terça-feira, 8 de junho de 2010

Partidos Políticos

Tenho passado os últimos dias em reuniões com Deputados dos vários partidos com assento parlamentar.

Pretende saber-se o que pensam do actual momento político, da possível data para futuras eleições, da visão que têm sobre os acontecimentos de Abril e Maio que causaram tantas percas em vidas humanas e em bens, enfim tentar obter um pouco a direcção política do país.

Para além dos grandes partidos, Pheu Thai e Democratas, também falei com os partidos mais pequenos que começam a mostrar ser os verdadeiros detentores do poder.

A primeira sensação que temos quando falamos com estes Deputados é que estamos num sistema político totalmente diferente daquilo que nos habituámos no ocidente. Nem um só fala em questões que se poderão designar como programáticas.

Educação, saúde, direitos humanos, ambiente, fiscalidade, justiça, etc. Ninguém fala de qualquer destes temas e quando eles são mencionados por mim quase que obtenho um sorriso do outro lado da mesa. Na realidade os votos aqui não se ganham com o anúncio de políticas em benefício das populações. Compram-se com dinheiro.

Uma coisa toda tem em comum. Todos falam de Thaksin. Para uns é a inspiração para outros o demónio mas não há um só que não mencione o "homem". Todos reconhecem ser ele ainda uma das figuras principais e incontornáveis da cena política no país. Os Democratas são mesmo assim aqueles que se mostram mais indiferentes e que gostariam mesmo de ver Abhisit a ignorar por completo Thaksin. Esses mesmos criticam os ministros deste Governo que, no entender deles, não fazem mais nada do que "dar corda" em permanência ao fugitivo ex PM:

Outra coisa de notar é que na generalidade quase todos os Deputados com que falei estiveram nalgum ponto da sua vida ligados com Thaksin, ou trabalhando com ele directamente ou em partidos ou movimentos por onde ele andou.

Tirando este ponto comum e o também desinteresse por aquilo que serão, no nosso entender os problemas que uma população normalmente enfrenta, podem dividir-se as preocupações dos nossos interlocutores em dois campos.

Do lado da oposição o pensamento está neste momento em como encontrar as estratégias que possam atingir os Democratas e permitam ao Pheu Thai sobreviver. As acusações sobre a actuação de Abhisit e Suthep durante a repressão da manifestação vermelha parecem ser neste momento a tábua à qual o partido se vai agarrar à falta de melhor alternativa pela positiva.

O Pheu Thai, apesar de ser o maior partido dos representados no Parlamento está neste momento com um verdadeiro problema de sobrevivência pois falta-lhes objectivo susceptível de ser cumprido. Continuar a batalhar no regresso de Thaksin parece ser uma utopia e não é o elemento mobilizador das "massas vermelhas". Thaksin existe mais na cabeça dos políticos do que no coração do povo que dizem ser o seu.

Pude constatar em várias passagens pelo "seu" território, Norte e Nordeste, que o que mais vai neste momento na cabeça do povo inculto, como lhes chama o PAD, são outras questões que começam a vir cada vez mais à superfície e que têm a ver com o tratamento desigual que sentem. "Enquanto os de Bangkok choram a perca dum centro comercial nós choramos a perca dos nossos irmãos", dizia uma mulher de Khon Kaen ainda recentemente. Várias pessoas com quem falei dizem compreender muito bem o que aconteceu em Bangkok e quem esteve nas linhas da retaguarda a comandar a supressão do acampamento vermelho mas acrescentam que, se bem que entendam quem foi, não compreendem porquê!

Voltando aos partidos e perguntando a todos qual era a interpretação deles dos acontecimentos de Abril/Maio, só o Pheu Thai, e pela razão que mencionei, abordavam a questão todos os outros falaram da reconciliação e da acalmia que era necessária para que o país pudesse ir a votos. Do mesmo modo nenhum dos partidos da coligação se preocupou com a possibilidade de ser ou não feito um inquérito independente ao que aconteceu. Houve um que, quando lhe perguntei se num tal inquérito ficasse provado haver, um só que fosse, general responsável por qualquer incidente, afirmou que isso nunca seria publicado.

Enquanto o Pheu Thai se vê em sério risco de desaparecer e se fragmentar em pequenos partidos todos os outros só pensam em eleições e qual o melhor momento para as levar a cabo. Tenho para mim que o Pheu Thai virá a dissolver-se em vários partidos de acordo com as diferentes facções que aí estão representadas. Isto e todo o processo do desenvolvimento do um conjunto de outros pequenos partidos, ao mesmo tempo que os Democratas perderão terreno, durará cerca de 4/5 anos e irá reordenar o sistema partidário no país e outros novos agrupamentos emergirão como os dominantes.

Os Democratas são os menos interessados mas parece ser claro que quem comanda agora as etapas são os partidos menores. Dizia-me um Deputado do Bhum Jai Thai que o partido se quer manter neutral e afastado de lutas políticas de modo a que os Democratas entendam claramente que se não fazem as coisas da forma que eles querem saltam fora da coligação.

Os pequenos partidos querem alterar a Constituição de modo a alterar o mapa eleitoral para que os círculos eleitorais sezam reduzidos, à semelhança do que acontecia com a Constituição de 1997, para ser mais fácil a campanha e portanto a possibilidade de obterem mais mandados. O BJT fala em conseguir entre 60 a 80 lugares. Recorde-se que agora detêm 33.

Claro que esta alteração não é do interesse do partido de Abhisit mas como me diziam os deputados dos partidos menores "eles não têm outra hipótese".

De qualquer maneira todos estão de acordo que eleições podem esperar.

O Pheu Thai porque está em fase de desagregação e reforma. E os partidos da governação porque há que proceder à alteração da lei e porque a situação no momento ainda não é a melhor do ponto de vista financeiro, segundo ouvi.

As preocupações dos membros da coligação no poder são ver o ambiente político acalmar, embora os partidos pequenos afirmem em uníssono que isso é uma competência do governo embora não sejam tão unânimes no entendimento das políticas que aquele irá seguir para atingir esse fim de "reconciliação".

Para estes o que passou passou e agora o que interessa é preparar tudo para obter mais poder tão logo se mostre oportuno. Tudo o resto como políticas para o bem-estar das populações são problemas que o governo tem de ter em atenção, não eles. O seu objectivo é tão somente o poder.

Dizia-me esta manhã um Embaixador de um dos grandes países asiáticos, sentado ao meu lado no Conselho de Fundadores do Asian Institute of Thechnology, que a Tailândia anda à procura do modelo de sistema político partidário desde 1932, altura da mudança de um regime de monarquia absoluta para monarquia constitucional. Baseava a sua afirmação no facto de ter havido até ao momento 17 leis fundamentais numa permanente procura de uma fórmula que consiga dotar o país de um sistema político partidário funcional, eficiente e limpo. A única instituição que se manteve firme desde sempre foi a Casa Real.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Nova Etapa


Está concluída a remodelação que não passou mais do que um exercício de decoração da montra para que o público aprecie os modelos da nova estação.

Uma novidade foi a inclusão no novo elenco ministerial de um novo partido, o Matubhum (mãe pátria), que nada mais é que a redefinição de uma antiga facção do Puea Pandin e que actualmente é liderado pelo general (r) Sondhi Boonyaratglin, o autor do golpe de estado de 2006. É interessante ver um general autor de um golpe de estado que derrubou um governo democraticamente eleito tomar parte no processo político partidário pressupostamente democrático! Curiosidades de um sistema político que também vê actualmente um partido, o Peua Pandin, dividido em dois com uma facção a apoiar o governo e a outra a apoiar a oposição.


Até ao final da semana vai haver nova contagem de apoios e deverá ficar a conhecer-se o novo mapa do Parlamento. Do lado da oposição, Pheu Thai, é sabido que vai haver 3 ou 4 Deputados que irão saltar para o outro lado, Democratas ou Bhum Jai Thai, e hoje havia um relato de que essa mudança era feita á custa de ofertas de posições e de somas com oito dígitos. Nada novo pois é sempre assim que se passa, quer de um lado quer do outro, e como já muitas vezes disse o que conta é o dinheiro e quem mais paga mais ganha, só que para pagar bem há que ir buscar o dinheiro a alguma parte e acaba por ser sempre ao mesmo saco ou seja ao dos contribuintes.

Os novos membros do gabinete que vêem do partido Democrata, á excepção das duas pastas que se irão encarregar do controlo da informação, Ministro do gabinete do Primeiro Ministro e Ministro da Informação e Comunicação, todos os outros irão ter papel reduzido e orçamentos também reduzidos.

Nevin e o seu partido ascendem a inquestionável parceiro de eleição, com a redução para metade do Peua Pandin, e continuam a dominar as pastas que garantem posições cruciais para as próximas eleições.

Entretanto falando em Hanoi, onde se encontra, Abhisit voltou a falar da possibilidade de eleições em Novembro. Não se sabe se foi só para consumo internacional ou se o PM vê agora alguma hipótese de regressar ao seu plano inicial de 14 de Novembro como uma possível data para as próximas eleições.

Hoje recebi um relato feito por um assessor dos Democratas que realça que entramos numa nova fase da política. O que agora conta é o controlo da comunicação de tal forma que sejam cortados todos os canais de comunicação da oposição ao governo e seja feito chegar ao povo quer no Norte quer no Nordeste as mensagens que possam ajudar a campanha eleitoral dos partidos da coligação sobretudo os Democratas e o Bhum Jai Thai. Note-se que o removido Ministro do Trabalho, Paithoon, que diz controlar os Deputados Democratas de 9 províncias no Norte do país, afirmou mostrar-se muito desmotivado e desiludido pelo facto de ter sido removido do seu lugar sem consulta prévia e que isso foi uma afronta ao Norte.

O relato acrescentava que estamos agora numa fase em se um mente o outro mente ainda mais e as mensagens que são transmitidas só têm por objectivo por um lado a propaganda eleitoral e o reforço das posições mais frágeis do governo nas zonas do país dominadas pela oposição vermelha e, por parte da oposição, a descredibilização do governo ainda baseada nos incidentes que causaram a morte de quase 80 militantes vermelhos.

Hoje vem no The Nation uma entrevista com um dos mais próximos colaboradores do PM, o Deputado Sirichok Sopha, conhecido pelo nome de "wallpaper" de Abhisit. É uma entrevista sobre os tempos passados no Regimento de Infantaria 11 e um excelente exemplo dessa nova forma de fazer passar mensagens de e para o outro lado num momento em que muito da acção política se passa no espaço cibernético.

Nessa entrevista existe contudo um facto, ainda relacionado com os recentes acontecimentos que não posso deixar de referir.

Diz Sirichok que o exército tinha fotografias de satélite de todos os pontos onde estavam escondidos snipers dos vermelhos e que foram presos cerca de 30 elementos nos edifícios Cable One Tower e Kian Gwan situados nas duas pontas da rua Sarasin que ladeia o parque Lumpini. Essa notícia já em tempos tinha vindo a lume e porque um dos prédios se trata do prédio onde trabalho isso foi assunto de discussões e investigações internas. Como seria possível haver snipers num prédio ocupado por uma missão diplomática?

As investigações conduzidas pelo nosso Regional Security Officer e pela gestão do edifício concluíram que a informação não tinha nenhum fundamento e era pura especulação. Aliás nós próprios nos perguntava-mos se houvesse snipers no telhado do edifício quais poderiam, ser os alvos? A esquadra da polícia próxima, parecia ser o único com algum, muito reduzido, interesse para os vermelhos. Sem ser este nada mais poderia ser atingido deste local com algum efeito positivo na acção deles. Quem mente quem diz a verdade?

A remodelação governamental confirmou-o e os dados reafirmam-no que vamos assistir durante os próximos meses a uma pré campainha eleitoral e do resultado da observação do que se vai passar Abhisit poderá ou não convocar eleições.

Entretanto uma sondagem levada a cabo pela Universidade Católica (ABAC) mostra que 53% dos inquiridos não aprovam a remodelação e que somente 24% são favoráveis a este governo com uma esmagadora maioria indiferente e independente.

Sinal dos tempos o PM anunciou que a remodelação estava concluída através de um tweet. Abhisit e vários dos seus mais poróximos colaboradores são adeptos incondicionais do Twitter e do Facebook.

Muito trabalho pela frente tem o Primeiro Ministro.

sábado, 5 de junho de 2010

Ainda a Remodelação

A remodelação governamental deverá acontecer de acordo com o que relatei ontem mas, porventura algumas dificulades de última hora fizeram com que o PM adiasse a decisão que, como anteriormente tinha sido anunciado, seria comunicada pelas 3 da tarde de ontem.

O que se tornou evidente, e deverá ser anunciado dentro de breve, é que os Democratas rebeldes e Nevin são os grandes vencedoress na remodelação, uns porque viram, finalmente, serem reconhecidas as suas pretensões e quase todos ascendem a postos no gabinete e o segundo porque vê os seus parceiros de coligação Puea Pandin enfraquecidos com a perda de duas posições no governo embora isso tenha custado um número de Deputados. O seu partido é agora o braço direito e esquerdo de Abhisit.

Depois de todos os realinhamentos se verá com quantos membros ficará a coligação no poder mas serão os necessários para ter uma maíoria com alguma margem.

Quem também ganha é o partido do General Sondhi B., o autor do golpe de estado de 2006, cujo partido sobe ao poder com a atribuição de uma pasta ministerial e a entrada na coligação com os seus 6 Deputados.

Há contudo uma facção do partido Democrata que se está a mostrar desagradada, a de Chiang Mai, com a saída do actual Ministro do Trabalho um proeminente membro dessa facção.

A Abhisit a última palavra.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Política Partidária


A actual coligação no poder detém 275 lugares no Parlamento o que lhe dá uma confortável maioria.

O parlamento tem 480 Deputados mas actualmente só 475 Deputados estão ocupando os seus lugares. Há 5 lugares que não estão preenchidos devido ao facto de os membros eleitos em eleições intercalares ainda não terem visto os seus mandados confirmados pela Comissão Nacional de Eleições.

Uma maioria é portanto constituída actualmente por 238 Deputados.

Mesmo que o governo venha a expulsar da coligação todos os Deputados do Puea Pandin (PP) ainda fica com uma pequena maioria de 243 lugares no Parlamento e poderão sempre tentar obter apoios pontuais nos dois pequenos partidos que não se encontram coligados com ninguém e que representam 9 deputados. Contudo há que ter em conta que o presidente do Parlamento nunca vota (ele faz parte da coligação como membro do BhumJai Thai -BJT) e que em algumas questões os Ministros não podem votar visto haver conflito de interesses. Há também que lembrar que a próxima sessão parlamentar é uma sessão legislativa que não permite nenhuma Moção de censura o que descansa o governo.

Hoje os Democratas irão decidir o conflito que irrompeu após a votação da Moção de Censura quando os deputados do PP votaram contra os Ministros do BJT o que levou mais tarde este partido ter colocado um ultimato a Abhisit para que escolhesse com qual partido queria continuar. Com os dois é que não seria possível.

Suthep, Abhisit e Nevin

As negociações têm sido conduzidas por Suthep, o eterno negociador nos bastidores e parece, segundo todos os relatos que vão aparecendo e mesmo alguns sinais, de que o sacrificado será o PP. No editorial de hoje o Post Today, o jornal de língua tailandesa do grupo Post, apela ao PM para que nomeie ministros competentes para o novo gabinete afirmando: "valerá mais a pena dissolver o parlamento do que deixar os corruptos pilhar o país á vontade".

Nevin Chidchob o homem por detrás do BJT foi elemento que crucial na formação desta coligação e continua a ser tido por alguém indispensável para que este governo continue a manter-se vivo. Não são só os 33 deputados que controla mas o seu poder negocial em várias frentes, poder que aprendeu com Thaksin o seu "boss" como lhe chamou no momento da ruptura. Atrás de Nevin anda muitos milhões de milhões de bath sempre a circular e ele é o único capaz de fazer frente a Thaksin nesse domínio. Por outro lado com a sua capacidade de "mudar de cor" é sempre um candidato a virar-se para outro lado pondo em risco a estabilidade do governo e de Abhisit. Um dos sinais claros foi a atribuição ontem de mais um enorme projecto público, a extensão de uma das linhas do metro de superfície, à empresa Sino-Thai detida pela família do actual Ministro do Interior e presidente (de fachada) do BJT. Também há dois dias a empresa King Power, concessionária das lojas francas dos aeroportos geridos pela empresa pública AOT, viu renovada a sua concessão. Vichai, o dono do King Power, é o outro grande financiador do BJT e Nevin tem na sede da empresa o seu gabinete de trabalho.

Desde que Nevin se aliou com os Democratas e com o seu inimigo-amigo Suthep (nos anos 90 foi Nevin que fez com que Suthep tivesse que se demitir do governo quando o acusou de corrupção) que os negócios dos seus "protegidos" voltou a brilhar conquistando estes a fatia de leão de importantes contratos.

Suthep com Ramongrak - PP

Contudo, como já referi anteriormente, dispensar por completo o PP não parece ser uma solução aceitável e o que se está a preparar é, mesmo com o custo de a coligação perder alguns deputados, deixar cair somente os Deputados que votaram contra os ministros do BJT, mantendo assim no governo pelo menos um ministro na quota do PP. A mais que provável vítima vai ser a Ministra da Informação e Tecnologia, Ramongrak, acima na fotografia com Suthep nos bons dias do passado.

Isto tem também a ver com a mais que possível remodelação do governo que está em preparação em conjunto e que por si só voltou a desencadear algumas guerras dentro do partido Democrata pois há duas facções, que já se mostraram descontentes em anteriores momentos por não verem os seus membros beneficiados, que estão atentas ás oportunidades actuais.

Neste momento há uma caça ao lugar não só os dos potenciais membros dos democratas remodeláveis como aos do PP que possam vir a sair. O que parece claro é que o BJT venha a sair reforçado desta mini turbulência com um rearranjo favorável para eles das pastas ministeriais. O BJT tem actualmente 3 ministros (economia, interior e obras publicas) enquanto o PP, que só tem menos 1 Deputado tem 2 ministérios (informação e tecnologia e indústria). O BJT parece interessado em largar a economia trocando pelos recursos naturais muito mais de acordo com os seus interesses de trabalhar projectos junto das comunidades locais que possam consolidar a posição do partido em futuras eleições. Com o ministério do interior controlam toda a máquina eleitoral e todas as províncias (os governadores são nomeados pelo ministro) e com o das obras públicas asseguram os fundos necessários para o financiamento eleitoral. O ministério da economia está fundamentalmente focado nos aspectos do comércio internacional o que não permite a Nevin & Co acrescentar muito na sua estratégia de ser um partido que tenha um substancial crescimento em próximas eleições.

O sistema político partidário tailandês não assenta em questões ideológicas ou de grandes objectivos para o país mas sim em interesses monetários e no caciquismo dos grandes senhores locais. Quem melhor do que ninguém isto entendeu foi Thaksin quando em 2001, depois de ter lançado o Thai Rak Thai analisou o que tinha de fazer para ganhar as próximas eleições e basicamente "comprou" todos esses barões locais (entre os quais veio Nevin) para juntar naquele partido todo os caciques capazes de lhe darem as maiorias absolutas que conquistou posterioemente.

Assim se faz política partidária por aqui. Será muito diferente de outros locais no Mundo?

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Amar a Natureza

Apesar de toda a poluição por que é conhecida Bangkok, de todos os problemas com o parque industrial de Ma Tha Phut não digam que os tailandeses não são uns verdadeiros amantes da natureza porque na realidade o são.

Os fogos para precederem ás queimadas de preparação para a próxima estação de cultivo que no verão quase sufocam o Norte do país, os triliões de sacos de plástico que são utilizados no dia a dia em todo o lado para se levar para casa um Som Tum, um Kay Jang ou um simples café ou uma cola nada se pode comparar com o amor pela natureza mostrado pelo dono deste fantástico carro.








Reconciliação

Pornpimol Kanchananak uma ferverosa adepta da Casa Real e dos Democratas escreve hoje um artigo no The Nation que merece a nossa atenção pois toca num aspecto fundamental dos problemas com que se enfrenta a sociedade tailandesa. O poder "irresistivel" do dinheiro na política.

Transcrevo, em tradução minha, a última parte do seu artigo.

Se há uma palavra que descreve algo pior do que "falhar", essa palavra estaria ligada ao nosso patético sistema de educação.

O estudo da nossa própria história foi retirada do currículo nacional, a disciplina moral, formação do caráter e firmeza ética já não são o foco do nosso currículo.

Como tal, o dinheiro é o único motor principal de nossa motivação.

As pessoas vão produzem nada, mas fazem tudo, para obtê-lo.

Não vão parar, mesmo quando se trata de abusar da sua autoridade, não importa quão grande ou pequeno. Os políticos e seus amigos foram os principais beneficiários desta cultura dinheiro.

Então, talvez seja inútil falar sobre a reconciliação nacional sustentável, enquanto os nossos próprios factores Moynihan (
referencia a Daniel Moynihan
) não forem abordados pelo governo e pela sociedade.

A nossa sociedade é uma comunidade com extrema necessidade de unidade de propósitos e de interesses, algo que não é tão banal como o dinheiro e riqueza.

É o que Sua Majestade está sempre tentando dizer nos. E nós nunca tomamos cuidado em ouvir.

O debate de ontem no Parlamento e as guerras que agora estão a continuar para remendar as brechas na coligação no poder são excelentes exemplos do que a autora refere. O cimento para fechar essas brechas é tão somente o dinheiro nada que tenha a ver com o interesse dos cidadãos ou do país.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Moção de Censura (2)

A Moção de Censura ao Governo foi rejeitada e fundamentalmente, como ontem dizia um jornal, foi inútil.

Foi inútil pois como referi nada mais aconteceu do que a oposição acusar o Governo e este negar as acusações. Não se pode observar nenhum debate político sobre os problemas que o país enfrenta.

Os únicos factos políticos importantes foram dois.

Não se observou a apregoada divisão no seio da oposição como o demonstra o número de votos. O Pheu Thai detém 189 Deputados num parlamente de 480 membros e, mesmo sem que todos estivessem presentes, a menor votação que conseguiu foi a de 186 votos exactamente contra o PM Abhisit.

Havia 5 Ministros que eram especialmente visados neste debate. O PM Abhisit, o Vice Suthep, o Ministro das Finanças Korn, o do Interior, e líder oficial do Bhumjai Thai, Chaowarat e o dos Negócios Estrangeiros Kasit.

Todos passaram na votação sendo que Kasit e Chaowarat obtiveram menos de 240 votos (metade do hemiciclo), 239 e 235 respectivamente. Abhisit foi o mais votado com 246. O resto foram abstenções e votos brancos.

A oposição manteve-se assim basicamente unida na votação ao contrário do que vários jornais diziam insinuando haver um número importante de Deputados tentados a "saltar" de bancada votando contra o seu partido.

O outro facto importante foi uma brecha que se abriu na coligação governamental e que se reflectiu no facto de Chaowarat ter sido o Ministro menos votado. O Puea Pan Din (32 Deputados), partido que disputa com o Bhumjai Thai (33 Deputados), grande parte do mesmo eleitorado aproveitou o momento para atacar o Ministro do Interior de tal modo que o número dois no Ministério dos Transportes, também do Bhumjai Thai, já afirmou que o PM tem de decidir com qual dos dois partidos quer ficar na coligação, já que "os dois não podem mais trabalhar em conjunto".

Chaowarat é um dos grandes magnates da construção civil, grande aliado de Thaksin durante os seus governos, e só foi escolhido como Ministro porque o seu filho Anutin, que como Nevin era um dos homens fortes do fugitivo ex PM, está banido da política até 2012. O Ministro era até tomar posse o presidente da Sino-Thai, pertença da sua família, e essa empresa é actualmente um dos fornecedores principais das obras públicas da administração Abhisit, e as acusações contra ele no debate eram sobre irregularidades nos contratos entre o governo e aquela empresa.

Aparte estas pequenas feridas que acabarão por ser saradas com um tratamento especial chamado favores, o debate nada adiantou sobre aquilo que seria importante adiantar.

Oportunidade perdida.

M.R. Sukhunbhand no FCCT

O Governador de Bangkok esteve ontem no Clube dos Correspondentes Estrangeiros para falar da sua cidade, dos acontecimentos dos dois últimos meses e dos desafios que se lhe colocam.

Já uma vez me referi ao excelente trabalho desempenhado por M.R. Sukhunbhand quer durante a manifestação da UDD, onde sempre tentou preservar o melhor que podia os destinos da capital, quer no pós 19 de Maio quando em pouco mais de três dias limpou as ruas das marcas deixadas por 2 meses de ocupação.

O Governador falou ontem com grande emoção sobre o seu trabalho para reconstruir a cidade e para recuperar as feridas deixadas entre os seus habitantes. Nunca da sua boca saiu uma acusação a ninguém e sempre falou no plural usando o "nós" quando se referiu a tudo inclusive aos incêndios que deixaram a cidade a arder.

Começou por dizer que no seu entender tinha sido o período mais triste dos 227 anos da cidade e comparou com a destruição de Ayudhya mas disse que naquela altura podiam apontar o dedo aos birmaneses mas agora "tínhamos sido nós próprios a destruir a nossa terra" e não poderíamos acusar nenhum invasor.

Falou longamente nos planos para recuperar a cidade e para tornar aquilo que era designada a zona vermelha numa área enobrecida da cidade e de todos os esforços do governo da capital para ajudar todos os que foram prejudicados com os acontecimentos de Março/Maio.

Referiu uma questão importante que raramente se vê na comunicação social. Disse que diariamente pela manhã a manifestação de Rajaprasong contava pouco mais do que 1.000 pessoas mas que esse número começava a engrossar a partir das 6 da tarde e que por volta das 9 chegou algumas vezes a atingir os 70.000. A partir disso afirmou que um dos trabalhos grandes na cidade é o de sarar as divisões entre as famílias, os colegas de emprego, os amigos visto no seu entender àparte o núcleo duro que veio de fora da capital o grosso dos manifestantes, tal como os que se manifestavam contra os "camisas vermelhos", eram gente de Bangkok.

No período que se seguiu, de perguntas e respostas o tema que era de esperar apareceu. O seu papel nas negociações, e o seu, conhecido de muitos, encontro com Thaksin.

Sobre o primeiro o Governador disse que após os acontecimentos de 10 de Abril entendeu que era seu dever como "zelador da cidade" fazer algo em seu benefício e assim entendeu entrar em contacto com os líderes da UDD. Disse ser um homem do passado e acreditar muito que os problemas têm de ser discutidos cara a cara e não através de intermediários e que não via isso estar a acontecer. Avistou-se por várias vezes com Khun Nathawut, como referiu, e acordou com ele vários passos possíveis para melhorar o funcionamento da cidade como algumas aberturas de corredores e de espaços neutros. Posteriormente transmitiu as suas conversas ao PM que lhe disse para continuar, até um dia, 8 de Maio, em que recebeu uma mensagem para parar.

Quando lhe perguntaram sobre se era verdade que tinha ido ao Brunei encontrar-se com Thaksin, parou um momento para reflectir para dizer o seguinte: "acredito que quando o Senhor X é o responsável por tudo o que acontece, se queremos resolver a situação é necessário ir falar com o Senhor X", para continuar afirmando que se entender que devo fazer alguma coisa só o faço com o conhecimento do PM. Esta frase despoletou uma nova questão sobre a capacidade do actual PM sobreviver á presente crise.

M.R. Sukhumbhand, que é um potencial sucessor de Abhisit no caso de este "cair", já que é uma figura de topo do partido Democrata, disse que um dos problemas que o PM tem actualmente é que não tem interlocutores com quem falar. "Os líderes da UDD estão atrás das grades. Arissaman, não obrigado! O Senhor X (nunca disse o nome de Thaksin) é actualmente considerado um terrorista". O governo tem agora de arredondar os cantos do quadrado que construiu (em inglês: round the corners of the square it created), concluíu.

Acabou a sessão recebendo uma grande salva de palmas mas antes "requereu" que a Polícia passasse a estar dependente do governo da metrópole pois no seu entender poderia servir o público muito melhor uma indirecta à sempre controversa actuação daquela força de segurança.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Moção de Censura

Ontem começou, no lugar onde deve acontecer, o debate sobre a situação política no país focado sobre os acontecimentos durante os últimos meses.

O Pheu Thai lançou uma moção de censura contra o governo do PM Abhisit Vejjajiva concentrada principalmente na responsabilidade do próprio e do seu Vice Suthep naquilo que chamam o "ataque à UDD e ao acampamento de Rajaprasong".

É de saudar que os debates sobre as questões pertinentes do país se façam no Parlamento pois a casa da Democracia deve ser, ao contrário da rua, o local privilegiado para se dirimirem diferenças de carácter político.

Um dos problemas que vem acontecendo na Tailândia desde há vários anos é que o debate político é feito na rua e dessa forma diminui-se o papel do Parlamento e do sistema político partidário em geral. Em 2008 vimos o PAD ocupar Bangkok e lutar contra os governos de Samak e Somchai durante 192 dias a fio e em 2009-2010 vimos a UDD trazer também para a rua a luta contra o governo de Abhisit. Em ambas as situações o papel dos deputados dos partidos na oposição foi desprezada e toda a força foi canalizada através destes movimentos de rua com as consequências desastrosas que são de todos conhecidas.

Aplaude-se assim a moção de censura por vir trazer de novo o debate para dentro dessa casa que deve ser a da Democracia.

Contudo este debate de dois dias acaba por não parecer mais do que um debate de surdos. A oposição ao governo, que como disse pretende mostrar a responsabilidade do Governo e das suas duas principais figuras nos acontecimentos de 10 de Abril e 19 de Maio, mostra evidencias, por eles recolhidas, da acção das forças armadas, alegadamente em violação dos preceitos anunciados pelo governo, o que este nega.

Um dos argumentos da oposição é a de que os fogos quer no Central World quer no Siam Theatre ocorreram quando os soldados já controlavam ambas as posições, acusando assim os militares de ou serem os autores ou serem desleixados no cumprimento do seu dever. O outro tema central tem girado à volta dos corpos que foram encontrados no templo Pathumwanaram e de quem terá causado as mortes daqueles que estavam num local considerado terreno neutro e livre de violência.

Ontem o debate terminou passadas as 2 horas já desta madrugada mas pouco mais se pode concluir do que as acusações de um lado e as negações do outro.

Hoje segue o debate e faz-se votos para que o tom se eleve. O país necessita de respostas dadas pelos políticos que elegeu não por "líderes" de movimentos de rua.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Em Champasak com a Soviet

Aproveitei o fim de semana prolongado para conhecer uma zona do Laos de que muito tinha ouvido falar – a província da Champasak.

Situa-se no Sul do país numa zona já de influência khmer, o facto nota-se não só pelo magnífico santuário de Wat Phu, mas muito também nas caras dos locais com os olhos bem mais arredondados e abertos do que os laocianos do Norte especialmente os da fronteira com a China. Para além dessa nota-se também a influência vietnamita fundamentalmente no sector agrícola e industrial.

A nossa guia chamava-se Soviet uma lembrança para nós de que estávamos na República Popular e Democrática do Laos, país dominado pelo Partido Popular e Revolucionário do Laos, um dos poucos bastiões comunistas que ainda resistem no Mundo.

O Laos é um país de grande dimensão mas com pouca população (menos de 6,5 milhões) e onde coexiste a par com o comunismo o budismo theravada.

O Laos é aquilo que em linguagem de diplomacia internacional se chma um LDC (Less Developed Country) ainda dependendo fortemente da ajuda internacional. Tem um PIB per capita de cerca de 900 US$, e a maioria dos projectos industriais são feitos através de investimentos dos países vizinhos, Tailândia e Vietname, sempre com o apoio da burocracia comunista que os licencia. Os projectos infraestructurantes de índole governamental, acabam por nascer daqueles apoios ao desenvolvimento por parte da comunidade internacional. A União Europeia tem um tratamento preferencial para o Laos não taxando as suas exportações através do programa conhecido com EBA (Everything But Arms), que permite a LDCs exportarem o que produzem sem barreiras fiscais desde que não seja armas ou material bélico.

A instauração de um estado comunista nasce na sequência da guerra do Vietname e foi fortemente apoiada pela então União Soviética. A Soviet acabou por ter esse nome como homenagem que o seu pai fez àqueles que "ajudavam o nosso país no passado", assim pensou o homem de Champasak província de onde ela é natural.

Esta província é dominada pelo Mekong que a corta de Norte a Sul no seu caminho para o delta no Vietname.

O mae nam Khong, como se diz em tailandês, tem tantas caras que é impressionante. Já o vi em Chiang Rai, Luan Prabang, Vientiane, Nakhon Pathon, Mukdahan, Ubon e agora em Champasak e nunca deixa de me encantar mas é aqui que ele apresenta para mim a maior variedade de facetas.

Desde o "Niágara" do Laos, aos rápidos como num canyon, ao silêncio de um espelho, ás quatro mil ilhas erraticamente plantadas, aos golfinhos que por ali se divertem, tudo existe neste rio e nesta província que a Soviet nos mostrou. Todo este longo vale do Mekong é bordejado por belas montanhas e por uma excepcional vegetação atestando a sua enorme pureza.

A natureza atinge o seu esplendor em quase todos os pontos de um passeio por estradas, onde de vez em quando há uma portagem para engrossar os cofres dos burocratas de Vientiane, por caminhos "impossíveis", de barco, de canoa e por fim a pé pois ali já não pisa pneu. Até numa antiga linha de comboio instalada pelos colonialistas franceses e posteriormente desactivada se circulou.

A capital da província é Pakse a segunda maior cidade do país com uma população estimada de 70.000 pessoas para um total de cerca de meio milhão no total da província. É acessível principalmente via a fronteira com a Tailândia em Chong Mek e no Sul via a fronteira com o Camboja mas a 400 quilómetros de Phnom Penh. Daí pode também transitar-se para o Vietname em direcção à cidade Ho Chi Min, antiga Saigão.

Felizmente para o visitante Champasak ainda é pouco conhecida e pouco explorada turisticamente. Daí vem uma característica fundamental - a força da natureza em toda a plenitude que nem as foices e martelos, presentes na bandeira do Partido e omnipresentes, conseguem destruir.

A Soviet tem como todas as laocianas o cabelo comprido e um sorriso muito feminino pois segundo reza a cartilha comunista uma mulher não pode ter o cabelo curto para se não confundir com um homem. Para além disso tem uma simpatia que nos encantou. Um pequeno aviso: se não se conseguir falar tailandês, língua bastante semelhante ao lao, é difícil a comunicação.

sábado, 29 de maio de 2010

Silom

Numa iniciativa do Governador de Bangkok, M.R. Sukhumbhan, Silom transformaou-se numa rua piedonal que ontem fez a alegria de muitos e dos comerciantes da área tão afectados pela ocupação pelos vermelhos da zona adjacente do parque Lumpini.

Embora Silom tivesse escapado à ocupação vermelha o facto é que o medo de que eles por ali se instalassem fez com que fosse de facto ocupada pelo exército, cheia de arame farpado e de forças miliatres durante mais de um mês o que afastou todos de uma das mais tradicionais zonas de comércio da capital. Os acontecimentos sangrentos que por alí também aconteceram por várias ocasiões levaram a que a zona Silom-Saladaeng se tivesse transformado, tal como Rajaprasong, numa zona de alto perigo e inacessível.

Esta iniciativa do governo da cidade é de saudar e o facto de milhares de pessoas terem respondido positivamente com a sua presença foi um sinal muito positivo.

Silom de novo com o seu sorriso na face é um dos sinais da Bangkok pós o Maio sangrento de 2010 e uma esperança para o futuro.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Saldanha Sanches

Não me situo no mesmo quadrante político de José Luis Saldanha Sanches mas reconhecia-lhe uma característica que, a tem também sua mulher, e que no texto (abaixo) que lhe dedica e que publicou, diz: "A intolerância contra os corruptos, cobardes e oportunistas". Não posso estar mais de acordo.

Zé Luis: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:

”Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A Força dos teus sonhos é tão forte,

Que tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias”.

Assim foi.

No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade.

Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho.

Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.

Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.

Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem:

para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público.

Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram.

Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel.

Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou.

Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor

Albuquerque, cada um à sua maneira.

Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio.

Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.

Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.

Tenham a coragem de continuar.

[16.05.2010 - Maria José Morgado]


quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ainda Yala

O atentado de ontem em Yala que acabou por fazer 2 mortos e 52 feridos teve um eco reduzido na comunicação social.

Só o The Nation lhe dá algum relevo.

Nos outros jornais, quer de língua inglesa quer de língua tailandesa o assunto foi relegado para páginas menores e feito um simples relato circunstancial das explosões e suas consequências.

Foi um atentado contra civis inocentes, embora se pense que o alvo era um Major do Exército que passava no local no momento mas num carro blindado o que o colocou a salvo de qualquer eventualidade.

Foi destruída a fachada de um stande de automóveis da marca Mazda, que nada tem a ver com a questão, e quer os mortos quer os feridos eram pessoas, civis e policias que se encontravam, para azar deles, no local.

As primeiras páginas dos jornais, na sua maíoria mostram hoje a fotografia de uma faustosa mansão no Montenegro, presumivelmente pertença de Thaksin, no intuito de mostrar a disparidade da sua vida de luxo e a daqueles que o suportam aqui na Tailândia, o que é uma verdade.

A campanha contra o "terrorista" ex PM parece ser mais importante do que as vidas daqueles que vão perecendo diáriamente no Sul do país.

Tudo isto tem por base a política de interesses domésticos pois inclusíve a emissão de um mandado de captura contra o fugitivo ex PM e as suas consequências em termos de uma possível prisão e extradição é um assunto que vai durar bastante tempo a tomar corpo.

Há todo um conjunto de procedimentos legais, quer aqui no país, quer junto da Interpol para que algo de concreto possa acontecer.

Basta a Tailândia lembrar-se de Rakesh Saxena que só 13 anos após ele ter sido capturado no Canadá conseguiu que fosse extraditado, ou o caso do "comerciante da morte", o russo Victor Bout, que se encontra em prisões tailandesas e o sistema judicial se recusa a extraditar para os Estados Unidos conforme pedido formal nesse sentido. Victor Bout está no topo da lista dos homens mais procurados pela Interpol por crimes contra a humanidade.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Hoje em Rajadamri.

Milhares de pessoas acorreram hoje á avenida Rajadamri, que liga Rajaprasong a Saladaeng, e anteriormente ocupada pela UDD, numa cerimónia religiosa, oferecendo comida aos, também muitos, monges, forma que os tailandeses têm de pedir perdão sobre e de purificar os maus momentos.


Terrorismo?

Como quase todos os dias acontece explodiram no Sul do país, na província de Yala, esta manhã, duas bombas de cujo incidente sairam feridas 30 pessoas e 2 morreram.

A acção de separatistas muçulmanos no Sul do país, fundamentalmente desde 2004, já causou mais de 4.000 mortos entre a população civil e as forças da ordem aí estacionadas que são um total de cerca de 120.000 entre soldados, polícias e rangers fundamentalemente de uma força patrocinada por SM a Rainha.

Apesar de todo este aparato militarizado o conflito mantêm-se activo e os incidentes, mais ou menos sangrentos, acontecem com uma regularidade impressionante.

Pattani, Narathiwat e Yala são as três províncias mais afectadas e nelas vigora em parmanência a Lei Marcial garantindo a actividade das forças aí estacionadas contra os grupos teroristas que operam na região.

Interessante que os governos tailandeses nunca apelidaram os activistas muçulmanos a actuarem no Sul, sabendo-se que muitos dos jovens são formados em Madrassas no Paquistão, de terroristas. O presente governo, utiliza agora essa mesma palavra quando se refere aos elementos da UDD envolvidos nos sangrentos incidentes de Bangkok.

Vários entre eles, incluíndo o fugitivo ex PM Thaksin, foram acusados formalmente de terroristas, e contra eles emitidos os mandados de captura nisso baseados.

Deverá concluir-se que o movimento separatista no Sul do país não é operado por teroristas, ou então que existem dois entendimentos diferentes para o qualificativo dependente dos interesses que são atingidos.

The Nation

Hoje o The Nation traz na página 16A, ocupando mais de meia página, a lista das pessoas contra os quais foram emitidos pelo tribunal mandados de captura, na sequência dos acontecimentos recentes, com um título a grandes letras "WANTED".

Depois desfilam as fotografias de 16 procurados e mais três nomes sem fotografia.

Pretende por certo ser uma informação para o público mas prima pelo mau gosto.

Dos 19, 7 estão detidos pela polícia 11 não se conhece o paradeiro e 1 morto. Estão actualmente detidos, como pertencentes á liderança da UDD, de acordo com a lista fornecida pela polícia, um conjunto de 21 indivíduos dos quais só 5 se encontram na lista produzida pelo The Nation.

Para além desta confusão é extrememente desagradável e um péssimo serviço de comunicação ver a cara do Major-General Khattiya Sawasdipol, aka, Seh Deang, como procurado pela polícia, como se todos não o tivessem visto a toda a largura da primeira página do mesmo jornal após ter sido abatido por uma bala que nunca se saberá de onde veio.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Bangkok Acorda

Os carros voltaram a Rajaprasong uma das artérias mais congestionadas de Bangkok.

O Governado da cidade fez um trabalho excelente colocando milhares de trabalhadores, bem coordenados, em acção que práticamente em três dias limparam a cidade de grande partes das marcas deixadas por dois meses de ocupação da UDD e das manchas negras dos incêncios do dia 19.

Os prédios que foram afectados mostram ainda as suas entranhas, como o Central World, à direita na fotografia mas a vida regressa á normalidade pouco a pouco.

Contudo o governo estendeu o Recolher Obrigatório até ao dia 28, Sexta-feira, passando agora a ser da meia-noite até às 4 da manhã,

A único facto ainda pouco normal que vi hoje, para além da fachada do Central World bem negra, for a existência de patrulhas militares armadas deslocando-se em motociclos, o que me pareceu invulgar e perigoso pois a possibilidade de um acidente é sempre grande. Recorde-se que morrem no país, em média, 38 pessoas por dia, só em desastres com motorizadas.

O que terá Mudado?

Na tarde do dia 19 de Maio, quando Bangkok começava a arder devastada pela fúria e raiva (como lhe chamou Panittan) vermelha o Canal 3 da Televisão estava no ar quando de repente foram ouvidos tiros e os jornalistas que ali trabalhavam entenderam que era altura de fugir pois também perceberam que a base do edifício estava a ser posta a arder.

Karuna Buakamsri lia as notícias nesse momento quando teve de descer apressadamente as escadas e fugir com os seus colegas pelas traseiras do edifício para o conjunto de emaranhado de ruas pequenas que se estendem entre Sukhumvit 32 e 36.

Karuna deixou nos agora, impresso no New York Times este relato dos momentos que viveu fazendo uma muito interessante comparação com o que ela própria tinha vivido 18 anos atrás.

Diz nele que nessa altura, o também sangrento Maio de 1992, teve igualmente de fugir para salvar a vida ao mesmo tempo que muitos dos seus companheiros de luta pela Democracia pereciam ás balas dos militares.

Diz ela que ness altura estavam lá na mesma luta e na mesma plataforma Jatuporn (UDD), Pipop (PAD), Jaran (UDD), Suryasai (PAD), Weng (UDD), Somsak (PAD). Igualmente Chaturon Chaisaeng e Abhisit Vejjajiva, o ex líder do Thai Rak Thai e actual representante de um thaksinismo sem Thaksin, e o actual Primeiro Ministro, ainda um jovem tal como a reporter.

Karuna acaba com duas perguntas.

O que aconteceu? Alguém pode explicar-me?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Thitinan sobre Abhisit

Num artigo de opinião o Professor Thitinan Pongsudhirak analisa a presente situação depois dos acontecimentos que qualifica como os mais sanngrentos da história moderna tailandesa.

Thitinan é um dos mais activos académicos da universidade tailandesa, e na sua qualidade de Director do Centro de Estudos Estratégicos de Chulalongkorn (ISIS) tem sido capaz de produzir aí um forum de debate dos grandes temas da sociedade tailandesa.

Feroz crítico de Thaksin viveu maus momentos na Universidade na altura do domínio thaksinista. Thitinan e Abhisit fazem parte de uma mesma geração de académicos tailandeses, de idades muito semelhante, formados em Londres e com uma visão do mundo muito próxima. Thitinan nunca aderiu a nenhum partido mas não teve problemas em apoiar Abhisit embora tivesse sido critico da forma como o actual PM chegou ao poder, preferindo, como muitos, ver os Democratas no poder através de um novo processo eleitoral.

Com o desenrolar do mandado do actual PM veio a perder a crença na sua capacidade para operar a mudança que entende ser necessária no país já que punha esperanças em ver Abhisit como o seu autor. O ISIS várias vezes recebeu debates abertos sobre a evolução do panorama políitico partidário no país e Thitinan começou a ser considerada uma pessoa incómoda para o regime do qual ele era uma peça fundamental. Actualmente está na Califórnia na Universidade de Stanford no centro de estudos humanísticos como professor convidado.

Do artigo, do qual aconselho a leitura, retiro algumas linhas em tradução minha.

"Depois dos acontecimentos sangrentos de Abril 2009, Abhisit propos um plano de reconciliação e de reformas, incluíndo a da Constituição. Nada aconteceu e a divisão na sociedade agravou-se contribuindo para os acontecimentos recentes".

"Para os vermelhos nada mudou. Causaram tumultos em 2009 voltaram a causá-los em 2010 mas as queixas mantêm-se e não foram atendidas".

Faz um apelo à investigação independente de tudo o que aconteceu e termina com um forte apelo para que Abhisit, resigne ("deve considerar fazer um sacrifício pessoal de modo a permitir a outros que ponham em prática...").

A questão da investigação independente aos actos de Abril 2010 vai ser um tema de debate para os próximos tempos mas vai produzir nada. De acordo com a legislação sob a qual os actos aconteceram, a Lei de Segurança Interna, os militares e as forças policiais têm total imunidade. O único que pode ser incriminado pode ser o próprio Abhisit, na sua qualidade de Chefe do Governo. Será demasiado ingénuo pensar que irá empossar uma comissão, ainda por nomear, que poderia vir a ser o seu próprio coveiro.

Uma série de entidades internacionais está neste momento a coligir dados sobre o que se passou recentemente e muito em breve virão á luz outros relatórios para além do recentemente produzido pela Human Rights Watch.

domingo, 23 de maio de 2010

Recomeçar

Thanya Plaza. Ontem povoada com os carros de combate que foram usados no derrube das posições da UDD na zona de Saladaeng.


Thanya Plaza hoje ao fim do dia. O recomeçar de uma ciclo novo.

A pouco e pouco a cidade vai retomando o seu rosto habitual. Já se vêm menos soldados e polícias nas ruas, já há menos barreiras de controlos e até o próprio Recolher Obrigatório foi alterado, embora se mantenha pelo menos até Terça-feira, para entre as 23 horas e as 4 da manhã.

As pricipais vias de comunicação daquilo que era chamada a Zona Vermelha, não por causa da cor das camisas mas por ser a zona interdita, dererão estar operacionais ao ínicio da madrugada de Segunda-feira e nalgumas já se circula.

O comércio todavia continua na sua maioria encerrado.

Amanhã tenderá a ser um dia quase que normal com a abertura dos ecritórios, missões diplomáticas (os EEUU só abrem na Terça), comércio dando o tom e o perfume à cidade ainda enegrecida em algumas zonas devido aos fogos que queimaram a cara de Bangkok na Quarta-feira.

Há manchas na cidade que vão levar muitos meses a desaparecer como o Central World, o Centre One, a Companhia de Electricidade em Bon Kai, e outros edifícios que foram severamente danificados.

Gostei hoje de ler a frase dita pelo Ministro das Finanças, Korn, que disse que ninguém ganhou, nem mesmo o governo, com o que aconteceu.

Não gostei de ouvir o Primeiro-Ministro dizer que seria aberto um inquérito aos incidentes no templo Pathumwanaram, onde perecereram um número ainda pouco claro de pessoas no fatídico dia 19, pois na Sexta-feira à tarde, como relatei, já tinha dito que iria ser feito um inquérito, rigoroso e independente, a todos os incidentes occoridos nos últimos dois meses.

É fundamental que seja feito um apurar claro, independente e capaz de acusar os reais responsáveis, sejam eles quem forem e estejam em que posição estiverem, caso contrário vai voltar tudo ás águas mornas que só conduzirão a novos incidentes, com o potencial de serem ainda mais violentos, se tal é possível, no futuro.