quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A Corrupção


O Governo do Primeiro-Ministro Abhisit era tido há partida por ser um governo onde a corrupção iria ser menor e haveria um acréscimo de transparência e credibilidade.

Abhisit para além de ter nascido em Newcastle Upon Tyne, no nordeste da Inglaterra fez a sua educação em Eton, a mesma escola onde são formados os membros da família real inglesa, e posteriormente em Oxord. São duas das mais prestigiadas escolas inglesas onde o rigor, a transparência de métodos e de condutas é uma das disciplinas onde é necessário ter a melhor nota.

O Primeiro-Ministro é por excelência um homem “limpo”, um político capaz de mostrar a diferença entre o passado recente e a sua administração. Esta é por certo uma das suas mais positivas características contudo acontece que na maioria dos casos aquilo que Abhisit quer e/ou afirma não consegue passar das palavras aos actos.

Recentemente a Transparecy International apresentou o “Global Corruption Perception Índex” onde se mostrava que a Tailândia acabou por ter um mau desempenho em 2009 ao descer 4 posições na tabela de 80 para 84.

Na realidade a governação de Abhisit, que completou um ano à escassos dias, acabou por ser apanhada nas contradições de ser uma coligação de interesses desligados onde aquilo que uns querem não é exactamente a vontade de outros.

Em Dezembro de 2008, um grupo de 4 partidos mais uma mão cheia de deputados que estavam juntos na anterior coligação no poder, saltaram de bancada para se associarem ao segundo maior partido, os Democratas, para formarem o actual governo. O facto é que esses que saltaram de bancada ou viraram a casaca como se diz em português corrente, são os mesmos que eram sempre acusados de serem corruptos e de gerirem os interesses de estado para proveito próprio.

Nesse momento, e sabendo da incapacidade do maior partido, o PPP (actual Phue Thai), em continuar a servir os interesses que prosseguem, entenderam por bem dar esse passo no sentido do “ex-inimigo” juntando forças para atingirem os seus objectivos.

A “doença” estava instalada desde o início no seio da governação Abhisit e este, sempre a apagar fogos colocados quer pela oposição quer pelos seus “amigos”, pouco o nada podia fazer para tentar impedir a disseminação desse “cancro” pelo corpo da governação.

Vários foram os discursos sobre a transparência de métodos mas poucos foram aqueles que os ouviram ou se o fizeram acreditaram que o Primeiro-Ministro era capaz de mobilizar forças para o combate à corrupção.

Ontem mesmo foi apresentada uma sondagem em que contrastando com o facto de 90% da população dizer que a corrupção é um dos principais problemas do país, um impressionante numero dos deputados, 35%, entende que ela faz parte da vida normal da sociedade tailandesa. Felizmente que os jornais têm a capacidade e a independência para publicar esse estudo que deve envergonhar aqueles a quem se pede serem os representantes da Nação.

Parece contudo que o PM, ou alguém por ele está empenhado numa cruzada contra a corrupção visto nos últimos dias terem vindo a público vários casos onde são apontados os dedos aos actores de casos de corrupção.

O gabinete do Secretário-Geral da Presidência do Conselho de Ministros publicou um relatório que põe a nu os casos de abuso de poder e corrupção relacionados com o exercício do orçamento de 2009. Esse relatório mostra que está em crescendo o número de casos onde existem fortes evidências de corrupção e de utilização indevida de dinheiros públicos. Estão relatados 335 casos onde o prejuízo para o estado se cifra em 35 milhões de Euros. A maioria desses casos passa-se em órgãos da Administração Local mas estranhamente todos os casos são apontados como estando sediados em Ministérios sob a alçada do Bhum Jai Thai Party (BJTP) de Nevin Chidchob e mesmo quando se fala de um caso no Ministério da Saúde, liderado por um Democrata, ele é atribuído à esfera do Secretário de Estado pertencente ao BJTP. Para alem deste estudo apareceram também nos jornais dois casos, ambos envolvendo altos oficiais, ao nível de General, um na Polícia e outro no Exército.

Vários outros casos estão a vir a lume como o do Presidente da Thai Airways que viajou de Tóquio para Bangkok com 390 quilos de bagagem extra, sem pagar e sem passar pela alfândega. Acontece também que o senhor é amigo do Ministro dos Transportes, membro do BJTP.

É extremamente positivo que sejam do conhecimento público os casos, que sejam levados a julgamento e que os culpados, se os houver, sejam condenados, mas estranha-se a casualidade (?) de os casos só se dirigirem a uma força política e a extractos das forças de ordem que constituem blocos ocasionais para Abhisit.

Quanto a este ponto refira-se que o PM ainda não conseguiu nomear o seu candidato para o topo da hierarquia da Polícia (que continua a ser dirigida por um interino com todas as consequências de falta de autoridade que isso acarreta), e que o Exército tem mantido uma luta surda contra o PM na questão do Sul do País opondo-se à iniciativa do PM, lançada em Fevereiro passado, da criação de um organismo civil para gerir o conflito na região que desde 2004 já matou mais de 4.000 pessoas e onde estão estacionadas 60.000 tropas com a dotação orçamental que isso implica.

O dia a dia de Abhisit é feito de um passo à frente e 99/100 pequenos passos atrás e assim vai tentando avançar. Há contudo dias em que os passos para trás são mais do que os que consegue dar para a frente e os que o puxam mais para trás acabam por ser sempre os seus “aliados” ou porque essa é a estratégia ou por total inabilidade em seguir o PM.

Seria bom, também, que a aguardada decisão judicial sobre o caso da atribuição de um subsidio ao Partido Democrata no valor de 5.3 milhões de euros, em violação das leis eleitorais, por uma empresa estatal, que se vem a arrastar por mais de um ano com sucessivos adiamentos e que é esperada para hoje, seja tomada em consciência e com completa indepêndencia para próprio benefício do sistema. A questão é que se essa decisão, for no sentido da condenação acarretará a dissolução do Partido e sabe-se que isso não é do interesse daqueles que apoiam Abhisit já que se sentem protegidos com a sua liderança

2 comentários:

Combustões disse...

Nuno
Parece que o aumento de intervenção do governo em matérias relacionadas com corrupção indica, precisamente, essa "descida" no ranking mundial. É como o HIV. Se um governo esconde a realidade, tem boa posição no ranking: se divulga resultados é o pandemónio. As estatísticas são sempre perigosas. No caso do governo thai, a coisa mais importante a destacar é: Abhsit é um homem honesto e impoluto.

Nuno Caldeira da Silva disse...

É verdade que Abhisit é um dos, infelizmente poucos, políticos fundamentalmente limpos o que aaliás eu refiro mas seria bom que os casos de corrupção quando existem suspeitos do Partido Democrata também fossem investigados sem medo e isso nunca acontece. Desde que está no Governo nenhum dos casos em que os Democratas estavam envolvidos acabou com condenação. E disso tenho a certeza absoluta pois tenho o registo deles. Ou absolvição ou arquivamento. É a velha questão da Mulher de César. Não basta falar e parecer bem. Há que sê-lo em toda a extensão.