quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Eleições


Por norma não escrevo muito sobre Portugal até porque a ideia inicial do blog era a de relatar o dia a dia em Bangkok mas não quero deixar de fazer um pequeno apontamento sobre as eleições de Domingo passado.

Mais uma vez todos ganharam. Todo, menos o PS, ganharam, matematicamente pois tiveram mais votos do que nas eleições anteriores, o PS, contudo, ganhou porque não foi derrotado (tal qual diria o Mr De La Palisse) ou seja continua a ser o primeiro partido. Até o PCTP/MRPP passou a fasquia necessária para passar a receber subvenção estatal.

Conclusão, já que todos ganharam perdeu o país pois nesta coisa de eleições tem de haver sempre alguém que perca.

Mais uma vez o país viu adiar a tão necessária reconstrução da sua infra-estrutura ética, moral e social.

Continuamos a viver num clima onde a Justiça é adiada. Onde os bastidores são mais importantes do que os palcos e onde quem não ousa lutar pelo país é recompensado.

Adia-se a vida da Nação mas não se adia a arrogância de muitos nem a sua vontade insaciável de poder.

Caminhamos sem saber para onde e poucas serão as instâncias no país capazes de merecer sequer uma positiva nas notas que o povo lhes deveria dar.

Contudo continuamos a votar sem sentido, sem capacidade de dizer Basta, sem capacidade de entender o que está mal, sem vontade de mudar.

Será que os Portugueses já atiraram a toalha ao chão?

Estar longe faz-me sentir a falta da família e dos amigos mas tenho que confessar não me falta Portugal e isso é dramático, é triste.

Apesar de não ser perfeito o sol aqui brilha, a vida olha para a frente e percebe-se que o futuro existe.

Daqui a uns dias, 8 de Outubro, vou ver a Mariza, aqui em Bangkok e relembrar Portugal.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Justiça?

O antigo Presidente do Parlamento, Yongyuth Tiyapairat, um político da ala thaksinista e que estava banido por 5 anos da actividade política foi ontem condenado a mais 5 anos de afastamento, a dois meses de pena de prisão, suspensa, e ainda a 4,000 bath (cerca de 85 Euros) de multa por ter omitido bens na sua declaração de rendimentos.

Yongyuth foi em tempos proprietário de uma empresa do sector alimentar. A empresa está inactiva desde o seu início, há 18 anos (dezoito não há engano), o que mostra e, de acordo com o acordão do Tribunal, que nunca operou. Logo após a constituição da empresa Yongyuth vendeu a posição a um seu cunhado por 850.000 bath em dinheiro e um empréstimo de 1,6 milhões de bath.

Agora o Tribunal, o mesmo que vem dizer que a empresa nunca operou, sentencia que a transaação não é válida pois a empresa, como não operava, não poderia produzir os rendimentos necessários para que o seu cunhado pagasse a dívida de 1,6 milhões como se o facto da empresa operar ou não fosse uma decisão do accionista anterior.

Conclusão: A venda é nula e portanto Yongyuth é o proprietário da empresa e ao violar a lei não declarando correctamente os seus bens particou um acto criminoso (sim, porque de crime se trata de acordo com a lei) e por isso é condenado.

Penso que não há muito a comentar sobre mais uma decisão judicial pouco cuidada. Só uma nota para referir que entretanto, ontem, noutra instância, onde se deveria julgar a doação por uma empresa estatal, através da sua agência de publicidade, de 265 milhões de bath ao partido no poder, o Democrata, o caso foi adiado pela terceira vez consecutiva, como sempre acontece quando se trata de algum caso que envolva o partido no poder.

A Fronteira da Discórdia


Hun Sen, o Primeiro Ministro do Cambodja falando na inauguração do novo edifício do Ministério do Turismo em Phnom Penh, aproveitou o momento para atacar forte sobre a Tailândia a propósito da disputa sobre os 4,6 km2 de terreno adjacentes ao templo de Khao Phrae Viharen.

Nove dias depois dos incidentes provocados pela manifestação do PAD no local Hun Sem aponta as armas contra o seu vizinho e dispara forte. Primeiro afirmou que se alguém se atrever a atravessar a fronteira (na versão do Cambodja os 4,6 km2 não são discutíveis, são deles) será recebido a tiro e continuou dizendo que tinha dado instruções ás tropas para atirar à vista caso isso aconteça. O Cambodja não quer guerra mas tem o direito de abater os inimigos no seu território, palavras bem claras de Hun Sen

Hun Sen afirmou que eventualmente levará o caso das “violações” da fronteira à próxima cimeira da ASEAN (terceira semana de Outubro) e se Abhisit me vier mostrar algum mapa deles rasgo-o na sua cara, concluiu desafiando.

Em mais um momento da grande fraqueza da liderança Tailandesa Hun Sen aproveita para entrar na via do sensacionalismo nacionalista capaz de encher de fervor patriótico os corações do seu povo e assim fazer esquecer outras mazelas.

Do mesmo modo do “lado de cá” o PAD tem usado a questão da fronteira como uma arma nacionalista mesmo sem olhar à história que lhe está por detrás.

As disputas sobre a fronteira Siamesa-tailandesa e o Cambodja estão reguladas por três documentos. O Tratado de 13 de Fevereiro de 1904, o Acordo de 23 de Março de 1907, ambos assinados pelo Rei Rama V com a França, então colonizadora do actual Cambodja e pelo Memorandun de Entendimento de Setembro de 2000 assinado durante o Governo de Chuan Lekpai. Para além destes documentos existe a decisão do International Court of Justice de Junho de 1962 que atribuiu o templo ao Cambodja, mas não se pronuncia sobre os terrenos adjacentes, e o Tratado de Amizade e Cooperação da ASEAN em que os membros signatários renunciam a qualquer forma de agressão entre si.

Através do primeiro instrumento foi obtido o acordo do trabalho iniciado pela comissão mista siamesa-francesa e em 1907 assinou-se a demarcação da fronteira que resultante desse trabalho conjunto. É esse mapa que actualmente o Cambodja reclama como bom e que na verdade nunca foi contestado, nas correctas instâncias pelos siameses-tailandeses. Nesse momento o Anexo 1 do Tratado de 1907 não foi incluído no documento, embora tivesse sido enviado ás duas capitais e é considerado trabalho da comissão mista, mas os siameses nunca reclamaram contra tal facto e o Príncipe Damrong, ao tempo Ministro do Interior recebeu o mapa e distribuiu pelos chefes provinciais.

Outro facto relevante foi a visita feita em 1930 ao templo de Phrae Vihaern pelo mesmo Príncipe Damrong onde foi recebido oficialmente pelo representante do Governador francês. No local encontrava-se hasteada a bandeira francesa. Nunca os siameses reclamaram do facto.

Note-se que o Príncipe Damrong, filho do Rei Rama IV é considerado uma das figuras mais importantes da primeira parte do século XX no Sião-Tailândia pelo seu papel de grande relevo nos sectores da Educação e da Saúde. Foi o primeiro tailandês a ver o seu nome incluído no livro que regista as pessoas mais importantes do Mundo pela UNESCO.

Como dizia um velho habitante outro dia, na altura dos confrontos na fronteira provocados pela manifestação do PAD. Sempre vivemos em paz aqui, uns com os outros, numa comunidade que muitas vezes se confunde através dos casamentos transfronteiriços, e agora vêm os de Bangkok (e eu diria os de Phnom Penh) perturbar a nossa vida e tornando-a mais difícil.

Olhando para a história, e outros melhor o farão já que não sou historiador, entende-se que sempre que um dos reinos era forte o outro vinha prestar vassalagem e vice-versa. E assim se viveram centenas de séculos em harmonia e disputas dentro de regras de respeito que agora as “politiquices” do século XXI querem estragar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Saúde do Rei


O boletim clínico hoje divulgado anunciava que o Monarca estava com uma febre ligeira mas que o seu estado geral tinha evoluído positivamente.

Já ao fim do dia foi emitido outro relatório onde se comunica que a febre desceu e que o Rei se alimentou bastante melhor e mostrando mais apetite pelo que a medicação foi reduzida.

Jai Dee

Esta manhã um jornal de língua tailandesa chamava ao Primeiro Ministro em exercício Suthep “jai dee” o que quer dizer bom coração. Suthep ocupa a posição durante a ausência de Abhisit nos Estados Unidos para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas e nas cimeiras do G20 e do Ambiente, estas na qualidade de actual Presidente da ASEAN.

Na realidade os seus amigos do Partido Bhum Jai Thai (BJT) têm sobejas razões para comemorar esta semana e parte dessas comemorações devem ser partilhadas com Suthep.

Ontem o Conselho de Ministros, por ele presidido, aprovou a nomeação do secretário-geral do Ministério da Economia de acordo com a proposta da Ministro. O nome de Yangyong Phuangrach tinha sido apresentado pela Ministro em início de Agosto mas Abhisit tinha sempre decidido adiar a questão. Dizia-se que isso teria a ver com a possibilidade de utilizar o seu nome como moeda de troca no caso do novo Chefe da Polícia mas ontem um jornal de língua inglesa dizia haver um conflito pessoal entre o PM e o proposto visto em tempos numa reunião em que Yangyong tinha estado presente este teria discordado de algumas afirmações feitas por Abhisit e o teria contrariado de forma muito frontal. O facto é que ontem o seu nome passou e ocupará o posto que a Ministro queria. Outra decisão do Conselho de ontem irá por certo alegrar bastante as cores azuis de Nevin. Foi aprovado uma extensão ao orçamento militar de 15 mil milhões de bath (305 milhões de euros) para aquisição de material incluindo helicópteros anti-submarino. Isto num momento em que o país vive o seu pior momento de sempre no que respeita as finanças públicas com um deficit orçamental em evolução galopante. Igualmente ontem o Conselho aprovou mais um empréstimo internacional no valor de 844 mil milhões de bath e a continuidade de outro no valor de 792 mil milhões ou seja um total de 33,870 mil milhões de euros!!

Estas medidas, todas a favor de áreas próximas do BJT, aparecem um dia após Nevin Chidchob ter sido absolvido das acusações de corrupção. Hoje fazem manchete nos jornais as acusações do ministério público contra a Assets an Examination Commssion por ter sido negligente na produção das provas permitindo assim a absolvição dos 44 acusados e a perda de face ao acusador público.

Também ontem o Ministro do Interior, e actual líder legal do BJT, vem dizer duas coisas importantes. Espera ver o general Chumpol eleito como o novo Chefe da Polícia (o proposto de Abhisit é outro) e vai nomear como “principal” do partido, sem que se compreenda bem o que isso significa, Nevin Chidchob. Recorde-se que este está banido do exercício de actividades políticas até Maio de 2012 na sequência da dissolução do Thai Rak Thai, o Partido liderado por Thaksin, no qual Nevin era o número dois.

Também contrariamente ao que Abhisit, e neste caso também Suthep, têm dito sobre a revisão constitucional dever ser feita por uma comissão para tal criada, Chaowarat disse que a revisão deve avançar rapidamente e que existem artigos que têm que ser revistos de imediato.

Será Suthep jai dee, bom coração, inocente ou cúmplice? Pelo menos foi simpático é o menos que se pode dizer.

Estas serão perguntas que para já terão resposta na interpretação de cada um.

Futsal

Já que pouco se comemora nas quase quintocentenárias relações entre a Tailândia e Portugal que vão chegar em 2011, ao menos no desporto há encontros.

Ontem em Lisboa as equipas dos dois países defrontaram-se num jogo amigável de Futsal do qual a selecção portuguesa saíu vencedora por 1-0.

Esta tarde as duas equipas volta a encontrar-se de novo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Imagens

Sempre me fez confusão os extremismos. Qualquer que seja o lado qualquer que seja a cor que aqui na Tailândia tem tanto significado.

Há muitas pessoas para as quais o Mal é vermelho e o Bom é amarelo. Há outras que são tão daltónicas que não conseguem ver nenhuma cor a não ser o amarelo.

Para esses os vermelhos são os rufias, de baixa classe, comprados sempre por Thaksin, gente sem educação, arruaceiros, desprezaveis trabalhadores do campo, de pele escura, etc , etc.

Os amarelos são pelo contrário a bente de bem, de pele clara, os ilustrados, os defensores dos grandes valores civilazionais, os que conduzem Mercedes e BMW, etc, etc.

Este fim de semana foi exemplar para mostrar aos que são cegos que basta abrirem os olhos e olhar para as imagens.

Quer nun quer noutro movimento há gente de valor e de valores, quer nun quer noutro agrupamento há gente sem valor e fundamentalmente gente sem valores nenhuns.

Os guardas do PAD, aqueles que no dia 29 de Novembro de 2008 em Ratchayodhin atiravam com armas de fogo contra os seus compatriotas, como se as diferenças de opinião fossem base para uma uma guerra civil, enquanto levantavam no ar a fotografia do Rei, são aquilo que se viu este fim de semana, no seu pior, em Si Sa Ket.

Essa utilização permenente e abusiva da imagem do Rei tem causado danos à monarquia ainda não bem calculados. Basta ver o medo que as pessoas têm em v,estir de amarelo, quando ainda há dois anos, em cada Segunda-feira, havia no país uma onda de amarelo. Quase se poderia dizer, por exagero, que outras cores eram a excepção. Agora, e tenho analisado muito cuidadosamente o assunto referindo-me aos mesmos locais de há anos, contam-se pelos dedos de uma mão os que continuam a vestir a camisola do amarelo real. Não porque as pessoas tenham perdido a sua devoção pelo reverendo monarca, nada disso, mas por que não querem ser conectadas com o PAD. Os estudos feitos apontam sempre que cerca de 2/3 da população não quer nada com amarelos ou vermelhos. Querem é paz e progresso.

Os vermelhos não têm guardas, pois não têm tanto dinheiro como o PAD, mas têm uns voluntários, não tão organizados e com características diferentes mas também capazes do mesmo.

As fotografias que deixo a seguir são um bom exemplo daquilo que deve ser, e foi, uma manifestação por um objectivo de um grupo de pessoas que tem o direito de sonhar esse objectivo. Infelizmente não há tantas fotografias dos ataques do PAD em Si Sa Ket mas as que aqui já deixei são já elucidativas e o facto de ter havido, não 17 como referi, mas 20 feridos diz alguma coisa e marca o contraste com o que se passou em Bangkok. E refira-se que não há fotografias pois os jornalistas que lá estavam foram corridos a tiro, á cacetada e ameaçados com machetes por esses guardas daquilo que não se sabe bem o quê.

Defender uma causa não é fechar os olhos para os lados. Isso nem serve sequer a causa que se defende por tão esclerosada que fica a nossa mente.

Cada qual que veja por si.






A Saúde do Rei


A saúde do Rei evoluiu positivamente e no boletim ontem tornado público afirmava-se que S M já não tinha febre e estava a reagir bem ao tratamento.

Contudo ainda estava com falta de apetite e sentia-se fraco pelo que vai continuar hospitalizado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Hipocrisia


Hoje foi conhecida a decisão judicial sobre o caso da compra de árvores de borracha para reprodução no qual, alegadamente, teria havido corrupção.

Em duas palavras: o ministério da agricultura decidiu comprar uns milhões de árvores. Essa compra foi feita a uma empresa de um dos maiores grupos deste país - CP - mas a empresa que fez o fornecimento não tinha nenhuma experiência deste tipo de negócio e as amostras eram de baixa qualidade. Acontece que por outro lado o preço pago, esse não foi de baixa mas de muito alta qualidade, ou seja, segundo a acusação, demasiado caro.

Havia 44 arguidos desde Ministros e outros membros do governo de Thaksin da altura, funcionários do ministério e empresas e seus membros do grupo económico fornecedor.

À cabeça dos arguidos encontrava-se Nevin Chidchob que na altura era aquilo que em Portugal se chamará o Secretário de Estado da Agricultura e foi a cabeça do negócio.

Este caso tem vindo a ser adiado há vários anos e só começou a andar a partir do momento em que Nevin passou a ser parte das forças no poder ou não fosse ele o mais importante aliado, se bem que nem sempre assim se comporte, de Abhisit.

Convem relembrar que Nevin era o homem forte de Thaksin, o seu braço direito e aquele que estava sempre junto a si em todos os momentos. Quando se separou, por entender que tinha a hipótese de vir a ser o novo Thaksin, disse públicamente que tinha falado ao "patrão", como lhe chamou, dizendo que, por agora, era tempo de terem vidas separadas.

Uma das primeiras decisões judiciais após a tomada de posse do governo de Abhisit foi já favoravel a Nevin e neste processo, abandonando parte das acusações que contra ele havia. Essa decisão foi tomada em início de Janeiro deste ano. A partir desse momento ficou mais claro que o processo iria seguir ao ritmo que a ele conviria e seria de esperar a decisão que veio a acontecer. Nevin veio a dizer em Agosto que estava disposto a aceitar qualquer decisão do Tribunal, como se não estivesse ciente da forma como as decisões são tomadas nos processos que envolvem os políticos, e na duplicidade dessas decisões consoante o quadrante onde se encontrem esses mesmos políticos.

Assim foi e Nevin bem como os outros 43 arguidos foram considerados não culpados.

Nevin é o patrão de facto do Bhum Jai Thai Party que tem por objectivo, públicamente assumido pelo seu líder legal, o actual Ministro do Interior, obter o maior número de lugares nas próximas eleições para poder ser um partido charneira no processo de formação de um governo. Estão, como é por demais sabido, abertos a "vender" os seus Deputados ao partido que assegure o poder e ofereça mais "tachos" governamentais. Chaowarat, o Ministro do Interior, quando afirmou o objectivo do Bhum Jai Thai Party acrescentou que no momento em que entendessem terem reunidas as condições para formar um grupo de Deputados suficientemente grande, abandonariam a coligação com os Democratas para forçar eleições. Nua e cruamente a assumpção da traição.

Hipócritamente vem agora Nevin Chidcho, à saída do Tribunal afirmar que agora, após conhecer a sentença, a única coisa que resta fazer na vida é "proteger a monarquia até ao seu ùltimo suspiro".

Pobre será a monarquia se necessitar da protecção de tamanho chacal.

Felizmente o Rei conhece bem o seu povo.


Duplicidade ou Cumplicidade?

Começa a ficar cada vez mais claro como o demonstra a sondagem feita pela ABAC (universidade católica), e que hoje veio a público, que as pessoas estão descontentes com a duplicidade de critérios utilizados pelo governo na forma como lida com os grupos que se manifestaram durante o fim-de-semana.

Enquanto para Bangkok foi mobilizado um forte contingente militar e foi colocado arame farpado à volta da maioria dos edifícios públicos que se pensava poder serem alvo da manifestação que iria ser levada a cabo pelos “camisas vermelhas”, em Khao Phrae Vihaern, onde os “camisas amarelas” se manifestavam para “restituir aos tailandeses a terra ocupada pelos invasores cambojanos” nada foi preparado.
Enquanto na capital foi imposto o Internal Security Act, lei que permite a actuação dos militares e a restrição de alguns dos direitos fundamentais, como direito de associação e direito de opinião, e permite que as forças encarregadas de manter a ordem pública prendam quem entenderem estar a perturbá-la sem para isso terem nenhum mandado específico. Em Khao Phrae Vihaern, isso não aconteceu. No primeiro caso o governo invocou a segurança interna e pelos vistos entendeu que o caso na fronteira não era uma ameaça se bem que fosse conhecido a intenção do PAD de entrar na área que os Cambojanos consideram ser seu território e portanto tratar-se, no entender destes de uma invasão facto que levou o General Hun Sen, PM Cambojano, a afirmar que os manifestantes seriam repelidos a tiro de canhão se ousassem por pé em território do país.

Em Bangkok os “camisas vermelhos” reuniram-se, ouviram as mensagens dos seus líderes, ouviram Thaksin falar através de uma vídeo-conferência, afirmando que estava num país vizinho (Thaksin tem interesses económicos no Camboja, no Laos, na Birmânia e ainda grandes amigos em Singapura aos quais vendeu as suas empresas em 2006). Depois disso dispersaram pacificamente da mesma forma como vieram.

Em Khao Phrae Vihaern os “camisas amarelas” romperam através das barreiras militares (porque os deixaram), envolveram-se em confrontos com esses e com os residentes locais que os acusaram de virem de fora só para criar problemas. Dizia um velho residente do local – “nós e os cambojanos vivemos aqui há séculos juntos e em harmonia. Agora vêm estes de fora (os manifestantes eram os Guardas do PAD idos de Bangkok e cerca de 2.000 pessoas trazidas em variados meios de transporte principalmente de Chachoengsao e Buriram) perturbar a nossa vida”. O desfecho foi 17 feridos sendo que dois estão em estado grave. Um dos locais foi atingido por uma bala, não se sabe vinda de onde.

O Thai Rath, um importante jornal tailandês dizia hoje: A manifestação de Bangkok foi para servir os interesses de Thaksin e a da fronteira para os Cambojanos se rirem ao verem os tailandeses a lutarem entre si.

Amarelo está na moda e o Vermelho não. Ou será mesmo cumplicidade?

Rama IX

Enfraquecido e com febre S M o Rei Bhumibol Adulyaded deu entrada no final do Sábado no Siriraj Hospital em Thomburi, hospital que acolhe sempre o Rei. Interessante que os diferentes membros da Casa Real usam diferentes hospitais na capital. Assim nenhum é tido por ser “o melhor hospital”.

O Rei está a receber soro e medicação por via intravenosa e para o local já convergiram, como sempre acontece, muitos populares que aí permanecerão desejando, como eu, a S M as rápidas melhoras.

sábado, 19 de setembro de 2009

19 de Setembro

Hoje faz três anos que os tanques saíram à rua em Bangkok para derrubar um governo proveniente de uma eleição popular.

Thaksin Shinawatra, o chefe do governo da altura, tinha sido o primeiro Primeiro Ministro na história do país a ter sido reeleito não uma mas duas vezes.

O mal foi que ao conseguir a sua primeira maioria absoluta resolveu utilizar os mesmos métodos que os seus colegas na região instaurando uma democracia dirigida e aproveitando-se disso.

Thaksin, que acabou condena por uma questão de lana caprina - conflito de interesses, foi essa a decisão do Tribunal que o atirou para o exílio voluntário - teve durante a sua governação muitos pontos altos, tal que são actualmente copiados pelo governo de Abhisit, mas teve muitos momentos baixos e pelos quais deveria, de facto, ser condenado como o permitir (ou mesmo ajudar) a explosão das acções violentas no Sul do país e a muito tenebrosa guerra á droga que acabou por fazer mais de 3.000 mortos à margem da justiça.

Durante mais de dois anos os governos de Thaksin involveram-se numa luta activa contra o tráfico de drogas mas essa luta, que deu bons resultados, foi feita á custa de muitas execuções extra judiciais. Actualmente o Governo de Abhisit vê-se confrontado com um enorme aumento do consumo e tráfico de drogas e inclusive, contrariando a moratória solicitada pelas Nações Unidas, foram, há menos de um mês, executados dois traficantes condenados á morte por questões relacionadas com o tráfico de estupefacientes.

dia 19 de Setembro de 2006, e após uns longos dois meses turbulentos com várias mudanças e interferências nos comandos militares o General Sondhi Boonyaraglin, ou Sondhi B. por oposição ao líder do PAD Sondhi L., fez sair para para as ruas de Bangkok os tanques que rápidamente tomaram conta da situação. Thaksin encontrava-se em Nova Iorque na Assembleia Geral das Nações Unidas, para onde parte amanhã Abhisit, e, embora à ultima da hora tentasse demitir o General, já ninguém lhe obedeceu e o Rei numa audiência extraordinária pelas 12.30 da manhã já do dia 20, deu "a sua benção" ao golpe e solicitou aos comandos militares que trabalhassem para, e em benefício do país.

Estava assim iniciado um período assaz complexo da vida tailandesa. Após um ano e dois meses de um governo dirigido por militares, sob a atenta vigilância do Conselho de militares revoltosos, realizaram-se eleições mas voltou a ser, apesar de uma Constituição que o pretendia evitar e de várias decisões dos Tribunais nem sempre claras, um partido ligado (ou dirigido) por Thaksin que veio a ganhar as eleições. O ano de 2008 foi um ano de permanente turbulência ou não tivesse sido o golpe de há três anos feito para derrotar Thaksin. O PAD entrou em acção que culminou na ocupação dos aeroportos com um prejuízo para o país calculado pelo Banco Central em 186 mil milhões de bath, quase 4 mil milhões de Euros, mas acabou por ser, de novo, a intervenção dos Tribunais, sempre tão permeáveis a interesses partidários, a acabar com o thaksinismo e a levar Abhisit ao poder.

Hoje os "vermelhos", a guarda avançada do thaksinismo mas simultaneamente, um movimento que alberga, neste momento, todos os que se opõe ao governo da coligação liderada (?) pelo partido Democrata, levou a cabo uma manifestação em Bangkok pela Democracia e contra o golpe.

O governo uma vez mais reagiu mal ao instaurar o Regime de Excepção que o Internal Security Act permite não só hoje mas desde Sexta-feira e até Terça-feira. Só um muito errado entendimento da situação política do momento poderia fazer pensar que a manifestação não seria pacífica. Tratou-se mais de um acto de vitimização do Governo e de polítiquice interna do que uma real questão de segurança. De igual forma o governo errou em não implementar semelhante excepção na província de Si Sa Ket para evitar a manifestação anunciada como potencialmente violenta quando o PAD disse que iria marchar sobre o templo da Khao Phrae Vhearn para expulsar os ocupantes (cambojanos) da terra "tailandesa".As imagens, da comunicação social tailandesa, que ilustram este texto são claras. A manifestação do PAD tinha sido anunciada como potencialmente violenta, envolvendo um conflito trans fronteiriço, e acabou com os 5.000 manifestantes, transportandos de Buriram para o local, (estranha aliança de Nevin com o PAD) a atacarem os residentes locais e as próprias forças de segurança que ai estavam estacionadas o que provocou 17 feridos. Pelo sentir do Governo essa manifestação não era um problema de segurança. A tradicional duplicidade de entendimentos. Aquilo que é "vermelho" é mau e o que é "amarelo" é bom!


Em Bangkok cerca de 30.000 pessoas, a fazer fé na comunicação social, manifestaram-se, disseram as suas palavras-de-ordem, ouviram o "boss", que disse falar de um país próximo e dispersaram, como estava previsto, sem o menor incidente apesar de ainda durante a tarde o Vice Primeiro-Ministro ter vindo dizer que havia "hooligans" (o termo utilizado) infiltrados e que a polícia poderia utilizar balas de borracha se houvesse incidentes.

Que fique uma coisa a lembrança de que golpes militares nunca são soluções. O país está hoje mais dividido do que estava há três anos atrás e perdeu em todos os índices internacionais, inclusive no da corrupção, só que essa agora não está focalizada só numa pessoas mas em muitas.

Já que nada se ganhou ao menos que se ganhe essa noção da inutilidade da intervenção dos militares e a noção de que o debate livre de ideias é a única forma de fazer avançar um país. Da mesma forma que Thaksin não pode, não deve, ser parte do futuro do país, devido ao facto de ser um factor de desunião e não de união, os militares e as ideias retrógradas e contrárias à vontade do povo livre e capaz de decidir, também não podem existir como actores principais do futuro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Ainda o Chefe da Polícia


Uma nota mais sobre a novela das 8 – A Escolha do Chefe da Polícia.

Abhisit tem insistido sempre no "seu homem" General Pateep enquanto os outros membros que têm votado contra apostam no General Chumpol.

Actualmente ambos são Comandantes Adjuntos o que à partida os qualifica mas é necessário ver porque é que, essencialmente a corporação e aqueles que lhe estão mais perto, escolhe Chumpol.

Pateep é um homem do aparelho administrativo da Polícia familiarizado com as questões relacionadas com finanças e organização e afastado das aéreas de investigação e combate ao crime. Tem pouca experiência de funções de comando visível, ou seja na “frente de batalha”, e tem sido ao longo da sua longa carreira um homem de bastidores e um burocrata. É conhecida a sua ligação ao líder do PAD Sondhi L. fundamentalmente através da sua forte proximidade com o seu subordinado Chaliya Siri-amphankul parceiro regular daquele. Pateep não é reconhecido como um líder pelos seus colegas da área de investigação e isso tem sido repetidamente trazido a lume dentro da corporação.

Chumpol começou a sua carreira na luta contra o crime e na investigação e ganhou prestígio nesse sector e assim subiu na carreira. É visto como um líder e como um oficial capaz de cortar cerce nas investigações que estão a seu cargo. Tem um handicap. É da mesma classe de cadetes que Thaksin, recorde-se que o fugitivo ex PM é Polícia, embora também da mesma classe que o General Anupong, o que quer dizer que nem todos os membros da classe 10 são "thaksinistas".

Em resumo. De dentro da corporação Chumpol é o mais apreciado e só o empenho político de Abhisit faz de Pateep o único candidato que vai a votos mas que sai sempre derrotado.

Muitos perguntam-se porque Abhisit não avança com outros candidatos tirando da luta esta dualidade que só o prejudica. Para esses a razão é o PAD estar por detrás de Pateep e o facto de, até para mais atrapalhar Abhisit, nenhum outro membro da Comissão apresentar outro candidato.

O mais caricato é que se até ao dia 30 de Setembro não for encontrado o novo Comandante quem, de acordo com a lei vai ser nomeado é o General Priewpan Damapong, o primeiro na hierarquia, e por acaso cunhado de Thaksin Shinawatra.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Nobreza

Nobreza é a atitude da Princesa Bajrakitiyabha da Tailândia, aqui na fotografia como um simples participante, quando, há três dias em Geneva, representava o seu país fazendo um discurso na sessão inaugural da 12ª Reunião do Comité dos Diritos Humanos das Nações Unidas.

Quem é nobre de formação, de espírito e de coração não necessita de o mostrar nem de se pôr em bicos de pés para que os outros fiquem mais abaixo. Quem é nobre por natureza é simples.

As Fraquezas de Abhisit

Uma vez mais a liderança do Primeiro Ministro Abhisit Vejjajiva foi posta em causa quando teve de adiar a escolha do novo Comandante da Polícia, segundo ele por não haver unanimidade na decisão.

Todas as pessoas se questionam por que é que Abhisit se meteu nesta guerra na qual tem vindo a sofrer continuadas derrotas abalando seriamente a sua credibilidade.

Dizia-me ontem uma jornalista tailandesa que a partir do momento em que o PM afirmou, publicamente, que ele próprio se encarregaria de “fazer andar” a investigação sobre a tentativa de assassinato de Sondhi L., ficou refém não só da sua palavra mas pior, das pressões do PAD que continua a meter medo a todos.

Na realidade o movimento amarelo continua a existir como um fantasma na cena política tailandesa e não existe ninguém com capacidade de chamar os seus líderes à responsabilidade sobre os gravíssimos danos que causaram ao país. A simples ideia de que possam voltar para a rua, com toda a impunidade que gozam, e levem a cabo manifestações semelhantes, causa dores de cabeça na maioria dos governantes. São conhecidos os apoios de que gozam nas mais altas instâncias e sabe-se que se decidirem avançar para novas manifestações o governo terá (?) de utilizar os mesmos métodos que utiliza actualmente contra os “encarnados” e isso é certo causará grandes distúrbios e eventualmente confrontações violentas. Neste momento o PAD concentra as suas atenções, de novo, sobre o caso de Pharae Vihaern e anuncia ir fazer uma marcha este Sábado na zona do templo onde, segundo dizem, quer tropas inimigas quer populações ocupam território tailandês. O governo de Abhisit e o governo Cambojano já lançaram os seus avisos, o primeiro para que se abstivessem de qualquer manifestação e o segundo de que serão repelidos a tiro de canhão caso ousem entrar em território considerado do Camboja. Os comandos militares estão sobremaneira preocupados com as possíveis consequências da acção quer a nível nacional quer internacional. Note-se contudo que neste caso, e uma vez mais utilizando dois pesos e duas medidas, não foi a zona declarada ao abrigo do Internal Security Act como acontece com Bangkok neste fim de semana.

Mas voltando ao caso da eleição do Comando da Polícia, Abhisit, que tinha utilizando os métodos daqueles que ele condena para afastar todos os obstáculos no caminho da escolha do seu protegido, General Prateep, viu à última hora que afinal iria sofrer mais uma derrota e, segundo as informações que vieram cá para fora ainda maior do que da primeira vez. Desta vez seriam 6 contra e somente 3 a favor sendo que inclusive o Comandante interino que Abhisit colocou no lugar de Pathcharawat disse que iria votar contra.

Mais uma vez o PM mostrou os seus maus fígados, cortando breve a reunião e abandonando furioso, segundo as testemunhas oculares, o local refugiando-se até ao fim do dia no seu gabinete com o, seu conselheiro favorito do momento, o deputado Sirichock alcunhado de “wallpaper”.

O isolamento de Abhisit, de quem não se conhece hoje em dia ninguém próximo a não ser o seu colega de Oxford, o Ministro das Finanças Korn e o já citado “wallpaper”, só é atenuado com a clara sensação de que os seus inimigos, que são hoje os seus aliados mais próximos, não o querem deitar abaixo mas somente fragilizar para melhor servir os interesses imediatos dos seus grupos.

A actual fragilidade de Abhisit levará a que a sua visita à AG das Nações Unidas, a partir do dia 20, seja marcada pelo isolamento e falta de importantes encontros bilaterais mesmo sendo ele o Presidente em exercício da ASEAN. Ecos disse já se fizeram sentir na imprensa.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

É Assim a Segurança?


Uma vez mais o Governo decidiu impor o Internal Security Act (ISA) na zona de Dusit onde se encontram a maioria dos edifícios que se julga possíveis de serem afectados pela anunciada manifestação da UDD “comemorativa” do terceiro aniversário do golpe de estado que depôs Thaksin Shinawatra.

Contrariamente ao aviso de muitos o gabinete aprovou a aplicação do ISA de 18 a 22 de Setembro. O terceiro aniversário do golpe celebra-se no Sábado 19 e a UDD anunciou que iriam realizar duas manifestações uma na “Royal Plaza”, assim é conhecida a praça em frente ao palácio Ananda Samakhom e em Si Sao Theves, a rua onde mora o General Prem, Presidente do Conselho Privado do Rei, a quem sempre se aponta a autoria moral do golpe.

A aplicação do ISA implica que os militares sejam trazidos para a rua para completar a acção das forças policiais e que sejam suspensos os direitos fundamentais dos cidadãos no que respeita à sua liberdade de movimento, associação e opinião. As forças militares ficam com a capacidade de prender, sem mandado e por simples conveniência, quem entenderem, julgando em causa própria, que é uma ameaça para a segurança. Espera-se que desta vez as forças de segurança actuem com mais clareza já que aquando da instauração do ISA no dia 29 de Agosto, houve um caso em que foram presos três sindicalistas, alegadamente por violarem o ISA, por se manifestarem contra o encerramento da sua empresa, só que essa prisão ocorreu no dia 28 e não no dia 29 ou seja foi invocado o ISA quando não estava em vigor. E do “engano” não houve nenhum pedido de desculpas nem os acusados recorrem por medo de represálias.

Resta agora saber qual vai ser a resposta das forças da UDD. Duas semanas atrás a UDD decidiu cancelar a manifestação planeada mas agora não parece ser esse o caso. Já tinham anunciado que as manifestações desse dia seriam totalmente pacíficas e que o dia seria marcado como uma jornada pela Democracia e contra os golpes de estado militares.

Teme-se agora, e com alguma razão de que, à semelhança do que aconteceu em Abril, terceiras forças, a quem a confusão aproveite, se intrometam no meio dos manifestantes e possam desencadear acções que coloquem a situação em total risco de descontrolo voltando a haver confrontações violentas.

É hoje por demais sabido que ao acontecimentos de Abril, quer em Pattaya quer em Ding Daeng foram provocados por agitadores ao serviço de forças que pretendem levar os militares a intervir a desencadearem um novo golpe de estadão. Infelizmente ainda existe muita gente, o que não é estranho após 18 golpes de estado em cerca de 50 anos, que acredite que um regime militar é o que melhor serve o país. Basta ver um pouco da história política recente do país para entender isso sem grande dificuldade.

Aqueles que lutam pela Democracia, seja no campo da coligação governamental seja no campo da oposição, ainda o tentam fazer por métodos legais e democráticos, como deverá ser, mas acabam ultrapassados por radicalismos ao serviço de interesses pouco claros.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Novo Chefe da Polícia

Está assegurada a nomeação do novo Comandante da Polícia que Abhisit quer.

Se bem se lembram na votação que aconteceu há cerca de três semanas o Primeiro Ministro tailandês perdeu, quando o candidato que propôs foi derrotado, 5 contra 6. Perdeu a votação e perdeu a face o que é mau no contexto asiático. Abhisit reagiu mal e os jornais mostraram à saciedade essa derrota.

Havia que fazer alguma coisa para que aqueles que votaram contra mudassem a sua opinião ou saíssem de cena.

Num regime onde prevaleça o debate de ideias, a troca sã de opiniões, Abhist teria tentado fazer ver à comissão da polícia que tem por dever votar o novo comando, o mérito do seu proposto e muito provavelmente conseguido o apoio necessário para apresentar de novo, e agora vitoriosamente, o seu candidato.

Mas não, não foi assim que as coisas se passaram. Entraram em função, aqueles que os ingleses tão bem denominam os “spin doctors”, para tratar de assegurar, por linhas tortas e caminhos dúbios, os resultados que deveriam ser obtidos através de um são ,aberto e democrático debate político.

Os inimigos principais estavam na pessoa do até à data Comandante da Polícia, o General Patcharawat, do Ministro do Interior e do seu Secretário-Geral e de um outro membro do comando da corporação.

E, um de cada vez, foram afastados de poderem emitir uma opinião contrária à do PM.

Patcharawat acabou, no início desta semana, indiciado num processo levantado pela Comissão Nacional Anti-Corrupção (NACC) pelo facto de ser o Comandante da Polícia ao tempo dos incidentes de 7 de Outubro, quando as forças policiais, de uma forma desastrosa, avançaram contra os manifestantes do PAD tendo acabado por morrer uma manifestante e serem feitos feridos centenas de pessoas. Não se compreende porque foi aquela comissão (não houve caso algum de corrupção no assunto) e não o ministério público, chamada a investigar os incidentes, mas compreende-se agora pois a capacidade mostrada para ser manipulada assim o justificava. A decisão sai no momento certo e Patcharawat sai de cena.
Ontem, o General Suthep Thammarak, o outro membro da Polícia que tinha votado contra, teve uma reunião de uma hora com Abhisit e após esta ter terminado anúnciou a sua demissão do seu posto. Outro que já não vai votar contra.
Faltavam o Ministro do Interior e o Secretário-geral do Ministério. Desde a semana passada que vem a aparecer todos os dias nos jornais um escândalo relacionado com um terreno que tinha sido doado a um templo e que de acabou sendo um campo de golfe. O Secretaria-geral do Ministério do Interior é apontado como suspeito de ter estado por detrás da utilização irregular de tal terreno e está ameaçado de investigação do caso. Mais dois elementos, Vichai e o Ministro Chawoarat que vão que ter de se submeter a um discreto silêncio em vista da possível investigação.

Trabalho feito. A nomeação do General Prateep Tamprasert está assegurada.
Contudo Abhisit sai muito mal aos olhos do público como o confirmou uma sondagem da ABAC (Assumption University) hoje publicada e foi ontem frontalmente acusado pela Associação da Polícia, numa conferência de imprensa na qual estiveram vários antigos Comandos da Corporação, incluindo um General com 94 anos, que repudiaram as acusações contra Patcharawat feitas pela NACC. Nessa conferência de imprensa o General (r) Salang Bunnag, originário de uma das mais distintas famílias tailandesas, acusou o PM de estar por detrás da decisão da NACC e solicitou àquela agência que emitisse uma directiva sobre como os efectivos da polícia deveriam actuar em casos semelhantes sob pena de esta corporação se remeter ao imobilismo em futuras manifestações, como a já prevista para o dia 19, data em que a UDD afirmou ir comemorar, à sua forma, o 3º aniversário do golpe de estado que destituiu Thaksin.

Entretanto Abhisit nomeou como Comandante interino do Polícia o General Thanee Somboonsap, tão próximo do PAD que chegou a apresentar-se, várias vezes, no palco que aquela força teve montado em Government House e participou numa manifestação do PAD contra os acontecimentos de 7 de Outubro em frente do comando da polícia de Bangkok a própria força a que pertence sem ter sido alvo de nenhum processo disciplinar.



Entretanto Sondhi L., o líder do PAD foi ontem condenado a dois anos de cadeia, já reduzidos a 6 meses pela primeira instância de apelo, por insultos a um ex Ministro das Finanças do tempo do Governo saído do golpe de 2006, e tenha saído em liberdade e por certo assim ficará. Esse mesmo Sondhi tinha acusado na semana passada Abihsit de estar escravo de algumas das forças que o apoiam (leia-se Bhum Jai Thai Party e o General Anupong) e de não ter coragem para acabar com o caso do comando da polícia.

Resposta pronta e directa satisfazendo o requerido

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O Avião de Papel


Mong Thongdee, é um jovem que se tornou famoso, por ser um ás em fazer voar aviões de papel tendo ganho uma competição em Chaing Mai, onde vive, e, em face disso, teve direito a representar a Tailândia, numa competição internacional no Japão.

Acontece que Mong se tornou famoso também por que é "apátrida".

Os seus pais fazem parte dos cerca de 3.500.000, segundo os números mais optimistas, de ilegais existentes na Tailândia. Trabalhadores que demandam este país em busca de algo ganhar procedentes na sua maioria dos países vizinhos, Birmânia, Laos, Cambodja mas também da China.

Acontece que Mong nasceu já na Tailândia mas tal não lhe deu direito a ter a sua situação resolvida. Um sistema complexo que conjuga em simultâneo o jus soli com o jus sanguinae impede que Mong tenha papéis neste país.

Requerido um passaporte, o Ministério do Interior recusou, tendo mesmo o Ministro dito que se ele queria ir ao Japão deveria ir representar “o seu país” (a Birmânia). O assunto acabou por se resolver com a intervenção de Abhisit que atribuiu um passaporte temporário a Mong e lá irá ele para o Japão no dia 17 para representar, penso eu a Tailândia.

Duas notas sobre este incidente.

O aproveitamento político feito por Abhisit. Não são bonitas, embora aconteça por todo o mundo, as fotografias que os líderes políticos aproveitam para fazer para lhes dar boa publicidade nestes momentos. Lá estava, nas muitas fotografias, Abhisit com o jovem Mong que, obviamente, só disse bem e aplaudiu o Primeiro Ministro.

O “caso Mong”, veio mais uma vez mostrar um dos graves problemas desta sociedade que é a imigração ilegal. Actualmente cerca de 5% da população vive sem documentação, vide direitos, no país. Dessas pessoas, 400.000 estão nos campos de refugiados, se bem que a Tailândia os apelide de desalojados visto nunca ter ratificado as Convenções Internacionais, que assinou, sobre os direitos dos refugiados. Esses refugiados são acolhidas, alimentadas, recebem cuidados de saúde e educação, etc, tudo proporcionado pela Comunidade Internacional com a União Europeia à cabeça.

Agora os outros mais de 3 milhões vivem ao desabrigo de todos os cuidados inerentes aos direitos de um ser humano. Abusados por máfias, patrões sem escrúpolos e mesmo por aqueles cujo dever é defender e proteger os refugiados e todas as pessoas em geral. São usados nas fábricas e nos bordéis onde ficam na total dependência daqueles que deles se usam. O país conhece a sua existência, conhece a necessidade que a economia tem deles mas não consegue elaborar um sistema capaz de enquadrar as pessoas boas deste largo contingente de tal modo que sejam um real beneficio para o país, e para eles, sem serem pelo contrário uma permanente fonte de problemas essencialmente em dois aspectos. Criminalidade e questões sanitárias.

Uma vez um anterior Comandante em Chefe da Polícia dizia em “petit comité” que os trabalhadores ilegais que havia, ás centenas de milhares, em Samut Songkran (oeste de Bangkok) a trabalhar em industrias do sector alimentar eram uma grave problema para a boa qualidade sanitária dos produtos pois se estavam doentes nunca iam aos hospitais devido ao facto de serem ilegais e terem medo das eventuais consequências.

No dia 16 de Fevereiro foi proposto, pela União Europeia ao Ministro Kasit a constituição de uma comissão que estudasse a questão dos campos de refugiados e outras questões sobre imigração ilegal, o que o Ministro aceitou, mas até agora nada aconteceu visto a parte tailandesa nunca ter respondido posteriormente ás tentativas de agendar uma reunião de trabalho. E não se pense que é pelo facto de não haver interesse em encontrar uma solução. Por três vezes nos últimos 10 meses, do meu conhecimento, que variados departamentos do governo tailandês mostraram interesse em recolher informação sobre como é que se lida com esta questão noutros pontos do globo. Do Minstério do Interior ao Exército vários são os interessados. Talvez neste dispersão de funções e responsabilidades esteja uma das causas da inacção.

Resolver a questão dos refugiados e de todos os ilegais no país necessita vontade política para afrontar interesses fortes que estão por detrás da manutenção deste estado de coisas com prejuízo do país e fundamentalmente de todos que, tal como Mong, não conseguem fazer voar no seu avião de papel um sonho de uma vida digna .

Justiça e Desilusão


Justiça, Desenvolvimento e Democracia são conceitos permanentemente associados e interligados. Não é concebível haver Democracia sem direitos e liberdades essenciais, sem mútuo respeito, sem a liberdade de cada um ser diferente mas responsável, livre e capaz de poder exprimir as suas opiniões dentro do respeito da lei e da dignidade e respeitabilidade dos outros.

O abuso destes princípios tem de ser punido devidamente e na justa medida por um sistema judicial em que as pessoas possam acreditar e no qual vejam reflectidas as suas necessidades de protecção contra uma sociedade sempre e cada vez mais ameaçadora como é a que passivamente vamos construindo pelo Mundo fora.

Também não há Democracia sem Desenvolvimento. A desigualdade não pode trazer unidade e a capacidade de todos poderem aceder aos seus sonhos de vida. O Desenvolvimento, infelizmente, muitas das vezes é ele próprio a fonte de maior desigualdade e de grandes injustiças sociais. O balanço que a Justiça deve saber exercer também aí é fundamental para que o Desenvolvimento seja sustentado e chegue a todos independentemente da sua origem social, condição, religião, cor de pele e orientação sexual.

A Tailândia é um país cujo povo acredita fundamentalmente nestes princípios como o demonstram muitos dos estudos sociológicos feitos e muitos dos inquéritos de opinião. A Democracia está no coração dos tailandeses, à sua maneira, como deve ser em cada um dos cantos do Mundo observando-se os diferentes valores culturais.

Apesar disso a Justiça tailandesa “deixa descalços” a maioria do seu povo de tão controversa e “cega” que chega a ser com as suas decisões em nada, mesmo nada, ajudando à consolidação de um estado de Direito e de respeito pelos direitos humanos.

Já várias vezes referi casos de justiça controversos. Aqui mais alguns exemplos recentes, a maioria deles no sector político, ou não seja este o que mais casos leva a Tribunal com a fragilidade quer do sistema quer das leis vigentes: Samak, o ex PM deveria estar na cadeia, visto a condenação a que foi sujeito, de 2 anos de prisão efectiva, em 21 de Outubro de 2008 não tinha apelo; Pojaman ex-Shinawatra, foi condenada a 2 anos de prisão, fugiu do país, regressou e vive descansada na sua casa em Thomburi; Thaksin foi condenado a 3 anos por “conflito de interesses” visto ter dado o seu cartão de identidade (cópia da sentença) para que a sua mulher comprasse uma parcela de terra supostamente de uma entidade controlada pelo Governo, facto do qual ela foi absolvida; Thaksin fugiu do país para não cumprir esses dois anos e é constantemente reclamada a extradição dele, se bem que só para “inglês ver” já que nunca foi iniciado nenhum processo de extradição (por demais impossível perante a fragilidade da condenação); Victor Bount, um traficante de armas Russo é preso em Bangkok, requerida a sua extradição pelos EEUU devido a estar indiciado de crimes de tráfico ilícito de armas e drogas naquela país e tal é negado pelos tribunais tailandeses; três activistas manifestam-se em Chiang Rai contra a política sobre o arroz do governo, bloqueando por duas horas uma estrada e estão desde então encarcerados; milhares de pessoas destroem grande parte da sede do Governo, bloqueiam durante uma semana os dois aeroportos da capital causando mais de 3 mil milhões de euros de prejuízo e nada lhes acontece; deputados de um partido são acusados de ter viciado as eleições e são destituídos; Deputados do partido oposto têm os seus julgamentos adiados desde há mais de ano e meio; atentam contra a vida de Sondhi L., a polícia vem dizer que numa semana sabe-se quem o fez, existem acusações contra altas patentes militares e o caso está esquecido; o Santika arde na noite de Ano Novo, morrem mais de 70 pessoas, diz-se que um dos accionistas é um importante membro da polícia (inquérito do Ministério da Justiça), nada aconteceu a não ser acusar o cantor da banda que estava a actuar e o guarda do parque de automóveis que legalmente é o gerente do clube; as investigações sobre os acontecimentos do dia 7 de Outubro passado não avançam ou melhor é anunciada a decisão e depois adiada sem motivo; a decisão sobre a utilização irregular de 265 milhões de bath pelo partido no poder já foi adiada quatro vezes pois existe sempre um dos juízes que está ausente ou no estrangeiro em missão ou doente; o antigo chefe da polícia anda a ser procurado para ser notificado por construção ilegal numa zona protegida mas não o encontram e o oficial (também da policia) que o foi notificar da última vez afirmou que podia ser emitido um mandado de captura mas não o fazia devido o general ser mais sénior; semelhante caso existe contra o antigo PM, pós golpe de 2006, do qual há um relatório do Ministério do Ambiente dizendo que o local onde ele tem a casa é área protegida, mas nada aconteceu até aqui e duvida-se que tal venha a produzir algum resultado, etc, etc, etc.

Os casos apontados são só meros exemplos de centenas, verdadeiramente centenas, de outros onde não existem decisões ou elas são feitas tendo em atenção o dinheiro do arguido, a sua condição social ou ainda a cor política de que se veste.

Se o país não conseguir evoluir neste particular a Justiça deixa de ser um benefício de todos, essencialmente dos mais desprotegidos, para ser uma arma dos mais fortes daqueles que estão no controlo do poder, tenha ele a forma que tiver e o país recuará em todos os aspectos.

Para uma economia tão carente do investimento estrangeiro (mais de 70% do sector industrial vive de investimento proveniente do estrangeiro) o facto de a Justiça ter uma aplicação deficiente das leis é um tremendo problema sabido como é a dificuldade existente em fazer cumprir contractos livremente assinados por duas partes. Os contratos são em muito casos simples papeis a que uma das partes não atribuiu qualquer valor visto saber que se litigar vai conseguir ganhar benefício junto da instituição Justiça.

Dizia-me outro dia um Inglês que vive à 37 anos neste país, sócio de uma das maiores firmas de advogados em Bangkok que tiveram de sair do escritório onde estavam vistos o senhorio (das mais respeitadas instituição no país), ter requerido a propriedade para construir um condomínio. Passados 10 anos a casa está na mesma e desde o primeiro dia alugada a outros. Óbvio que o dono a isso tem direito. É um facto mas a ética nos negócios, como em tudo na vida, só dignifica.