplo a Siam Square, o coração da cidade esteve paralisada porque os vendedores se manifestaram contra as politicas da Universidade de Chulalongkorn, senhoria do local, no que respeita a alocação de espaços

Só o problema do Sul parece continuar a não conseguir uma clara atenção de Bangkok e ontem para além de mais alguns mortos, os militantes muçulmanos fizeram explodir um carro bomba (uma novidade que começa a ser recorrente) bem dentro de um dormitório da polícia deixando bem visíveis os danos provocados.

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Eleições

Tres anos no poder

As eleições parecem aproximar-se a ritmo rápido não só pelos sinais que são dados diariamente pelo PM Abhisit e pelo seu partido mas também pelo cheiro a campanha que já paira no ar.

O presente parlamento termina o seu termo a 23 de Dezembro e desse modo termina também o mandado do PM mas desde há muito que os vários sectores da oposição reclamam eleições. Um dos argumentos contra este governo é de que atingiu o poder sem que o partido dominante tivesse sido o partido mais votado e desse modo o mandado que o povo deu nas últimas eleições não foi para os Democratas governarem. O facto é que o governo saiu de um processo parlamentar e não é inédito no Mundo, na impossibilidade de o partido mais votado formar governo, de ser o segundo partido a assumir essa função sem que isso lhe retire legitimidade.

De igual forma parte dos sectores próximos do governo, os partidos coligados com os Democratas, sentem que novas eleições lhes podem trazer ganhos em número de deputados e consequente poder, vêm de tempo a tempo também a solicitar a convocação de eleições antes do termo parlamentar.

Abhisit por seu lado sente a pressão a que é submetido diariamente por variados sectores da população descontentes com a sua governação e parece claro a todos que a dissolução do parlamento com a consequente convocação de eleições antecipadas está para breve. O crescente custo de vida, dos preços dos bens essenciais com o arroz à cabeça, a falta ou racionamento de alguns como o óleo alimentar e o açúcar, a ineficácia das politicas de apoio aos menos favorecidos, a iniquidade nas políticas sobre a propriedade, etc., têm criado constantes conflitos na sociedade e hoje em dia acontecem diariamente manifestações por todo o país não relacionadas com aspectos de direitos políticos mas com o descontentamento das sociedades com o seu dia a dia e sobrevivência. Neste momento para além de umas quatro manifestações em Bangkok (a única de sentido político é a dos amarelos do PAD) as províncias de Phitsanulok e Nakhon Sawan, no centro do país, estão paralisadas pelos agricultores pedindo medidas que os protejam dos elevados custos.

Os principais partidos iniciaram não só os preparativos mas também a própria campanha e os programas mais recentes do governo nada mais são do que políticas no sentido de ganhar votos nas zonas menos afectam aos partidos no poder.

Os quatro principais partidos que se apresentarão a eleições anunciaram os seus principais objectivos:

O Pheu Thai, o herdeiro das políticas thaksinistas e o maior partido no país actualmente com 189 deputados, anunciou que o seu programa se centrará no retorno das políticas que utilizou no passado com tanto sucesso. Interessante é que as actuais políticas de Abhisit são no seu essencial uma cópia das políticas usadas pelos antecessores do Pheu Thai (embora sem resultado), algumas inclusive com melhorias, e portanto seria interessante se viessem a formar governo de ver como é que o partido thaksinista se iria sair nesse processo.

Os Democratas, do PM Abhisit, actualmente com 173 deputados, dizem ir focar as suas políticas no aumento dos rendimentos das famílias, políticas que aliás o governo começou a lançar, num sinal de pré campanha por volta de Novembro de 2010.

O Bhumjai Thai, o partido que é uma dissidência do anterior partido thaksinista liderada por Nevin Chidchob, actualmente com 32 deputados tem como objectivo duplicar o número de lugares e afirmar-se como a charneira em qualquer coligação. Este partido domina alguns dos mais importantes ministérios, Interior que controla todo o processo regional, local e eleitoral e os do Comércio e Transportes e Comunicações, ambos dotados de generosos orçamentos, que se diz serem desviados para o benefício de projectos directamente ligados com o ganho de votos. A este partido está fundamentalmente destinada a tarefa de arrebatar votos nas praças-fortes do Pheu Thai fortalecendo a possível coligação com os democratas e enfraquecendo a oposição. É sabido contudo que Nevin não tem problemas nenhuns em se encostar ao seu anterior partido se para isso for convidado. O objectivo é claramente manter-se no poder sem ter o peso de estar no comando.


O Chart Thai Pattana de Banharn Silpa-archa, o todo poderoso senhor de Suphan Buri uma província ao Norte de Bangkok, veterano da política e antigo PM, actualmente com 31 deputados é de alguma forma semelhante ao Bhumjai Thai, não só nas sua anterior coligação com os thaksinistas, mas por ser um partido também incontornável na formação de um governo no país e assim quererá manter-se. O tema principal da campanha do velho leão, já com 78 anos, será a reconciliação. Banharn conseguiu ser aliado de uns sem se antagonizar com os outros um pouco ao contrário de Nevin que é visto elo campo do Pheu Thai como um traidor, embora se saiba o pouco valor que isso tem em política.

A campanha está aberta e tudo aponta para que o PM Abhisit possa dissolver o parlamento ainda este mês ou no início de Abril processando-se o acto eleitoral nos finais de Maio inícios de Junho. Com uma pontinha de orgulho pessoal posso dizer que no início de Outubro produzi um "paper" onde traçava o calendário político futuro e todos os acontecimentos até agora vieram mostrar que acertei a 100%. Espero que assim seja também nas eleições pois as datas que acima mencionei são as que estão escritas nesse documento.

Entretanto Abhisit que iniciou de forma clara a sua campanha eleitoral já há semanas vai ter uma dura tarefa pois mesmo em Bangkok, um dos supostos bastiões dos Democratas, tem vindo a ser incomodado cada vez que aparece. Na semana passada foi no mercado de Jatujak, onde foi apupado e perseguido e ontem foi numa conferência na Universidade de Thammasat onde, enquanto falava, da assistência foram levantados cartazes dizendo "só sabes é falar" e "mãos cheias de sangue", referindo-se porventura ao facto de muitos entenderam que o PM acaba por ter um poder limitado aos seus discursos e acusando-o das consequências dos sangrentos acontecimentos de Abril-Maio de 2010.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Moção de Censura


O Pheu Thai (PT), o principal partido no Parlamento, embora na oposição visto o segundo maior partido, os Democratas terem feito uma aliança de governo com outros partidos menores, apresentou uma moção de censura contra o governo do PM Abhisit que irá ser discutida entre 15 e 18 deste mês com a votação agendada para o dia 19.

Os pontos focais da moção serão o uso da violência contra os manifestantes vermelhos no ano passado e a ineficácia de qualquer investigação sobre os incidentes, a execução do programa do governo com incidência em vários casos tidos de corrupção e a ineficácia da política externa do governo que será ilustrada com base no isolamento internacional do país, os confrontos com o vizinho Camboja e a incapacidade para obter o apoio da Malásia para minorar a crescente insurreição no Sul do país.

No que respeita o primeiro caso, o partido promotor da moção, pretenderá mostrar, usando evidências quer em fotografias quer em vídeos, que os incêndios que destruíram a parte principal da zona de Ratchaprasong, incluindo o Central World, são da responsabilidade de forças "acima quer da polícia quer do exército", segundo se lê na proposta.

No que respeita aos casos de corrupção a maioria dos casos que virá á liça estão concentrados nas pastas geridas por membros do partido Bhum Jai Thai, de Nevin Chidchob, o homem que vindo do nada clama agora à viva voz "sou mais rico que Thaksin", mas Abhisit não escapará a esta parte do debate pois um dos casos, o perdão de uma multa de mais de mil milhões em impostos á multinacional americana Philip Morris, envolve o seu círculo próximo.

Outro dos casos que por certo será discutido e que constitui um dos tópicos quentes da actualidade é o subsídio que Abhisit insiste em manter de forma a manter o preço do diesel abaixo dos 30 baht por litro, e que está a custar ao país uns impressionantes 272 milhões de baht por dia (cerca de 6,5 milhões de euros) e que o próprio Ministro das Finanças já declarou ser insustentável. Outro assunto que tocará por perto o PM é o da falta de óleo de palma, essencial em todos os lares, e as dúvidas que estão associadas à compra de milhões de litros autorizados pelo governo que acabaram por não chegar ás prateleiras dos supermercados e não se sabe onde para o dinheiro dispendido.

Contudo e embora o debate prometa ser interessante de seguir não é esperado nada mais do que um ensaio para futuras batalhas eleitorais já que o governo tem por certo assegurado que a coligação se manterá junta na hora de votar e, embora tendo maior número de deputados, o PT não tem o número suficiente para derrubar o governo.

O debate servirá por outro lado para testar a capacidade de Mingkwan Sansuan, ex Ministro da Economia do governo Samak, de poder vir a ser apresentado ao eleitorado como potencial PM se o PT vencer as próximas eleições.

O PT , partido representante do thaksinismo, vive sempre num processo de falta de liderança visto o líder real, Thaksin Shinawatra, não estar presente e para ele é de evitar uma figura forte que de alguma forma possa colocar a sua imagem em perigo e constitua uma "alternativa" ao seu poder. Esta dicotomia – dependência ou independência de Thaksin – tem sido a principal causa das fragilidades do partido. Se por um alado necessita da imagem do ex PM para atrair um largo número de "fiéis" por outro lado não consegue criar uma autonomia e uma forma de apresentar soluções políticas que se distanciem daquele que por certo não é parte da solução dos problemas políticos do país mas sim parte desses mesmos problemas.

Mingkwan será mais um dos "fiéis" a imolar e não parece credível que consiga reunir á sua volta consensos nem parece ter os dotes de liderança necessários para levar o partido à vitória nas próximas eleições. Os partidos thaksinistas têm vencido todas as eleições desde 2001 mas a sua crescente fraqueza, pela ausência de liderança acima explicada, está a pôr em sério risco a vitória no próximo acto eleitoral sabendo-se também como Abhisit e os seus colegas de coligação têm utilizados todos os meios ao seu dispor (nomeadamente o orçamento e o total controlo das administrações regionais e locais) para assegurar a vitória.

Este acto de pré campanha será por certo importante de seguir e poderá mostrar alguma luz sobre direcções futuras.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Verdade

Já passaram 10 meses e ainda continuam as investigações sobre os acontecimentos de Abril/Maio de 2010 nos quais morreram 92 pessoas.

Dois casos envolvendo estrangeiros têm merecido viva e enérgica manifestação de desagrado pelas missões dos respectivos países. As mortes do operador de câmara da Reuters, o japonês Hiroyuki Muramoto no dia 10 de Abril e do jornalista italiano Fábio Polenghi já em Maio continuam envolvidas em mistério da mesma forma que acontece com todos os outros, de nacionalidade tailandesa que pereceram nesses confrontos violentos entre o exército e os manifestantes vermelhos da UDD.

Ontem, Domingo o Departamento de Investigação Especial da Polícia (DSI), veio anunciar que a morte do repórter japonês se deveu a um tiro de AK-47 reafirmando mais que naquele fatídico dia 10 de Abril de 2010 o exército tailandês não utilizou esse tipo de armamento levando a crer que o tiro que o vitimou não partiu de nenhum soldado. Nada mais disse o DSI.

O assunto contudo está a gerar grande polémica que, irá por certo rapidamente desaparecer dos jornais, visto na semana passada o DSI ter anunciado que a bala que vitimou o repórter tinha sido disparada por uma M-16. Após quase onze meses de estudos forenses consegue saber-se o tipo de bala utilizado e em dois dias muda-se esse conhecimento adquirido naquele período. Para isso o DSI recorreu a um oficial do exército reformado que olhando para as fotografias do corpo do repórter concluiu, por certo sem dúvidas, que a bala tinha era proveniente de uma kalashinikov, a famosa AK-47 que por acaso o exército nesse dia tinha deixado nos quartéis.

A isso, segundo o Bangkok Post, não terá sido alheia a visita feita pelo número dois do exército ao DSI que segundo aquele jornal (edição de Domingo) ali se deslocou para reclamar contra as conclusões do DSI.

Contactei a Embaixada do Japão e fui informado da perplexidade em que se encontram visto terem visto, como eu também vi mostrado pela Comissão encarregue de encontrar a verdade sobre os acontecimentos de 2010, um vídeo que mostrava que a bala que atingiu Hiro (assim é o "nickname" do repórter) veio do local onde estavam, a disparar as tropas do regimento numero dois de infantaria. Como se pode ver em muitas fotografias existentes o repórter japonês atingido era sempre visto do lado dos manifestantes vermelhos e no momento que foi atingido, vê-se tal facto claramente no vídeo mostrado pela comissão governamental, estava bem no meio desse lado do confronto.

Se então a bala fatal foi de uma AK-47 e não de uma M-16 e aquelas não pertenciam ao exército (nesse dia) quem estaria no meio dos soldados a disparar ao ponto de matar Hiro? Os tais "homens de preto"? Quem são eles? Se não pertenciam ás hostes do exército como é que estavam com ele confundidos?

Muitas perguntas para tão poucas respostas e ainda falta o caso do Fábio sendo que a Embaixada da Itália e os familiares do jornalista já há muito perderam a paciência e tal como os japoneses iniciaram investigações próprias.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vermelhos e Jacarta

Ao fim de mais de 9 meses em prisão preventiva sete líderes da UDD-vermelha foram ontem libertados sob caução pelo tribunal criminal de Bangkok.

Abhisit felicitou o acto e disse que era um passo positivo no sentido da reconciliação necessária para que o país avance para eleições parlamentares que terão lugar este ano.

A libertação incluiu duas condições: os então presos não podem sair do país e não poderão envolver-se em actividades que incitem à desobediência da ordem ou sublevação, questão um pouco vaga e sujeita a várias interpretações. É contudo crível que os sete membros da UDD possam participar em manifestações do movimento que se conduzam de forma pacífica, como tem acontecido recentemente onde, apesar do número de pessoas que se manifestaram ser bastante grande, não houve nenhum incidente.

A decisão do tribunal deixa contudo uma questão que tem sido hoje arejada na imprensa local quer na de língua tailandesa quer na de língua inglesa. Quais foram as circunstâncias que mudaram para que o tribunal tenha alterado a posição anteriormente assumida, por duas vezes, de despachar negativamente o pedido dos presos para serem libertados sob caução?

Recorde-se que os membros da UDD-vermelha estavam presos desde o dia 19 de Maio de 2010 acusados de actos de terrorismo, embora nunca tenha havido nenhum despacho de pronúncia sobre o caso. Faz-me reviver tempos passados em Portugal quando o "General" Otelo Saraiva de Carvalho, então comandando o COPCON, emitia mandados de captura com acusações relativas aos perigos para a segurança do estado (naquela altura não se falava em terrorismo) e as pessoas eram libertadas, depois de passarem uns tempos na cadeia, sem saberem bem porquê. Sou testemunha real disso mesmo.

O despacho do juiz em Bangkok só refere a decisão favorável ao pedido do advogado dos vermelhos e as condições da libertação e o montante da caução.

Importante agora será observar o seguimento das posições que a UDD irá tomar numa reunião hoje mesmo na capital.

Um dos seus líderes disse já que a programada manifestação do dia 12 de Março deve seguir para a frente, visto haver ainda mais de 100 militantes presos nas mesmas condições dos líderes ontem libertados e que a luta tem de continuar até á libertação de todos.

Entretanto no que respeita o conflito entre a Tailândia e o Camboja realizou-se ontem a reunião prevista em Jacarta, que correu num ambiente de grande respeitabilidade, tendo essa cimeira acordado nos seguintes pontos: os dois países voltarão a sentar-se à mesa das negociações no âmbito da Comissão Junta de Demarcação das Fronteiras mas essa reunião, ainda sem data marcada, terá lugar em Jacarta sob os auspícios e apoiada pelos serviços da diplomacia indonésia; o segundo ponto foi a autorização dada pelo conjunto dos MNE da ASEAN para que a Indonésia envie observadores para ambos os lados da fronteira onde ficarão estacionados e a relatar os desenvolvimentos. De igual modo ainda não foram estabelecidos os termos de referência para essa missão.

Mais uma vez a diplomacia Indonésia funcionou e conseguiu com estas duas decisões acomodar de alguma forma as posições de ambas as partes.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desenvolvimentos do Dia

Alguns desenvolvimentos no conflito fronteiriço com o Camboja.

De acordo com fontes vindas do outro lado da fronteira tanques Vietnamitas e aviões chineses têm estado a "ajudar" o exército Khmer nesta campanha.

As forças armadas do Camboja, agora lideradas por Hun Manet, o "herdeiro" de Hun Sen, são incomparavelmente menores do que as tailandesas. Também o são os dois países quer em população quer em riqueza. Assim não é de estranhar que o Camboja tente recorrer aos "amigos" em momentos difíceis.

O Vietname, inimigo de longa data mas com agendas similares serve na perfeição os interesses de ambos. De um lado já que virar-se para Oeste está complicado o Camboja têm de o fazer para Leste. Do outro lado o Vietname só tem a ganhar aumentando a sua influência sobre o vizinho. Ganha junto do seu povo ao dizer ajudar os irmãos Krom (grupo Khmer que se divide pelos dois países), ganha em estabilidade evitando conflitos na fronteira oeste como tem havido também de tempos a tempos e ganha em ter mais um apoio na região.

Os chineses têm pouco a pouco aumentando a sua influência para o Sul. Primeiro o Laos onde a sua presença é bastante significativa havendo verdadeiras cidades chinesas em desenvolvimento no país, e posteriormente o Camboja país que é visto com redobrado interesse quer pelos chineses quer pelos americanos, de vido á sua posição na região, ao seu potencial de crescimento, aos benefícios que o seu governo vai ando aos investidores estrangeiros e ao petróleo e gás natural na plataforma do golfo da Tailândia.

A ser verdade a existência desses apoios tal mostra a inevitabilidade da internacionalização do conflito.

Ainda do lado do Camboja Hun Sen recusou liminarmente qualquer negociação com o governo de Abhisit se este se fizer representar pelo MNE Kasit sugerindo mesmo nomes como o do Ministro da Defesa, Pravit ou do Ministro da Presidência, Ong-art. Hun Sem tem boa memória e não se esquece dos adjectivos com que era qualificado quando o actual MNE Kasit subia aos palcos do PAD-amarelos e blasfemava contra o líder do país vizinho.

Para finalizar com o Camboja Hun Sem já afirmou que está de acordo com a sugestão tailandesa de requerer o envio de observadores da ASEAN para a zona do conflito.

Do lado tailandês dois temas dominam o dia: a questão em torno do cessar-fogo assinado pelo comandante-chefe da região 2 e Hun Manet e que é qualificado por Kasit como um documento feito para apreciação dos superiores e sem valor imediato. Sobre este mesmo tema o PAD-amarelos já se manifestou afirmando que o acordo viola a Constituição (art. 190). É curioso ouvir o PAD a falar de violar a lei quando neste próprio momento se manifestam há quase 1 mês, bloqueando uma importante via na capital em violação da lei de Segurança Interna em vigor na zona e do requerimento do tribunal emitido na semana passada para que evacuassem os locais que ocupam, isto sem falar da ocupação dos aeroportos em 2008. De igual modo será curioso ouvir se o PM se vai referir a este ponto já que no passado dia 11 o Parlamento aprovou por maioria, uma proposta do Partido democrata de revisão constitucional, que visa exactamente este art. 190. Após a votação Abhisit afirmou para a comunicação social que "agora o caminho estava aberto para um melhor funcionamento da diplomacia" embora seja sabido que para entrar em vigor a referida alteração necessitar de uma lei orgânica que nunca estará em vigor antes de largos meses de trabalho.


O outro tema é o facto de saber-se se foram ou não utilizadas bombas de fragmentação, munições proibidas por convenções internacionais das quais a Tailândia é signatário, durante os recentes conflitos. Ontem o Bangkok Post trazia um artigo com o título "Quem é tailandês quem é cambojano?", num trabalho tendente a mostrar que no fim de contas quem sofre são as populações das zonas fronteiriças, onde o articulista mostra evidências da utilização das referidas bombas o que tem sido, até agora, repetidamente desmentido pelo governo tailandês.


Fotografia no Bangkok Post

Há que esperar e ver se há alguma reacção de Abhisit, calado até ao momento.

Reunião de Jacarta

Amanhã é um grande dia para a ASEAN.

Devido à liderança da presidência Indonésia a ASEAN conseguiu dar um passo em frente na integração do bloco regional com a convocação para amanhã 22 de Fevereiro, da reunião extraordinária dos Ministros dos Estrangeiros para debater o conflito de fronteira entre a Tailândia e o Camboja.

Já várias vezes referi Marty Natalegwa, o MNE indonésio, e a sua experiência diplomática têm sido um factor determinante não só neste conflito mas fundamentalmente na construção do modelo assumido pelos estados membros na Constituição de 2008.

Ainda não muitos anos atrás eram outros países da região a terem uma intervenção nos assuntos na Indonésia. Lembre-se as forças tailandesas, filipinas e de Singapura enviadas para Timor-Leste e as missões cumpridas em Aceh na sequência da paz alcançada sob os auspícios da União Europeia numa missão liderada por Mahti Ahtisaari. Nessa altura as intervenções ocorreram a pedido quer da ONU quer da EU mas não aconteceram no âmbito da ASEAN.

A entrada em vigor em Dezembro de 2008 da Constituição da ASEAN marcou definitivamente a associação regional mas faltava, apesar da qualidade do secretário-geral Dr. Surin Pitswan, uma liderança na sua presidência capaz de dar os passos necessários para se atingirem os objectivos bastante ambiciosos ali estabelecidos.

Em 2009 a presidência foi exercida pela Tailândia mas todos nos lembramos da impossibilidade que o governo teve de conseguir ultrapassar pacificamente esse ano e contribuir para o avanço da associação. Uma cimeira cancelada, outra realizada sob forte escoltas militares e sem a presença de quase 50% dos líderes, e uma cimeira da EAS, o mais que provável futuro da arquitectura regional para a região da ásia-pacífico, sem brilho e feita á pressa com medo dos problemas que afectaram outras cimeiras. A presidência tailandesa conseguiu contudo lançar a primeira pedra daquilo que será a comissão dos direitos humanos regional, ainda que, devido aos problemas na Birmânia e ao pouco interesse manifestado por países como o Camboja, Laos, Singapura e Vietname, a Comissão Intergovernamental sob os Direitos Humanos ainda quase que não passou de uma declaração de intenções feita em Outubro de 2009 na cimeira de Hua Hin-Cha Am.

Em 2010 a presidência do Vietname passou-se como o país a quis ou seja contando rapidamente os dias até ao seu termo e sem avanços que se possam considerar significativos para avançar com os objectivos estabelecidos para 2015 de criar vários pilares comuns dentro da ASEAN.

Depois da Indonésia iremos ter as presidências do Camboja, Brunei e Birmânia e, segundo me dizia um professor de Chulalongkorn outro dia, há que fazer todos os esforços para que o impulso que a Indonésia está a dar não se esfume nas próximas presidências.

A reunião de amanhã em Jacarta será uma oportunidade única para os 10 países mostrarem que querem uma ASEAN forte e capaz de ser o pivot na EAS criando as condições para que a associação possa ter um papel crucial na construção de uma ASEAN de 10, coesa e unitária, e não uma ASEAN de países que não conseguem atingir os desígnios que os próprios se obrigam ao assinar tratados e convenções conjuntamente.

O conflito entre a Tailândia e o Camboja é um conflito, se bem que historicamente entendível, "impossível" à luz do direito internacional. Recorde-se que os dois países são signatários do Tratado de Amizade e Cooperação onde, entre outros aspectos, os signatários se comprometem a renunciar a qualquer acto de agressão mútuo.

Entretanto na frente diplomática e militar entre a Tailândia e o Camboja alguns desenvolvimentos durante o fim-de-semana. Os militares dos dois países sentaram-se á mesa e acordaram um cessar-fogo que o PM Abhisit teve logo que vir a terreiro afirmar não ser um acordo formal visto o PAD-amarelo ter acusado o PM de ter autorizado a perca de território para os cambojanos com aquele acordo. Entretanto o MNE tailandês teve um primeiro passo diplomático positivo nesta guerra de comunicação. Mantendo sempre a sua posição de querer resolver o assunto pela via bilateral, como já expliquei aquela que garante à Tailândia que não haja nenhuma decisão baseada no direito internacional que sempre perderá, afirmou que iria defender na reunião de Jacarta que a ASEAN enviasse observadores para apreciar a situação na fronteira. O Camboja, que não tem o problema tailandês de haver demasiadas vozes a falar (PM, MNE, Ministro da Defesa, Comandantes militares, PAD, etc.), visto que só uma voz é autorizada, a de Hun Sen, tem sempre insistido na presença de observadores da ONU tentando escalar o problema para um terreno que lhe pode ser mais vantajoso.

A Tailândia ao aceitar a mediação da ASEAN, embora mantendo que a reunião de amanhã é bilateral "com o apoio" da ASEAN, tenta trazer o conflito para um patamar mais próximo e menos internacionalizado o que lhe dará vantagens e poderá sempre contar com a Indonésia e com o secretariado, que querem aproveitar a situação para se afirmar ainda mais como os motores do agrupamento regional.

Muito está em jogo amanhã mas o grande arquipélago muçulmano, ainda não há muito com todos os problemas políticos e económicos conhecidos é hoje reconhecido como um exemplo de estabilidade e democratização no Mundo, vai ganhando neste tabuleiro diplomático.