quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Corrupção


Três acontecimentos coexistem neste momento no país e entre eles há uma ligação que se dispensaria.

Após as eleições (?) realizadas na vizinha Birmânia através das quais os generais tentam obter a certificação e continuação da sua ditadura de vinte anos, tem havido em vários pontos da longa fronteira com a Tailândia escaramuças com os movimentos armados de várias etnias que resistem à tentativa do governo central de os controlar e aniquilar. Há registos de centenas de mortos nos confrontos mas no que respeita à Tailândia há um novo fluxo de refugiados a cruzarem as fronteiras e a serem colocados em campos de acolhimento temporários visto os campos de refugiados geridos pela comunidade internacional estarem saturados com os cerca de 160.000 refugiados aí registados. Os confrontos na fronteira já fizeram inclusive feridos do lado da cá da fronteira devido ao fogo que (sem passaporte como os refugiados) atravessa os estreitos riachos que separam os dois países. As autoridades tailandesas têm usado extrema cautela pois sabem que qualquer acto de retaliação pode fazer estalar um conflito latente que ninguém deseja. Desse modo têm mantido conversações com as forças militares do outro lado de forma a recomendar que sejam evitados todos esses incidentes transfronteiriços.

A história dos campos de refugiados é uma história infelizmente bastante obscura e isso não é devido às pessoas que acorrem a pedir auxílio. Há abertura regulares para que mais refugiados possam ser acolhidos ao mesmo tempo que muitos dos países doadores acolhem pessoas que se encontram nos campos. Isso seria o processo normal e com um sinal positivo se não fosse por si manchado por forte corrupção no alinhamento daqueles que acedem às novas entradas e saídas. As autoridades que controlam os campos (as ONG só podem fazer a gestão dentro do campo mas o escrutínio de quem entra e sai é-lhes vedado) escolhem a dedo quem lhes paga para ter essa sorte de aceder a um campo que lhes pode proporcionar um futuro.

Outra história é a das cheias que continuam a flagelar o país um pouco por todo o lado. Os dados oficiais apontam para que 60 das 76 províncias estão ainda afectadas pelas cheias, 203 pessoas são dadas como mortas (fora os desaparecidos) e os prejuízos para a economia do país são tremendos. O governo e muitas instituições e pessoas anónimas acorreram a criar fundos de apoio mas é agora sabido que a maioria desses fundos acaba nos bolsos de oportunistas fundamentalmente funcionários estatais que vão acumulando à custa da desgraça alheia.

A terceira é o facto de estar a decorrer em Bangkok a 14ª Conferência Mundial Contra a Corrupção, ontem aberta pelo PM Abhisit. Larga audiência de mais de 1.300 delegados vindos de 135 países reúne-se durante 4 dias para debater esse flagelo mundial chamado Corrupção. Abhisit falou bem ontem e não se escondeu detrás de cortinas enfrentado a realidade no seu país. Contudo uma coisa é um discurso de valores, de intenções e outra a prática possível num país onde mais de 80% das pessoas entende que a corrupção é um "facto da vida" e onde mais de 1/6 dos gastos em concursos públicos acabam desviados do seu objectivo como afirmou ontem o presidente da Comissão Nacional Contra a Corrupção (NACC).

Abhisit sabe bem o que é esse cancro, como lhe chamou o presidente da NACC, pois convive com ele no seu gabinete e nos seus parceiros de coligação que o ajudam a manter no poder (lembre-se que o partido de Abhisit não é o que tem mais Deputados no Parlamento). Os escândalos que têm envolvido este governo, apesar da credibilidade do seu PM e de alguns dos Ministros da sua "entourage", são já bem superiores aos que aconteceram durante o período thaksinista facto que fez com que a Tailândia descesse fortemente nos dois índices mundiais que são medidos quer pelas Nações Unidas e pela Transparency International.

Não há que estar aqui a culpar isoladamente o país já que este é um fenómeno mundial. O que importa é combater desde cedo estas questões e lutar por uma ética nos negócios e entre os agentes do estado que dignifique o país.

Um jovem presente na conferência e representante de um movimento africano de Juventude contra a Corrupção perguntou a Abhisit o que é que a Tailândia estava a fazer para ensinar desde o inicio da escolaridade princípios de boa ética e viu-se pela resposta do PM que há ainda muito, mesmo muito, trabalho pela frente.

E esse trabalho é de todos nós e devemos lembrar uma coisa que Abhisit referiu. Não há "boa corrupção". A velha ideia de que se o agente corrupto produz trabalho está perdoado não é, de igual modo, aceitável.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Hu Jintao em Portugal

A visita do Presidente Hu Jintao a Portugal trouxe para as primeiras páginas dos jornais portugueses a "ajuda" que a China pode dar a Portugal nestes tempos tão conturbados para o país, o seu povo e a sua economia.

A questão tem de ser vista num contexto muito mais vasto do que a simples visita de um chefe de estado e a assinatura de alguns acordos que o Governo português usa para sua promoção e publicidade interna.

Não é por acaso que a revista Forbes considerou este ano Hu o homem mais poderoso do Mundo relegando para um plano secundário Obama que tinha ganho o mesmo "título" no ano passado.

A diplomacia externa Chinesa da era Hu Jintao tem sido uma das componentes mais fortes da politica desta potência. A abertura do país à política dos dois sistemas começou com Deng mas Hu entendeu que haveria muito mais a fazer do que somente deixar que algumas zonas do país ganhassem um desenvolvimento desproporcional com outras. Aliás esse desenvolvimento não corrigido era por si só uma ameaça á estabilidade necessária para o desígnio da nação chinesa de "conquistar o mundo".

Hu corrigiu algumas assimetrias, introduziu métodos mais consistentes com as necessidades dos seus clientes ocidentais (lembre-se a forma enérgica como foram condenados os falsificadores do leite para crianças), e tem continuado a política de Deng de ser o banqueiro dos Estados Unidos com a diferença de que estendeu essa prática a outros países especialmente aqueles que podem contribuir para ajudar a China nesse seu propósito de dominação pela força da sua economia.

As próximas cimeiras da APEC e do G-20 são mais dois passos na verificação do domínio chinês e da forma como esse domínio no sector financeiro é a "salvação" das economias mundiais em crise no ocidente. Essa mesma foi já a expectativa da cimeira dos Ministros das Finanças da APEC reunidos esta semana em Kyoto.

Vários países ainda têm dúvidas sobre acreditarem ou não no crescente poderio chinês, Brasil incluído, mas aqueles têm a paciência necessária para esperar e continuar a sua política de suavemente tomarem posições nos vários fora mundiais.

O Fundo Monetário Internacional na sua reunião de Sexta-feira passada colocou a China como a terceira voz mais importante no seu Conselho, depois dos EEUU e do Japão.

O governo chinês soube durante a crise económica dos últimos 18 meses, e que ainda subsiste em parte, impulsionar a procura interna de tal forma que mostrou ao mundo que o facto de a procura externa ter decaído, devido aos problemas no ocidente, não era um impeditivo para o desenvolvimento da economia na China e que este país pode ser o motor da recuperação. A permanente batalha entre os EEUU e a China sobre o valor do Yuan, acaba sempre por ser ganha pela China que abre um pouco a gaveta quando quer e a fecha no momento seguinte. Mesmo as questões dos direitos humanos (exemplo o recente Nobel atribuído ao activista Chinês Liu Xiaobo), não conseguem criar obstáculos na progressão ao mesmo tempo suave e firme dos avanços do "império amarelo".

A visita de Hu a Portugal e os grandes ecos feitos sobre ela não podem deixar de ser desassociados da próxima presença de Portugal no Conselho de Segurança das Nações Unidas e da estratégia global da China em aproximar-se do Mundo de língua portuguesa (Brasil e Angola especialmente) devido aos seus recursos naturais, tão necessários para o apoio do crescimento económico chinês. A China através de imensos mecanismos, financeiros e económicos, tem hoje uma presença forte e determinante nos dois referidos países. Em 2004 quando Angola estava num momento de grave crise financeira foi o governo da China que avançou com dois pacotes de 10 mil milhões de dólares cada que foram usados como um balão de oxigénio para a nação africana. Nesse momento o país já não conseguia dar garantias para os empréstimos externos e a China soube contornar esse problema para em vez de pedir petróleo pedir o desenvolvimento das infra-estruturas que hoje estão a ser feitas por empresas chinesas em Angola. A China é de um pragmatismo que não tem comparação com a mentalidade ocidental e dessa forma, que apelidei atrás de suave e firme, vão avançando e conquistando as posições, quer nos países quer nas organizações internacionais, que lhes darão de mão beijada a liderança a curto prazo do curso da história do nosso planeta.

Será bom, será mau? O tempo o dirá mas o facto é quem ignorar esta realidade está de olhos e ouvidos tapados e é por certo cego.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Fotos do Sul











A situação mantém-se crítica na província de Songkhla fundamentalmente na cidade de Hat Yai onde nalgumas zonas as águas atingem os 3 metros de altura.

As fotos falam melhor do que as palavras.

Por todo o país há um movimento de apoio e recolha de fundos para ajudar as vítimas tendo o Rei e a Rainha sido os primeiros a contribuir dando o exemplo.

Ontem pela primeira vez ouvi vozes de profundo desprezo por uma manifestação que estava em curso, promovida pelo PAD, dizendo as pessoas que o melhor que tinham a fazer era irem para o Sul e ajudar as pessoas. O povo começa a entender que por vezes os agrupamentos políticos só se preocupam com os seus interesses imediatos e não com os reais problemas do povo e do país.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cheias no Sul

Bangkok está a gozar um tempo de Primavera como há muito não se sentia com temperaturas no meio dos 20 graus centígrados enquanto no resto do país, Centro e especialmente no Sul as cheias vão tomando conta de muitas áreas.

De acordo com as informações do Ministério do Interior cerca de 15% da população do país está a ser afectada directamente pelas cheias e nalgumas zonas tem havido evacuações massissas.

A cidade de Hat Yai, no sul da Tailândia, é neste momento a mais afectada sendo a situação crítica. As autoridades decidido cortar todo o fornecimento de electricidade e da água estado esta a ser oferecida ás populações somente pelos serviços de socorro.

O governo disponibilizou uma verba de assistência de urgência de 5 mil milhões de Euros para poder fazer frente aos mais necessitados.

A situação em toda a província de Songkhla obrigou ao encerramento de todas as escolas, bancos e comércio visto as águas terem neste momento mais de 1,50 de altura basta observar na fotografia abaixo o sinal indicativo da rua.

O Primeiro Ministro Abhisit já deixou Bangkok para se inteirar pessoalmente da situação e foram enviados dois barcos da Marinha tailandesa para ajudar no apoio às populações afectadas. Há também relatos de que na ilha de Samui a água atinge a altura de 1,30-1,50 em várias zonas.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Lisboa não fica atrás

Lisboa quis mostrar que nós também temos cheias e desdobrou-se em esforços para ultrapassar Bangkok o que conseguiu com alta classificação.

Ainda não está ao nível das cheias no centro da Tailândia mas a desordem urbanística e o desleixo dos escoamentos fez com que muitas artérias da baixa lisboeta se transformassem esta manhã em verdadeiros rios como se pode ver nas imagens.






Água



As cheias continuam a ser o tema central na Tailândia.

A zona central do país está "debaixo de água" e o número de mortos ascende já a uma centena mas há também a registar um número não conhecido de desaparecidos.

Anuncia-se agora que o pior para Bangkok pode surgir no dia 8 de Novembro quando a maré no Golfo registar o seu ponto mais alto e entretanto as comunidades ribeirinhas vão se preparando algumas já com os pés bem dentro de água.

O pior contudo continua a ser a zona centro como referi com especial foco nas província de Lop Buri e de Auythya onde a água persiste em manter-se bem alta apesar da melhoria das condições climatéricas. Os solos estão tão saturados que as águas não conseguem ser absorvidas.

Há inúmeras povoações isoladas e nalgumas províncias os pontos secos transformaram-se em ilhas só acessíveis por helicóptero.

O povo tailandês continua a sua bonomia e como se pode ver nas imagens enfrenta as adversidades de uma forma tão natural e tão diferente daquilo que nós ocidentais o fazem.

Pode ver-se uma rapariga na sua casa meia inundada que não quer perder o seu programa de televisão e numa outra um residente enfrenta as águas para tentar apanhar peixes que vêm arrastados nas correntes. Note-se também a serenidade do monge ao enfrentar água quase pelo pescoço.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

As Cheias


Apesar da presença de Ban Kii-moon em Bangkok as cheias não podem de deixar de ser a notícia principal.

Até ao momento estão contabilizados 56 casos fatais e há centenas de milhares de pessoas afectadas sanitariamente pelas cheias devido fundamentalmente à falta de água ou à sua contaminação.

O Governador de Bangkok apelou às autoridades que tentassem moderar os fluxos de água das barragens na parte superior do Chao Phraya visto a zona ribeirinha do rio estar já totalmente tomada pelas águas que continuam a subir. Ontem na estação de Pak Klhong Talat, o mercado das flores junto ao tempo do Wat Po ou templo do Budha reclinado, as águas tinham atingido 2,23 metros acima do nível do mar. De igual modo a corrente no rio é forte o que provoca preocupações caso haja pessoas ou bens que sejam envolvidos pelas águas.

Outro dos problemas em Bangkok, para além das zonas adjacentes aos canais da cidade, é a zona de Lat Krabang, transversal norte-sul a leste da capital a não muito longe do novo aeroporto, que para além de ser uma zona pantanosa está a sofrer os efeitos da construção desse mesmo aeroporto que nalgumas das suas frentes funciona como barragem às águas naturais que por ali deveriam correr e se acumulam inundando grandes áreas.

Nós homens ditos sapientes temos, por todo o Mundo, a brilhante ideia de construir projectos em cima das correntes naturais de água, que dizemos estarem secas, e quando estas são em grande volume não conseguem encontrar as saídas e criam albufeiras que tudo destroem.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cheias em Bangkok

A água avança rápido sobre Bangkok e o governo prepara um plano de evacuação das populações das zonas ribeirinhas, quer junto do rio quer dos muitos canais da Veneza do Oriente como antigamente era chamada a cidade.

Até agora foram contabilizadas 41 vítimas fatais e os prejuízos para o país e para as pessoas em bens e em perdas de rendimento futuro, fundamentalmente na agricultura, são muito significativos.

O povo tailandês tem contudo uma relação muito especial com a água, fonte de riqueza e de purificação, que está bem ilustrada na fotografia acima.

A Tailândia é mesmo a terra dos sorrisos.

domingo, 24 de outubro de 2010

Inundações


Mesmo em Portugal não posso deixar de sentir a ansiedade com que se vive neste momento em muitas áreas na Tailândia devido às cheias que assolam grande parte da zona central do país.

A maioria das províncias nessa zona estão "debaixo e água" e estão contabilizados até agora 37 vítimas mortais das piores inundações de há muitos anos.

Várias barragens não resistiram e tiveram de ser abertas ou viram as suas barreiras serem galgadas pelo volume da águas.

Em meados da próxima semana espera-se que essas águas cheguem à capital o que conjugado com a alta maré dos dias 26 e 27 irá por certo fazer com que o Chao Phraya salte do seu leito e tome conta das margens.

O Governador de Bangkok tem andado incansável a tentar proteger a cidade e oxalá os esforços das forças de prevenção consigam minorar as cheias visto que uma coisa é certa. O volume de água é tanto e os solos estão tão empapados que não há duvidas que elas virão por aí abaixo em direcção ao Golfo da Tailândia que por si também está cheio.

Como dizia hoje um jornal "todos os olhos estão postos no rio".

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fragilidade Ética e Moral


Num artigo assinado por Pravit Rojanaphruck, o jornal The Nation trás hoje um artigo com o título " A corrupção é a norma actual na Tailândia?".

O artigo começa com uma declaração/pergunta que é preocupante: "Há alturas em que se pergunta se a sociedade tailandesa é corrupta na sua alma e faliu moralmente já não tendo salvação"

Posteriormente apresenta três casos, não daquilo que vulgarmente se chama corrupção ou seja da venda de interesses ou influências para ganhos próprios, mas exemplos de corrupção moral que é aquela que o articulista quer desenvolver com a sua pergunta inicial.

O PM ABhisit nomeou várias comissões, na sequência dos incidentes de Abril/Maio que tantas pessoas vitimaram, com o objectivo de por um lado inquirir sobre o que aconteceu e por outro apresentar ideais capazes de iniciar uma plataforma de reconciliação nacional.

Sabe-se que estas comissões estão sem fundos e sem pessoas para desenvolver o trabalho, o que as torna praticamente inúteis mas há que dar algum crédito à iniciativa do PM e acreditar que algo pode sair de ali.

O artigo de Pravit debruça-se sobre estas questões.

Primeiro refere factos relacionados com o novo comandante supremo do exército, General Prayuth Chan-ocha, um homem tido por pertencer a uma linha dura e ultra conservadora mas que tem tentado estender um ramo de oliveira, porventura muito curto, ao movimento vermelho que o acusa de ter sido o homem por detrás de toda a operação contra a UDD. Prayuth acaba de promover a posições de comando relevantes aqueles que se distinguiram na ofensiva contra o movimento vermelho de 19 de Maio sabendo-se que está em curso um inquérito sobre quem disparou sobre quem e muitos dedos estão exactamente apontados a esses militares. Deste modo o general concluiu antes do tempo e assumiu para si a autoridade de decidir.

O segundo caso tem a ver com um artigo publicado no Manager online, o jornal pertencente ao PAD, portanto sectário mas que ao contrário dos jornais vermelhos não foi encerrado, em que um Senador, Kammon Sittisamarn, um dos principais cérebros do movimento amarelo, incita o governo a prender o activista vermelho Sombat por este ter organizado a manifestação do dia 19 de Setembro, que para espanto de todos atingiu proporções muito acima das expectativas da polícia, afirmando que aquela manifestação (que correu com toda a ordem e civismo) era pior do que " uma revolução armada".

O terceiro caso diz respeito á constante negação da realidade pelos membros das comissões de iniciativa governamental recentemente criadas para proceder ás investigações dos incidentes da passada primavera. Embora escolhidos e nomeados pelo Primeiro-ministro os membros das comissões insistem que são independentes. Não se põe em duvida as boas intenções da alguns desses membros (o conhecimento pessoal que tenho de alguns permite-me dizer isso, embora não possa escrever o que de eles ouvi) mas o facto é que as comissões são uma criação de Abhisit e os seus membros escolhidos pelo PM, sendo que se louve o facto de este ter tentado encontrar pessoas o mais isentas possível.

O golpe de estado de 2006 foi feito com a intenção de limpar o país da corrupção do então PM Thaksin Shinawatra, Passados quatro anos o país caiu para pior posição no índice mundial dos países mais corruptos e os casos com que o PM Abhisit se vê a braços são de proporções nunca vistas. Outro dia um Vice-primeiro-ministro do presente governo dizia-me, referindo-se ao líder de um parceiro de coligação, que esse indivíduo era "a thief" ou seja um ladrão. Um elemento do National Security Council disse-me também há dias, e sobre o mesmo indivíduo, que ele era o pior cancro que tinha existido desde sempre na Tailândia.

Estes casos e os da corrupção moral referidos por Pravit estão a colocar o país numa situação extremamente perigosa e complicada com prognósticos difíceis de entender.

Abhisit é necessário ao país mas tem de ser um Abhisit com o caminho limpo e capaz de executar a sua política não a política de outros.

Pravit Rojanaphruck é um articulista independente e escreve regularmente artigos no The Nation abordando muitas vezes os temas miliatres.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Inundações

Já por várias vezes referi a importância da água como elemento essencial na vida dos tailandeses.

Está sempre presente nos bons e nos maus momentos. Celebra-se o ano novo tailandês, o Songkran ou festival da água, atirando água uns aos outros naquilo que era antigamente um acto de purificação de limpeza para começar um novo ano mais liberto das "sujidades" acumuladas.

A água é essencial para o cultivo do arroz elemento fundamental na vida e no quotidiano dos tailandeses. Os campos alagados são os mais propícios ao desenvolvimento dos arrozais alimento para muitos quer através da alimentação que fornecem quer através do dinheiro que se pode fazer com a sua venda.

A água é também o último dos purificantes quando a vida termina e num funeral um dos rituais consiste em verter água sobre símbolos do falecido.

A água é assim também sinal na morte e sinal de morte pois as inundações que regularmente, dir-se-á todos os anos, acontecem fazem as suas vítimas e este ano estamos a sofrer uma dos piores anos do há algumas décadas. O centro do país (Korat, Pichi, Saraburi, Chayaphum, Nakon Sawan. Lop Buri, Ahyuthia e Suphan Buri) estão fortemente afectadas pelas águas que atingem mais de um metro de altura e parece que o pior estará ainda para acontecer visto as barragens terem atingido a sua capacidade máxima e terem de ser abertas sob pena de rebentarem sendo o caso mais preocupante o da barragem Chulaporn em Chayaphum.

A Tailândia há muito que necessita de um forte investimento na gestão dos recursos hídricos do país pois onde há inundações numa parte do ano há também seca na restante parte do ano.

Ontem o PM Abhisit deslocou-se, primeiro de helicóptero para observar a dimensão da grave situação que se vive neste momento, fundamentalmente na província de Koral, e posteriormente percorreu de barco uma parte da cidade capital da província onde por exemplo um hospital com mais de 1.000 doentes, alguns em estado crítico, está totalmente isolado só sendo acessível por barco. Uma grande operação está neste momento em curso para tentar transferir os doentes por um lado e para fazer chegar quer os técnicos de saúde quer mantimentos por outro de modo a amenizar a eminente catástrofe.

Em Bangkok espera-se que nos próximos dias as zonas ribeirinhas, quer do rio Chao Phraya quer dos canais, fiquem inundadas.

A situação é preocupante e a requerer medidas urgentes mas as grandes medidas têm de vir de todos nós que insistimos em destruir o nosso planeta.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Domingo em Santa Cruz

O Domingo de ontem foi um dia especial passado em Santa Cruz o "bairro português" de Bangkok.

Já uma vez me referi a esta comunidade que mantêm consigo algumas memórias de Portugal.

Para além da Igreja, onde assisti á missa das 8.30 em tailandês, há uma pequena comunidade ancorada quer na Igreja quer na escola do convento de Santa Cruz que faz gosto em lembrar e manter as coisas do nosso país.

Depois da missa preparar a comida, para locais e para os dois padres da paróquia.

Como não podia deixar de ser, comida portuguesa.

Mãos à obra que a barriga chama por nós.

Arroz de Pato, um prato que bem podia ser tailandês pois o arroz é a base fundamental da cozinha do país. Há mesmo quem diga que a comida tailandesa é "arroz com" ou seja que tudo gira á volta do arroz. É um exagero mas é ao mesmo tempo uma realidade que o arroz é uma parte crucial da vida do país. A Tailândia consome imenso arroz e era até à bem pouco o primeiro exportador mundial de arroz mas com a presente crise provocada pela valorização do baht caiu estrondosamente para o 11º lugar tendo sido ultrapassado por todos os seus rivais na região.

Para continuar uma Carne de Porco à Alentejana, outro prato, se bem que aparentemente um pouco estranho para os tailandeses poderia ser inserido na cozinha local já que o grosso dos ingredientes é bem conhecido localmente. Aliás um dia ainda irei experimentar um Pad Ka Paw Moo á Alentejana, ou seja uma variante deste nosso prato com malaguetas e manjericão tailandês.

O terceiro prato Ervilhas com Ovos escalfados definitivamente com poucas raízes aqui. Não lhe consegui encontrar semelhanças com a cozinha tailandesa e os locais chamavam-lhe "sopa" devido ao seu caldo. Aliás sempre que há algum caldo assim acontece. Lembro-me de fazer um arroz de mariscos malandrinho e um amigo meu tailandês me dizer uma vez quando é que eu voltava a fazer "aquela sopa de marisco", qual Tom Yum mas com arroz.

Esta iniciativa das pessoas da embaixada foi um sucesso e para mim foi uma honra poder contribuir com algo que tenho prazer e gosto fazer, cozinhar.

Os comensais não se fizeram parcos e fizeram jus à nossa tradição de boa comida com constantes "aroi" (palavra usada para dizer que a comida é deliciosa) o que nos deixou a todos muitos felizes.

O Domingo de ontem foi mesmo um dia muito especial passado com muito gosto em Santa Cruz .

Entre as pessoas sentadas á volta da mesa havia uma velha senhora orgulhosa de possuir uma receita de carne estufada "à portuguesa" (na realidade, embora os estufados sejam muito mais comuns no leste europeu, os nossos não são nada de desprezar) que dizia não partilhar mas que era uma grande especialidade. Ansioso por provar.
Bem hajam os organizadores deste grande Domingo, dia também onde se viu numa página inteira no Post Today a despedida da Sagres do porto de Bangkok com as velas desfraldadas e os tailandeses a acenar até à próxima.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Construir o Futuro

De acordo com todas as fontes Portugal voltará a enfrentar uma situação de recessão no próximo ano e o orçamento a votar trará significativos aumentos da carga fiscal para todos os portugueses.

Impostos directos e indirectos irão aumentar de forma significativa num esforço para repor nos cofres públicos o nível de conforto necessário para o estado não entrar na bancarrota.

Os problemas de Portugal são muito mais profundos do que as mezinhas ora utilizadas podem deixar transparecer.

No pós 25 de Abril Portugal tentou transformar-se. Em curtas palavras:

Primeiro houve uma fase da consolidação da Democracia parlamentar com a saída de cena dos militares do Conselho da Revolução e do MFA.

Posteriormente entrou-se numa outra fase do crescimento económico e da tentativa de apanhar o comboio europeu de modo a não nos atrasarmos mais com o resto do continente.

Depois deveria ter sido feita a reestruturação dos vários sectores da sociedade: educação, justiça, administrativo, etc.

Concordando ou não com esta sequência de fases o facto é que foi assim que se passou.

Acontece que a terceira fase nunca se fez. Foi adiada a passado o fardo para o futuro com as consequências gravíssimas que hoje vemos visto não haver um ensino formador, uma justiça efectiva e credível, um estado limpo e por todos aceite, etc, etc.

O próprio sistema empresarial e económico deixou-se aburguesar e ficar dependente da vaidade dos holofotes e das ajudas estatais e com raras excepções mostra-se pouco criativo e inovador e pouco acrescenta para a riqueza do país.

A falta de competitividade do país e das suas empresas num mundo tão ansioso de inovação é uma realidade. Portugal, um país com poucos recursos naturais, necessitaria de estar alavancado em dois importantes recursos: a qualidade da formação da sua gente e a forma simples acolhedora, limpa e transparente como deveria ser atraído o investimento produtivo estrangeiro. Para isso necessitaríamos de ter muito mais disciplina na formação, mais investigação, mais qualidade dos professores e dos alunos e não a situação actual.

Necessitaríamos de ter também um poder, central e fundamentalmente local, limpo e interessado nos problemas do país e não em questões paroquiais como na maioria dos casos acontece.

Coisas tão simples de dizer mas tão difíceis de compreender porque não são a prática do nosso quotidiano.

Aqui na Tailândia, país que tem vivido conturbados momentos, crise económica de 1997, Tsunami de 2004, crise política desde 2006, que seriam porventura grandes obstáculos ao desenvolvimento caso acontecessem lá mais para Oeste, vemos a economia com uma força impressionante e o seu povo, que não beneficia de todos os apoios sociais a que nós ocidentais nos habituamos, sempre a levar o país para a frente.

Um dos muitos exemplos disso é o que se passa actualmente com a indústria automóvel, uma das mais importantes no país. Lembro-me de em 2006 ter assistido, durante uma feira automóvel à comemoração do facto de a Tailândia ter ultrapassado a fasquia do milhão de carros ano. Pois em 2010 o número deverá ficar próximo dos 1,7 milhões e em 2012 deverá subir para cerca de 2,6-2,8 milhões tendo em conta os investimentos que estão em curso no sector.

Nem o facto do baht ter apreciado 12% em relação ao US Dólar desde o início do ano, de haver problemas políticos que assustam investidores, de haver incertezas no que respeita o investimento estrangeiro. Estes são capazes de continuar a olhar para a Tailândia de uma forma positiva acreditando sobretudo na sua gente, nas qualidades profissionais dos tailandeses e nas plataformas necessárias à produção dos seus produtos.

Nem tudo é paraíso, há questões sociais a ter em atenção, há ainda muita gente que não consegue alcançar aquilo que anseia e merece, mas há a sensação (certeza) de que o futuro está ali, ao alcance da acção de cada um, e isso os tailandeses sabem bem.

Com capacidades e sabendo atrair os investimentos produtivos os tailandeses constroem futuro.

Tantas semelhanças e tantas diferenças com Portugal.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sagres em Imagens

Também neste caso as imagens dizem mais do que as palavras.

Respeito


Já uma vez referi o meu gosto pelos "cartoon" uma forma de mostrar a realidade através da ironia das imagens.

Os jornais tailandeses são férteis nessa arte talvez uma forma subtil de escrever palavras que não se podem mostrar.

No passado dia 24 o Manager, o jornal do grupo de comunicação do líder amarelo Sondhi L., publicava esta delicioso "boneco" com a seguinte mensagem: "prestemos homenagem para mostrar a nossa gratidão".

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Salário Mínimo

O governo de Abhisit pretende rever o salário mínimo diário e proceder a um ajuste de grande relevância.

Actualmente o salário mínimo de referência é diferente de província para província sendo o mais alto em Bangkok 206 baht (pouco mais de 5 €) por dia.

Existem no país cerca de 2 milhões de trabalhadores ilegais, número reconhecido por todas as entidades, que se vêm na maioria dos casos sujeitos a receber salários inferiores alimentando deste modo muitas indústrias que se valem disso para competir no mercado dos baixos custos salariais. Em Bangkok é normal na indústria de construção encontrar largos contingentes de trabalhadores ilegais, fundamentalmente vindos da Birmânia. Contudo o grosso da mão-de-obra encontra-se na indústria sendo que a do camarão congelado (a Tailândia é o maior exportador Mundial de camarão) é aquela que tem maior contigentes.

Abhisit pretende aumentar o salário mínimo para 250 baht e uniformizá-lo para todo o país mas está a enfrentar uma grande oposição por parte dos empresários e das várias associações sectoriais. Como é óbvio conta com o total apoio das organizações sindicais mas arrisca-se, com uma medida tão ousada, 21% de aumento nos casos mais baixos e 66% nos casos mais altos, a ver o tiro fazer ricochete nos seus pés.
A medida proposta por Abhisit parece ter sido pouco elaborada. A maioria das pessoas está de acordo com um razoável aumento mas a ideia da criação de uma salário mínimo de aplicação nacional parece totalmente fora da realidade e se avançar irá por certo criar mais instabilidade do que beneficiar os trabalhadores.

Uma delas veio hoje a público dizer que se o PM vai avante com a sua iniciativa isso vai siginificar um aumento do fluxo de ilegais vindos dos parisses vizinhos. O à-vontade com que uma associação sectorial fala de uma questão que é não só ilegal como violadora dos direitos humanos (a Tailândia é neste momento o presidente do Human Rights Council das NU), seria de espantar e criticar se o próprio sector público não fizesse de igual modo coro sobre a questão.

O Bangkok Post publica hoje um quadro do Serviço Nacional de Estatística com os diferentes salários mínimos e os salários médios, nas províncias onde é mais elevado e onde é mais baixo, e nele pode ver-se, repito fonte de uma entidade governamental, que nas três províncias onde ele é mais baixo o salário médio é inferior ao salário mínimo.

Sem comentários.

sábado, 9 de outubro de 2010

A Sagres





Majestática subiu hoje pela manhã o Chao Phraya atracando por volta das 10.10 ao cais OB do porto de Bangkok.

A Sagres trouxe com ela tanto que não sei descrever.

Para além dos nossos Embaixadores havia várias personalidades a aguardar a "Velha Senhora" mas mais do que esses a melhor parte foi oferecida pelas crianças da Escola de Santa Cruz e pelos alunos da Universidade de Thammasat, num esforço de organização dos funcionários da nossa representação, que tanto dão ao nosso país. No fim tanta gente, alunos e professores que muito sentem e amam Portugal

Deixo algumas imagens que falam muito mais daquilo que não seria capaz de escrever.