terça-feira, 15 de março de 2011

Guerra dos Urinóis

Hoje ao ler o título de uma notícia local só meu deu vontade de rir. Dizia a local que a " a Polícia falhou a conquista dos urinóis do PAD" .

Está instalada a guerra dos urinóis como grande símbolo da conquista amarela na capital.

O incidente conta-se em duas linhas.

O PAD ocupa parte de Rajadamnoen desde 25 de Janeiro e uma das primeiras operações foi a de montar uma verdadeira aldeia (tendas, locais para dormir, tomar banho, cozinhar e os famigerados urinóis) onde os seus apoiantes pudessem estar acampados. As manifestações aqui desenvolvem-se assim. Podem ser poucas pessoas (o que é um facto neste caso) mas ocupam largos espaços pois montam-se verdadeiros acampamentos onde as pessoas permanecem largos tempos (lembre-se que a anterior dos amarelos em 2008 durou 192 dias).

A polícia da capital já emitiu um sem número de comunicados avisando os amarelos de que têm de abrir espaço para o normal funcionamento da zona (passagem de pessoas e carros e acesso a edifícios) mas os manifestantes fazem orelhas moucas e há dias mesmo o General Chamlong avisou que se a polícia os desalojasse pela força ele próprio comandaria um grupo dos seus militantes para invadir o palácio do governo (e pessoas ninguém o vai prender já que le está em liberdade sob caução e impedido de incitar à insurreição).

Ontem então uma força de 1.200 polícias em fatos de combate anti-motim avançou para o local com o nobre intuito de "conquistar os urinóis" mas foi de tal impedido por uma dezena de guardas do PAD que desafiaram a polícia com as grades de ferro que usam para cercar o acampamento tendo a polícia, devido por certo á sua fraqueza numérica (1.200 contra 10), retirado par repensar a estratégia.

Grande vitória esta madrugada pelas 5:30 da manhã os urinóis foram desalojados e o terreno declarado terra libertada.

Assim se fazem as grandes conquistas contra as dezenas de guerreiros amarelos na capital.

Uma questão que continua por se entender é porque razão eles ali estão já que não se sabe bem o que é que pedem.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Somos todos Japoneses

Embora a cerca de 4.900 quilómetros de distância em Bangkok "sentiu-se" bastante o drama que se vive neste momento no Japão.

Não me quero alargar muito sobre tamanha tragédia já bem conhecida de todos.

Estava a almoçar na Sexta quando recebi (seria 12.50 hora de Bangkok) uma mensagem através de um serviço de alertas sobre o que se tinha passado na costa Leste do Japão. As notícias correm tão rápidas como a devastação daquela massa disforme de água que tudo levou na sua fúria.

Ao princípio falava-se de uma pequena zona e de umas dezenas de fatalidades. Fez-me lembrar semelhante caso em 26 de Dezembro de 2004, aqui bem perto, quando as primeiras notícias que recebi falavam em algumas zonas destruídas em Phuket e em cerca de 200 mortos. Como infelizmente se sabe acabou por se estender a uma muito vasta área no oceano Indico e o número de mortos só parou próximo dos 300.000.

A tragédia japonesa tem dimensões ainda difíceis de se contabilizar. Em números de pessoas que perderam a vida (nem quero dizer nenhum número pois o que gostaria de dizer era zero), os danos, totalmente incalculáveis e irrecuperáveis, em bens perdidos pelas pessoas, os perigos para a saúde presente e futura devido ao que está a acontecer nas centrais nucleares, os danos para a economia do país com a falta de energia, com os portos fechados á exportação, com as fabricas paradas por falta de tudo, com a fuga do investimento, com os triliões que vão ter de ser usados para tentar sarar as feridas de um país tão martirizado, etc., etc.

O Japão é o maior investidor estrangeiro na Tailândia e existe uma grande comunidade japonesa vivendo aqui e conheço bem a qualidade de que é feita este povo. Durante a minha vida profissional tive a oportunidade de trabalhar bastantes anos com Japoneses, de visitar inúmeras vezes o Japão donde conheço não só a maioria das cidades como parte do interior do pais e consigo compreender um pouco como é que irão voltar a andar de cabeça erguida, sofrendo no seu intimo mas com a mesma determinação como construíram a segunda maior economia do mundo no rescaldo do pós guerra.

Como disse o PM Naoto Kan este é o maior desafio para o Japão depois da devastação que aconteceu após a segunda guerra mundial, e pessoalmente penso que é mesmo maior se bem que o número de mortos será inferior ao dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. O sentir dos japoneses nos anos 40-50 é bem diferente daquele que existe hoje em dia. Os japoneses conseguiram, fundamentalmente nas décadas entre 65-85 transformar o país de uma forma que também transformou a cultura do país de forma significativa. Hoje o país pode estar preparado para enfrentar um desastre das proporções do de Sexta passada mas no que respeita a reconstrução do país haverá sentimentos diferentes do que os daqueles tempos. Não quer isto dizer que os japoneses irão baixar os braços, não é povo para isso fazer, mas irão ser mais cerebrais, mais calculistas, mais formais na forma como enfrentarão a crise.

As palavras ditas na ocasião pelo Presidente Obama deveriam soar forte no Mundo. "Nestes momentos entendemos que não existem cores, religiões ou raças, somos todos humanidade e assim deverá ser" (de memória). Apetece-me dizer que todos somos japoneses.

A minha muita admiração pelos Japoneses (sentimento ainda há segundos confirmado em conversa com a Embaixada do Japão aqui em Bangkok) faz-me crer que saberão chorar sem medo, lavar as lágrimas e deitar mãos à obra e reconstruir o país com determinação e lá irão adiando aquela pergunta que se houve em Tóquio muitas vezes: "E para mim?" quando os japoneses se referem aos esforços que sempre fizeram em prol do país.

Entretanto a Tailândia irá em principio decidir hoje uma ajuda de emergência para o Japão no montante de 200 milhões de baht (4,7 milhões de Euros).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Imprevisibilidade

Já por várias vezes que referi que o mais previsível na Tailândia é a imprevisibilidade.

De alguma forma isto é um dos elementos que transforma este país, este povo e esta forma de vida numa caixa de surpresas diária e confere algum interesse àqueles que se dedicam a investigar o que por aqui se passa.

Anteontem e ontem referimos a decisão do CAPO de interditar todo e qualquer movimento não autorizado numa larga zona envolvendo a casa do PM Abhisit.

Pois hoje é anunciado que afinal a "No Go Zone" passa a ser uma "Go Zone" só que manifestações ou o uso de altifalantes na zona está proibido.

Felizes os residentes e comerciantes que se manifestaram contra a medida mas atenção que amanhã poderemos ter uma nova reviravolta no processo já que o navio parece ter demasiados comandantes ao leme e cada um pode ter afinal uma nova ideia sobre o rumo a seguir.

Entretanto no Sul tudo como dantes ou seja lá vão sendo colocadas mais umas bombas, morrendo umas pessoas, continuando o clima de medo entre as populações mas isso são pormenores sem grande significado. Uma vez numa visita a Khon Kaen, no nordeste do país, perguntava às pessoas com quem me encontrei a opinião deles sobre a insurreição no Sul do país e as respostas eram sintomáticas. Isso é lá no Sul (como se de outro país se tratasse) e é entre budistas e muçulmanos! Na realidade sendo um assunto que não faz ganhar votos, e as três províncias do Sul onde há confrontos diários há cerca de 7 anos elegem um número reduzido de deputados, não vale a pena o poder nem mesmo as populações não directamente afectadas preocuparem-se, pelo menos assim pensa quem vive ao Norte dessas três províncias!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mai Pen Rai

Ontem referi que a política de concessões e de cedência às manifestações por parte do governo podia criar precedentes complicados de gerir no futuro da mesma forma que será difícil de gerir o constante aumento do deficit orçamental.

A situação neste momento no que respeita manifestações começa a ser um pouco caricata com o aparecimento diário de grupos a protestarem por isto e aquilo.

O uso de direitos democráticos é um direito mas também um dever a quando começa a haver grupos sem ou com limitada representatividade a interferir com o normal funcionamento da sociedade temos que a democracia anarquiza-se para prejuízo de todos.

Os amarelos do PAD, estão aquartelados desde o dia 25 de Janeiro na zona nobre do sector mais antigo da cidade (Rajadamnoen) e embora sejam menos do que 500 ocupam uma parte significativa do local. Já foram intimidados por ordem judicial a "levantar o acampamento", que não obedeceram, já viram por duas vezes a polícia reduzir o espaço onde têm montadas tendas sendo que após a segunda vez o Major General Chamlong de imediato anunciou que iriam recuperar o "terreno perdido" e assim fizeram.

Um pouco mais acima, na parte Leste da Praça Real onde se encontra a estátua a cavalo do Rei Rama V e está o palácio de Ananta Samakhon, um grupo, também de não mais do que umas escassas centenas, da Assembleia dos Pobres está acampado impedindo o acesso ao Parlamento e ao Zoológico. Ali estão calmos e sossegados mas não se percebe bem o motivo a não ser que requerem que o governo os ajude a enfrentar os problemas financeiros em que se envolveram.

Em redor da Government House acampam sub grupos dos amarelos – a seita religiosa Sancti Asoke (tipo budistas radicais) e a Rede dos Patriotas Tailandeses que pedem a dissolução do governo. Também não são mais do que uma ou duas centenas.

Outro grupo que se manifesta no local é o PMOVE, o People Movement for Just Society, que reclama justiça igual para todos. Parece ser eventualmente uma dissidência dos vermelhos da UDD mas não se consegue bem entender já que pouco mais apresentam do que simples cartazes solicitando justiça.

Agora um grupo de residentes e empresários da zona onde vive o PM Abhisit e que se sente extremamente incomodado com o bloqueamento da zona onde vive (extremamente alargada como referi), manifesta-se solicitando a Abhisit que se mude para a residência oficial e deixe funcionar o comércio e que as pessoas possam chegar a suas casa sem problemas. Posso confirmar que a zona se transformou num "inferno" com a presença maciça de militares, arame farpado e armamento, como se de uma guerra se tratasse e é extremamente incomodativa para quem tenha ou queira deslocar-se na ou para a zona. Há pelo menos dois restaurantes na área que eu gosto de frequentar e nem sei se lá posso ir ou mesmo que consiga convencer os militares que montam as barreiras até lá chegar não me apetece dar-me a esse trabalho nem às demoras que isso acarreta.
Mas o problema não é só Bangkok. Há neste momento manifestações, por isto, por aquilo e por coisas que ainda nem sequer estão no pensamento de ninguém em Phitsanulook, Nakhorn Sawan, Angthong, Ayuthaya e eventualmente outros sítios que não conheço. Interessante que nenhuma destas províncias se situa em zonas tidas por serem vermelhas o que quer dizer ou que estes estão mais espalhados do que se sabe ou que muitos outros estão descontente ou a aproveitar-se das políticas "mai pen rai" do governo.

Mai Pen Rai é uma expressão estremamente típica na Tailândia, que inclusive mereceu ser título de um livro com algum interesse para quem queira entender a cultura base urbana do país, e que significa basicamente "não tem importância" de alguma forma associada com "não faz mal", não há problema" ou outras expressões semelhantes.

Quando se abre a porta nunca se sabe quem vem atrás e entra por ela e é isso que está a acontecer com a permissividade mostrada em Government House do que o descrito acima é um simples sinal.
Entretanto no Sul ontem morreram mais duas pessoas, um chefe de uma aldeia e uma criança de 14 meses, vítimas inocentes de uma situação que parece ser menos importante do que a casa do PM em Bangkok.


Ironias e Contradições

Contradições em tempos eleitorais: Por um lado o partido Democrata do PM Abhisit consegue reunir num jantar de colheita de fundos 750 milhões de baht (19 milhões de euros) atraindo inúmeras pessoas e portanto mostrando a sua popularidade o CAPO (Center for the Administration for the Peace and Order) decidiu fechar as ruas numa muito vasta área em redor da casa de Abhisit a todos os veículos não autorizados.

Entretanto o jantar está já a colocar algumas questões pois é obrigatório que as doações aos partidos superiores a 100.000 sejam declaradas á Comissão Nacional de Eleições e até esta manhã ninguém tinha apresentado nenhuma declaração relativa ao jantar de ontem. Fica a assim a dúvida de nesse jantar estariam 7.500 pessoas e todas sem excepção, incluindo Abhisit pagaram 100.000 baht. Lembremo-nos que em dois casos anteriores de doações ao partido no poder não declaradas, uma de 258 milhões da baht e outra de 68 milhões, os tribunais vieram a dar como não procedente um pedido acusando o partido de violação da lei devido a irregularidades nesses processos que assim foram arquivados.

Abhisit e a sua governação são assim fortemente aplaudidas e saudadas ao ponto de conseguir num jantar aquela grande quantia mas tem de viver como um recluso entrincheirado numa zona de exclusão de vários quilómetros quadrados.

Ironias e contradições em tempos eleitorais.

terça-feira, 8 de março de 2011

El Dorado e Inferno

Ontem referi os sinais de que as eleições se aproximam e ontem mesmo o PM antecipando a reunião semanal do gabinete, decidiu a continuação da distribuição de subsídios à esquerda e á direita.

Para manter artificialmente o preço do gasóleo abaixo dos 30 baht (actualmente é 29.99) o governo gastará até ao final de Abril mais 18 mil milhões de baht. No que respeita o preço, também artificial, para o arroz na produção e assim calar aqueles que se estavam a manifestar em Pitsanuilok, 60 mil milhões de baht. Para aumentar os salários dos deputados 13 mil milhões de baht e para manter a electricidade gratuita para aqueles que gastam abaixo de um limite estabelecido 10 mil milhões. Foram estas as decisões do Conselho de Ministros no que respeita benefícios a distribuir. Um total de 101 mil milhões de baht ou seja qualquer coisa como 2,4 mil milhões de Euros só para calar as bocas de alguns.

Rico país que se pode dar a estes luxos nos tempos que correm mas de alguma forma pouco compatível com algumas palavras de precaução há meses lançadas pelo Ministro das Finanças, aquele que tem a chave do cofre e sabe quanto dinheiro lá existe, sobre os perigos dos deficits orçamentais.

Entretanto estas medidas que o PM vem anunciando de alguma forma são elas próprias propícias a que mais e mais sectores da sociedade se manifestem por isto ou por aquilo pois vão ficando a saber que desse modo conseguem os seus objectivos através do largo saco azul da Government House. Hoje por exemplo a Siam Square, o coração da cidade esteve paralisada porque os vendedores se manifestaram contra as politicas da Universidade de Chulalongkorn, senhoria do local, no que respeita a alocação de espaços

Só o problema do Sul parece continuar a não conseguir uma clara atenção de Bangkok e ontem para além de mais alguns mortos, os militantes muçulmanos fizeram explodir um carro bomba (uma novidade que começa a ser recorrente) bem dentro de um dormitório da polícia deixando bem visíveis os danos provocados.

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Eleições

Tres anos no poder

As eleições parecem aproximar-se a ritmo rápido não só pelos sinais que são dados diariamente pelo PM Abhisit e pelo seu partido mas também pelo cheiro a campanha que já paira no ar.

O presente parlamento termina o seu termo a 23 de Dezembro e desse modo termina também o mandado do PM mas desde há muito que os vários sectores da oposição reclamam eleições. Um dos argumentos contra este governo é de que atingiu o poder sem que o partido dominante tivesse sido o partido mais votado e desse modo o mandado que o povo deu nas últimas eleições não foi para os Democratas governarem. O facto é que o governo saiu de um processo parlamentar e não é inédito no Mundo, na impossibilidade de o partido mais votado formar governo, de ser o segundo partido a assumir essa função sem que isso lhe retire legitimidade.

De igual forma parte dos sectores próximos do governo, os partidos coligados com os Democratas, sentem que novas eleições lhes podem trazer ganhos em número de deputados e consequente poder, vêm de tempo a tempo também a solicitar a convocação de eleições antes do termo parlamentar.

Abhisit por seu lado sente a pressão a que é submetido diariamente por variados sectores da população descontentes com a sua governação e parece claro a todos que a dissolução do parlamento com a consequente convocação de eleições antecipadas está para breve. O crescente custo de vida, dos preços dos bens essenciais com o arroz à cabeça, a falta ou racionamento de alguns como o óleo alimentar e o açúcar, a ineficácia das politicas de apoio aos menos favorecidos, a iniquidade nas políticas sobre a propriedade, etc., têm criado constantes conflitos na sociedade e hoje em dia acontecem diariamente manifestações por todo o país não relacionadas com aspectos de direitos políticos mas com o descontentamento das sociedades com o seu dia a dia e sobrevivência. Neste momento para além de umas quatro manifestações em Bangkok (a única de sentido político é a dos amarelos do PAD) as províncias de Phitsanulok e Nakhon Sawan, no centro do país, estão paralisadas pelos agricultores pedindo medidas que os protejam dos elevados custos.

Os principais partidos iniciaram não só os preparativos mas também a própria campanha e os programas mais recentes do governo nada mais são do que políticas no sentido de ganhar votos nas zonas menos afectam aos partidos no poder.

Os quatro principais partidos que se apresentarão a eleições anunciaram os seus principais objectivos:

O Pheu Thai, o herdeiro das políticas thaksinistas e o maior partido no país actualmente com 189 deputados, anunciou que o seu programa se centrará no retorno das políticas que utilizou no passado com tanto sucesso. Interessante é que as actuais políticas de Abhisit são no seu essencial uma cópia das políticas usadas pelos antecessores do Pheu Thai (embora sem resultado), algumas inclusive com melhorias, e portanto seria interessante se viessem a formar governo de ver como é que o partido thaksinista se iria sair nesse processo.

Os Democratas, do PM Abhisit, actualmente com 173 deputados, dizem ir focar as suas políticas no aumento dos rendimentos das famílias, políticas que aliás o governo começou a lançar, num sinal de pré campanha por volta de Novembro de 2010.

O Bhumjai Thai, o partido que é uma dissidência do anterior partido thaksinista liderada por Nevin Chidchob, actualmente com 32 deputados tem como objectivo duplicar o número de lugares e afirmar-se como a charneira em qualquer coligação. Este partido domina alguns dos mais importantes ministérios, Interior que controla todo o processo regional, local e eleitoral e os do Comércio e Transportes e Comunicações, ambos dotados de generosos orçamentos, que se diz serem desviados para o benefício de projectos directamente ligados com o ganho de votos. A este partido está fundamentalmente destinada a tarefa de arrebatar votos nas praças-fortes do Pheu Thai fortalecendo a possível coligação com os democratas e enfraquecendo a oposição. É sabido contudo que Nevin não tem problemas nenhuns em se encostar ao seu anterior partido se para isso for convidado. O objectivo é claramente manter-se no poder sem ter o peso de estar no comando.


O Chart Thai Pattana de Banharn Silpa-archa, o todo poderoso senhor de Suphan Buri uma província ao Norte de Bangkok, veterano da política e antigo PM, actualmente com 31 deputados é de alguma forma semelhante ao Bhumjai Thai, não só nas sua anterior coligação com os thaksinistas, mas por ser um partido também incontornável na formação de um governo no país e assim quererá manter-se. O tema principal da campanha do velho leão, já com 78 anos, será a reconciliação. Banharn conseguiu ser aliado de uns sem se antagonizar com os outros um pouco ao contrário de Nevin que é visto elo campo do Pheu Thai como um traidor, embora se saiba o pouco valor que isso tem em política.

A campanha está aberta e tudo aponta para que o PM Abhisit possa dissolver o parlamento ainda este mês ou no início de Abril processando-se o acto eleitoral nos finais de Maio inícios de Junho. Com uma pontinha de orgulho pessoal posso dizer que no início de Outubro produzi um "paper" onde traçava o calendário político futuro e todos os acontecimentos até agora vieram mostrar que acertei a 100%. Espero que assim seja também nas eleições pois as datas que acima mencionei são as que estão escritas nesse documento.

Entretanto Abhisit que iniciou de forma clara a sua campanha eleitoral já há semanas vai ter uma dura tarefa pois mesmo em Bangkok, um dos supostos bastiões dos Democratas, tem vindo a ser incomodado cada vez que aparece. Na semana passada foi no mercado de Jatujak, onde foi apupado e perseguido e ontem foi numa conferência na Universidade de Thammasat onde, enquanto falava, da assistência foram levantados cartazes dizendo "só sabes é falar" e "mãos cheias de sangue", referindo-se porventura ao facto de muitos entenderam que o PM acaba por ter um poder limitado aos seus discursos e acusando-o das consequências dos sangrentos acontecimentos de Abril-Maio de 2010.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Moção de Censura


O Pheu Thai (PT), o principal partido no Parlamento, embora na oposição visto o segundo maior partido, os Democratas terem feito uma aliança de governo com outros partidos menores, apresentou uma moção de censura contra o governo do PM Abhisit que irá ser discutida entre 15 e 18 deste mês com a votação agendada para o dia 19.

Os pontos focais da moção serão o uso da violência contra os manifestantes vermelhos no ano passado e a ineficácia de qualquer investigação sobre os incidentes, a execução do programa do governo com incidência em vários casos tidos de corrupção e a ineficácia da política externa do governo que será ilustrada com base no isolamento internacional do país, os confrontos com o vizinho Camboja e a incapacidade para obter o apoio da Malásia para minorar a crescente insurreição no Sul do país.

No que respeita o primeiro caso, o partido promotor da moção, pretenderá mostrar, usando evidências quer em fotografias quer em vídeos, que os incêndios que destruíram a parte principal da zona de Ratchaprasong, incluindo o Central World, são da responsabilidade de forças "acima quer da polícia quer do exército", segundo se lê na proposta.

No que respeita aos casos de corrupção a maioria dos casos que virá á liça estão concentrados nas pastas geridas por membros do partido Bhum Jai Thai, de Nevin Chidchob, o homem que vindo do nada clama agora à viva voz "sou mais rico que Thaksin", mas Abhisit não escapará a esta parte do debate pois um dos casos, o perdão de uma multa de mais de mil milhões em impostos á multinacional americana Philip Morris, envolve o seu círculo próximo.

Outro dos casos que por certo será discutido e que constitui um dos tópicos quentes da actualidade é o subsídio que Abhisit insiste em manter de forma a manter o preço do diesel abaixo dos 30 baht por litro, e que está a custar ao país uns impressionantes 272 milhões de baht por dia (cerca de 6,5 milhões de euros) e que o próprio Ministro das Finanças já declarou ser insustentável. Outro assunto que tocará por perto o PM é o da falta de óleo de palma, essencial em todos os lares, e as dúvidas que estão associadas à compra de milhões de litros autorizados pelo governo que acabaram por não chegar ás prateleiras dos supermercados e não se sabe onde para o dinheiro dispendido.

Contudo e embora o debate prometa ser interessante de seguir não é esperado nada mais do que um ensaio para futuras batalhas eleitorais já que o governo tem por certo assegurado que a coligação se manterá junta na hora de votar e, embora tendo maior número de deputados, o PT não tem o número suficiente para derrubar o governo.

O debate servirá por outro lado para testar a capacidade de Mingkwan Sansuan, ex Ministro da Economia do governo Samak, de poder vir a ser apresentado ao eleitorado como potencial PM se o PT vencer as próximas eleições.

O PT , partido representante do thaksinismo, vive sempre num processo de falta de liderança visto o líder real, Thaksin Shinawatra, não estar presente e para ele é de evitar uma figura forte que de alguma forma possa colocar a sua imagem em perigo e constitua uma "alternativa" ao seu poder. Esta dicotomia – dependência ou independência de Thaksin – tem sido a principal causa das fragilidades do partido. Se por um alado necessita da imagem do ex PM para atrair um largo número de "fiéis" por outro lado não consegue criar uma autonomia e uma forma de apresentar soluções políticas que se distanciem daquele que por certo não é parte da solução dos problemas políticos do país mas sim parte desses mesmos problemas.

Mingkwan será mais um dos "fiéis" a imolar e não parece credível que consiga reunir á sua volta consensos nem parece ter os dotes de liderança necessários para levar o partido à vitória nas próximas eleições. Os partidos thaksinistas têm vencido todas as eleições desde 2001 mas a sua crescente fraqueza, pela ausência de liderança acima explicada, está a pôr em sério risco a vitória no próximo acto eleitoral sabendo-se também como Abhisit e os seus colegas de coligação têm utilizados todos os meios ao seu dispor (nomeadamente o orçamento e o total controlo das administrações regionais e locais) para assegurar a vitória.

Este acto de pré campanha será por certo importante de seguir e poderá mostrar alguma luz sobre direcções futuras.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Verdade

Já passaram 10 meses e ainda continuam as investigações sobre os acontecimentos de Abril/Maio de 2010 nos quais morreram 92 pessoas.

Dois casos envolvendo estrangeiros têm merecido viva e enérgica manifestação de desagrado pelas missões dos respectivos países. As mortes do operador de câmara da Reuters, o japonês Hiroyuki Muramoto no dia 10 de Abril e do jornalista italiano Fábio Polenghi já em Maio continuam envolvidas em mistério da mesma forma que acontece com todos os outros, de nacionalidade tailandesa que pereceram nesses confrontos violentos entre o exército e os manifestantes vermelhos da UDD.

Ontem, Domingo o Departamento de Investigação Especial da Polícia (DSI), veio anunciar que a morte do repórter japonês se deveu a um tiro de AK-47 reafirmando mais que naquele fatídico dia 10 de Abril de 2010 o exército tailandês não utilizou esse tipo de armamento levando a crer que o tiro que o vitimou não partiu de nenhum soldado. Nada mais disse o DSI.

O assunto contudo está a gerar grande polémica que, irá por certo rapidamente desaparecer dos jornais, visto na semana passada o DSI ter anunciado que a bala que vitimou o repórter tinha sido disparada por uma M-16. Após quase onze meses de estudos forenses consegue saber-se o tipo de bala utilizado e em dois dias muda-se esse conhecimento adquirido naquele período. Para isso o DSI recorreu a um oficial do exército reformado que olhando para as fotografias do corpo do repórter concluiu, por certo sem dúvidas, que a bala tinha era proveniente de uma kalashinikov, a famosa AK-47 que por acaso o exército nesse dia tinha deixado nos quartéis.

A isso, segundo o Bangkok Post, não terá sido alheia a visita feita pelo número dois do exército ao DSI que segundo aquele jornal (edição de Domingo) ali se deslocou para reclamar contra as conclusões do DSI.

Contactei a Embaixada do Japão e fui informado da perplexidade em que se encontram visto terem visto, como eu também vi mostrado pela Comissão encarregue de encontrar a verdade sobre os acontecimentos de 2010, um vídeo que mostrava que a bala que atingiu Hiro (assim é o "nickname" do repórter) veio do local onde estavam, a disparar as tropas do regimento numero dois de infantaria. Como se pode ver em muitas fotografias existentes o repórter japonês atingido era sempre visto do lado dos manifestantes vermelhos e no momento que foi atingido, vê-se tal facto claramente no vídeo mostrado pela comissão governamental, estava bem no meio desse lado do confronto.

Se então a bala fatal foi de uma AK-47 e não de uma M-16 e aquelas não pertenciam ao exército (nesse dia) quem estaria no meio dos soldados a disparar ao ponto de matar Hiro? Os tais "homens de preto"? Quem são eles? Se não pertenciam ás hostes do exército como é que estavam com ele confundidos?

Muitas perguntas para tão poucas respostas e ainda falta o caso do Fábio sendo que a Embaixada da Itália e os familiares do jornalista já há muito perderam a paciência e tal como os japoneses iniciaram investigações próprias.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vermelhos e Jacarta

Ao fim de mais de 9 meses em prisão preventiva sete líderes da UDD-vermelha foram ontem libertados sob caução pelo tribunal criminal de Bangkok.

Abhisit felicitou o acto e disse que era um passo positivo no sentido da reconciliação necessária para que o país avance para eleições parlamentares que terão lugar este ano.

A libertação incluiu duas condições: os então presos não podem sair do país e não poderão envolver-se em actividades que incitem à desobediência da ordem ou sublevação, questão um pouco vaga e sujeita a várias interpretações. É contudo crível que os sete membros da UDD possam participar em manifestações do movimento que se conduzam de forma pacífica, como tem acontecido recentemente onde, apesar do número de pessoas que se manifestaram ser bastante grande, não houve nenhum incidente.

A decisão do tribunal deixa contudo uma questão que tem sido hoje arejada na imprensa local quer na de língua tailandesa quer na de língua inglesa. Quais foram as circunstâncias que mudaram para que o tribunal tenha alterado a posição anteriormente assumida, por duas vezes, de despachar negativamente o pedido dos presos para serem libertados sob caução?

Recorde-se que os membros da UDD-vermelha estavam presos desde o dia 19 de Maio de 2010 acusados de actos de terrorismo, embora nunca tenha havido nenhum despacho de pronúncia sobre o caso. Faz-me reviver tempos passados em Portugal quando o "General" Otelo Saraiva de Carvalho, então comandando o COPCON, emitia mandados de captura com acusações relativas aos perigos para a segurança do estado (naquela altura não se falava em terrorismo) e as pessoas eram libertadas, depois de passarem uns tempos na cadeia, sem saberem bem porquê. Sou testemunha real disso mesmo.

O despacho do juiz em Bangkok só refere a decisão favorável ao pedido do advogado dos vermelhos e as condições da libertação e o montante da caução.

Importante agora será observar o seguimento das posições que a UDD irá tomar numa reunião hoje mesmo na capital.

Um dos seus líderes disse já que a programada manifestação do dia 12 de Março deve seguir para a frente, visto haver ainda mais de 100 militantes presos nas mesmas condições dos líderes ontem libertados e que a luta tem de continuar até á libertação de todos.

Entretanto no que respeita o conflito entre a Tailândia e o Camboja realizou-se ontem a reunião prevista em Jacarta, que correu num ambiente de grande respeitabilidade, tendo essa cimeira acordado nos seguintes pontos: os dois países voltarão a sentar-se à mesa das negociações no âmbito da Comissão Junta de Demarcação das Fronteiras mas essa reunião, ainda sem data marcada, terá lugar em Jacarta sob os auspícios e apoiada pelos serviços da diplomacia indonésia; o segundo ponto foi a autorização dada pelo conjunto dos MNE da ASEAN para que a Indonésia envie observadores para ambos os lados da fronteira onde ficarão estacionados e a relatar os desenvolvimentos. De igual modo ainda não foram estabelecidos os termos de referência para essa missão.

Mais uma vez a diplomacia Indonésia funcionou e conseguiu com estas duas decisões acomodar de alguma forma as posições de ambas as partes.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desenvolvimentos do Dia

Alguns desenvolvimentos no conflito fronteiriço com o Camboja.

De acordo com fontes vindas do outro lado da fronteira tanques Vietnamitas e aviões chineses têm estado a "ajudar" o exército Khmer nesta campanha.

As forças armadas do Camboja, agora lideradas por Hun Manet, o "herdeiro" de Hun Sen, são incomparavelmente menores do que as tailandesas. Também o são os dois países quer em população quer em riqueza. Assim não é de estranhar que o Camboja tente recorrer aos "amigos" em momentos difíceis.

O Vietname, inimigo de longa data mas com agendas similares serve na perfeição os interesses de ambos. De um lado já que virar-se para Oeste está complicado o Camboja têm de o fazer para Leste. Do outro lado o Vietname só tem a ganhar aumentando a sua influência sobre o vizinho. Ganha junto do seu povo ao dizer ajudar os irmãos Krom (grupo Khmer que se divide pelos dois países), ganha em estabilidade evitando conflitos na fronteira oeste como tem havido também de tempos a tempos e ganha em ter mais um apoio na região.

Os chineses têm pouco a pouco aumentando a sua influência para o Sul. Primeiro o Laos onde a sua presença é bastante significativa havendo verdadeiras cidades chinesas em desenvolvimento no país, e posteriormente o Camboja país que é visto com redobrado interesse quer pelos chineses quer pelos americanos, de vido á sua posição na região, ao seu potencial de crescimento, aos benefícios que o seu governo vai ando aos investidores estrangeiros e ao petróleo e gás natural na plataforma do golfo da Tailândia.

A ser verdade a existência desses apoios tal mostra a inevitabilidade da internacionalização do conflito.

Ainda do lado do Camboja Hun Sen recusou liminarmente qualquer negociação com o governo de Abhisit se este se fizer representar pelo MNE Kasit sugerindo mesmo nomes como o do Ministro da Defesa, Pravit ou do Ministro da Presidência, Ong-art. Hun Sem tem boa memória e não se esquece dos adjectivos com que era qualificado quando o actual MNE Kasit subia aos palcos do PAD-amarelos e blasfemava contra o líder do país vizinho.

Para finalizar com o Camboja Hun Sem já afirmou que está de acordo com a sugestão tailandesa de requerer o envio de observadores da ASEAN para a zona do conflito.

Do lado tailandês dois temas dominam o dia: a questão em torno do cessar-fogo assinado pelo comandante-chefe da região 2 e Hun Manet e que é qualificado por Kasit como um documento feito para apreciação dos superiores e sem valor imediato. Sobre este mesmo tema o PAD-amarelos já se manifestou afirmando que o acordo viola a Constituição (art. 190). É curioso ouvir o PAD a falar de violar a lei quando neste próprio momento se manifestam há quase 1 mês, bloqueando uma importante via na capital em violação da lei de Segurança Interna em vigor na zona e do requerimento do tribunal emitido na semana passada para que evacuassem os locais que ocupam, isto sem falar da ocupação dos aeroportos em 2008. De igual modo será curioso ouvir se o PM se vai referir a este ponto já que no passado dia 11 o Parlamento aprovou por maioria, uma proposta do Partido democrata de revisão constitucional, que visa exactamente este art. 190. Após a votação Abhisit afirmou para a comunicação social que "agora o caminho estava aberto para um melhor funcionamento da diplomacia" embora seja sabido que para entrar em vigor a referida alteração necessitar de uma lei orgânica que nunca estará em vigor antes de largos meses de trabalho.


O outro tema é o facto de saber-se se foram ou não utilizadas bombas de fragmentação, munições proibidas por convenções internacionais das quais a Tailândia é signatário, durante os recentes conflitos. Ontem o Bangkok Post trazia um artigo com o título "Quem é tailandês quem é cambojano?", num trabalho tendente a mostrar que no fim de contas quem sofre são as populações das zonas fronteiriças, onde o articulista mostra evidências da utilização das referidas bombas o que tem sido, até agora, repetidamente desmentido pelo governo tailandês.


Fotografia no Bangkok Post

Há que esperar e ver se há alguma reacção de Abhisit, calado até ao momento.

Reunião de Jacarta

Amanhã é um grande dia para a ASEAN.

Devido à liderança da presidência Indonésia a ASEAN conseguiu dar um passo em frente na integração do bloco regional com a convocação para amanhã 22 de Fevereiro, da reunião extraordinária dos Ministros dos Estrangeiros para debater o conflito de fronteira entre a Tailândia e o Camboja.

Já várias vezes referi Marty Natalegwa, o MNE indonésio, e a sua experiência diplomática têm sido um factor determinante não só neste conflito mas fundamentalmente na construção do modelo assumido pelos estados membros na Constituição de 2008.

Ainda não muitos anos atrás eram outros países da região a terem uma intervenção nos assuntos na Indonésia. Lembre-se as forças tailandesas, filipinas e de Singapura enviadas para Timor-Leste e as missões cumpridas em Aceh na sequência da paz alcançada sob os auspícios da União Europeia numa missão liderada por Mahti Ahtisaari. Nessa altura as intervenções ocorreram a pedido quer da ONU quer da EU mas não aconteceram no âmbito da ASEAN.

A entrada em vigor em Dezembro de 2008 da Constituição da ASEAN marcou definitivamente a associação regional mas faltava, apesar da qualidade do secretário-geral Dr. Surin Pitswan, uma liderança na sua presidência capaz de dar os passos necessários para se atingirem os objectivos bastante ambiciosos ali estabelecidos.

Em 2009 a presidência foi exercida pela Tailândia mas todos nos lembramos da impossibilidade que o governo teve de conseguir ultrapassar pacificamente esse ano e contribuir para o avanço da associação. Uma cimeira cancelada, outra realizada sob forte escoltas militares e sem a presença de quase 50% dos líderes, e uma cimeira da EAS, o mais que provável futuro da arquitectura regional para a região da ásia-pacífico, sem brilho e feita á pressa com medo dos problemas que afectaram outras cimeiras. A presidência tailandesa conseguiu contudo lançar a primeira pedra daquilo que será a comissão dos direitos humanos regional, ainda que, devido aos problemas na Birmânia e ao pouco interesse manifestado por países como o Camboja, Laos, Singapura e Vietname, a Comissão Intergovernamental sob os Direitos Humanos ainda quase que não passou de uma declaração de intenções feita em Outubro de 2009 na cimeira de Hua Hin-Cha Am.

Em 2010 a presidência do Vietname passou-se como o país a quis ou seja contando rapidamente os dias até ao seu termo e sem avanços que se possam considerar significativos para avançar com os objectivos estabelecidos para 2015 de criar vários pilares comuns dentro da ASEAN.

Depois da Indonésia iremos ter as presidências do Camboja, Brunei e Birmânia e, segundo me dizia um professor de Chulalongkorn outro dia, há que fazer todos os esforços para que o impulso que a Indonésia está a dar não se esfume nas próximas presidências.

A reunião de amanhã em Jacarta será uma oportunidade única para os 10 países mostrarem que querem uma ASEAN forte e capaz de ser o pivot na EAS criando as condições para que a associação possa ter um papel crucial na construção de uma ASEAN de 10, coesa e unitária, e não uma ASEAN de países que não conseguem atingir os desígnios que os próprios se obrigam ao assinar tratados e convenções conjuntamente.

O conflito entre a Tailândia e o Camboja é um conflito, se bem que historicamente entendível, "impossível" à luz do direito internacional. Recorde-se que os dois países são signatários do Tratado de Amizade e Cooperação onde, entre outros aspectos, os signatários se comprometem a renunciar a qualquer acto de agressão mútuo.

Entretanto na frente diplomática e militar entre a Tailândia e o Camboja alguns desenvolvimentos durante o fim-de-semana. Os militares dos dois países sentaram-se á mesa e acordaram um cessar-fogo que o PM Abhisit teve logo que vir a terreiro afirmar não ser um acordo formal visto o PAD-amarelo ter acusado o PM de ter autorizado a perca de território para os cambojanos com aquele acordo. Entretanto o MNE tailandês teve um primeiro passo diplomático positivo nesta guerra de comunicação. Mantendo sempre a sua posição de querer resolver o assunto pela via bilateral, como já expliquei aquela que garante à Tailândia que não haja nenhuma decisão baseada no direito internacional que sempre perderá, afirmou que iria defender na reunião de Jacarta que a ASEAN enviasse observadores para apreciar a situação na fronteira. O Camboja, que não tem o problema tailandês de haver demasiadas vozes a falar (PM, MNE, Ministro da Defesa, Comandantes militares, PAD, etc.), visto que só uma voz é autorizada, a de Hun Sen, tem sempre insistido na presença de observadores da ONU tentando escalar o problema para um terreno que lhe pode ser mais vantajoso.

A Tailândia ao aceitar a mediação da ASEAN, embora mantendo que a reunião de amanhã é bilateral "com o apoio" da ASEAN, tenta trazer o conflito para um patamar mais próximo e menos internacionalizado o que lhe dará vantagens e poderá sempre contar com a Indonésia e com o secretariado, que querem aproveitar a situação para se afirmar ainda mais como os motores do agrupamento regional.

Muito está em jogo amanhã mas o grande arquipélago muçulmano, ainda não há muito com todos os problemas políticos e económicos conhecidos é hoje reconhecido como um exemplo de estabilidade e democratização no Mundo, vai ganhando neste tabuleiro diplomático.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Quem quer a Guerra?

Afinal que é o interessado na presente contenda entre a Tailândia e o Camboja?

O Ministro da Defesa tailandês, o General na reserva Pravit Wongsuwn, anunciou que já acordou encontrar-se com o seu congénere Cambojano para "negociar uma paz duradoura".

O número três do governo de Abhisit e encarregado dos assuntos económicos, Vice-primeiro-ministro Doutor Trairong Suwankiri, encontra-se hoje em Phnom Penh para participar na abertura de uma exposição comercial tailandesa e encontrou-se com o primeiro-ministro Hun Sen.

Entretanto os dois MNE vão trocando acusações sobre quem iniciou as escaramuças ontem pela manhã e enchem as páginas dos jornais que também continuam a "contar espingardas" de um e de outro lado da fronteira.

Os que fazem a guerra querem a paz e aqueles que deveriam promover a paz, através de um instrumento tão valioso como a diplomacia, querem a guerra, parece ser esta a conclusão simples da actuação dos agentes no terreno.

Parte da comunicação social também não ajuda muito. Por um lado o Matichon, o jornal de língua tailandesa de maior tiragem, trazia um longo artigo relatando as duas vezes que, no passado recente, a Tailândia se envolveu em confrontos com vizinhos, 1940-41 com a Indochina francesa e 1987-88 com o Laos, afirmando que o país não tirou nenhum proveito dessas ocasiões e isso deveria servir de lição para o presente. Continua apelando a que os dois países ultrapassem "estes pequenos problemas" e olhem para os interesses comuns dos povos e dos países.

No pólo oposto Sutichai Yoon, do Krungthep Turakij e do The Nation, sempre radical, comentando uma declaração de Hun Sen que afirmava querer promover a paz e o bem estar entre os dois países, dizia que "este antigo Khmer Vermelho (Hun Sen) nunca é fiel à sua palavra e deveria deixar de se portar como uma criança atirando pedras para se divertir com o vizinho.

Não é normal ler nos jornais cambojanos ataques pessoais a Abhisit ou qualquer membro do governo, incluindo o MNE Kasit, ao contrário do que se passa deste lado da fronteira, embora os cambojanos sejam igualmente nacionalistas e determinados (outro dia um deslocado do lado cambojano dizia não se importar de perder território para a China mas lutaria até à morte contra a Tailândia e o Vietname se houvesse alguma tentação destes dois países em invadir o Camboja).


Um dos problemas existente nesta contenda é a pressão exercida diariamente sobre o governo de Abhisit não só pelos amarelos que se manifestam há já três semanas bloqueando uma larga zona no sector antigo, real e governamental de Bangkok, onde por exemplo se situa o quartel general do exército, mas também pela máquina bastante forte de meios de comunicação social (jornais e televisão) que têm ao seu dispor e que, ao contrário dos pertencentes aos vermelhos, nunca foram fechados nem tiveram o sinal foi cortado. Ontem a Polícia fez um raid ao local e apreendeu várias armas que se encontravam no acampamento amarelo mas "não conseguiu" identificar o(s) proprietário(s).

Outro problema e que é repetidamente chamado á liça é o facto de quer Kasit quer mesmo Abhisit, o primeiro enquanto militante do PAD-amarelo e o segundo enquanto líder da oposição, terem sido extremamente violentos em ataques pessoais contra o PM cambojano Hun Sen. Como usamos dizer, cá se fazem cá se pagam!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Vencedor


A agendada reunião do Conselho de Segurança, reunido para discutir o conflito que envolve a Tailândia e o Camboja, aconteceu na noite de Segunda-feira em Nova York mas pouco produziu.

Como num jogo de futebol todos ganharam.

A Tailândia porque conseguiu que o CS não se envolvesse demasiado a ponto de enviar uma força de "peacekeepers"que ocupassem a área em disputa e afastassem os dois exércitos, como era solicitada pelo Camboja.

O Camboja ganhou porque conseguiu, finalmente, que o CS discutisse o assunto e também porque a recomendação saída da reunião aponta para uma mediação de terceiros, a presidência da ASEAN, aliás perto de uma possível interpretação do artigo 23 da Constituição da Associação.

A Indonésia, envolvida enquanto Presidente em exercício da ASEAN, também ganhou porque vê aumentar a sua já reconhecida capacidade para liderar na região. O MNE Marty Natalengwa aparece neste momento como uma pedra fundamental e quando convocou para o próximo dia 22 uma reunião extraordinária dos seus colegas da ASEAN, com o objectivo de discutir o conflito entre os dois membros, marcou definitivamente o ritmo ao qual os factos deverão acontecer e posicionou a associação num patamar superior ao que sempre nos habituou.

Para mim o único vencedor neste momento é a ASEAN pois cria-se um precedente com a reunião do dia 22. A ASEAN segue, bem ao contrário da União Europeia, o principio de total não interferência nos assuntos internos de um país. É raro ver a ASEAN ou o seu secretariado saírem em ajuda de qualquer assunto interno num estado membro com medo de tal passo poder ser mal interpretado do ponto de vista político. O actual secretário-geral, Dr. Surin Pitsuwan, um ex MNE tailandês de grande prestígio, tem vindo a tentar elevar quer a capacidade de acção quer de intervenção do seu "escritório" mas tudo tem sido feito com pinças de penas devido às sensibilidades entre os estados membros.

Pode afirmar-se que a primeira vitória obtida foi quando foi possível a ASEAN ter um papel determinante na ajuda humanitária após o ciclone Nargis na Birmânia e o actual momento pode considerar-se o segundo passo do fortalecimento da imagem do secretariado tão bem apoiado pelo MNE Marty.

Quem por certo perdeu naquele encontro de Nova Iorque foram a Tailândia e o Camboja pois pouco passavam 5 horas sobre o comunicado final onde era dito ás partes que o primeiro passo era o estabelecimento de um cessar-fogo, para eclodirem de novo escaramuças na fronteira causando vários feridos em ambos os lados.

O facto de o CS não ter emitido mais do que uma recomendação não faz das partes violadoras dos princípios da carta das Nações Unidas mas diz bastante das "boas" intenções dos negociadores e/ou da sua capacidade de transmitir às forças no local os seus desígnios.

Os jornais de ambos os países, com relevo para os tailandeses (já que os cambojanos não necessitaram tanto de propaganda interna), dedicam grande parte dos seus escritos a enaltecer a "vitória" do governo Abhisit e a requerer que os cambojanos regressem à mesa das negociações. Lembre-se que estes sempre disseram Não pois acusam o sistema legal tailandês de ineficiente, e as reuniões de inúteis, já que as minutas das reuniões de 2008 (!) ainda estão por aprovar travando todo e qualquer progresso. De um lado os tailandeses pretendem continuar neste jogo arrastando a questão mas alegando que se está a negociar e portanto nada mais deve ser feito, enquanto os cambojanos recusam visto quererem avançar com o processo do templo junto da UNESCO e dizem não poder esperar pela burocracia tailandesa.

Veremos agora o resultado da reunião dos MNE da ASEAN a 22 de Fevereiro mas o certo é que esta é já por si uma vitória da associação, da sua Presidência e do seu secretariado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Magia Negra?

No último dia falei da magia negra Khmer e do respeito que tal facto induz aos tailandeses.

Nós também dizemos não acreditar em bruxas mas lá vamos afirmando que "las há, las há". Os tailandeses mesmo os menos devotos a estas causas têm o seu quê de "respeito" pelas premonições e realizam-se vários rituais no sentido de afastar as pragas lançadas do outro lado da fronteira.

Anteontem o Daily News afirmava, em mais uma tirada de nacionalismo e comentando um "incidente" ocorrido com caças F16 que "por engano", segundo o porta-voz da Força Aérea, sobrevoaram a zona de conflito na fronteira, que "era necessário mostrar aos cambojanos a capacidade da nossa aviação, com os F16, de modo a que eles acabassem com as provocações" contra a Tailândia.

Esses aviões estão neste momento a ser utilizados nos exercícios conjuntos que estão a decorrer, Cobra Gold 2011, com as forças americanas (depois de similares exercícios efectuados no Camboja) e ou por força da magia ou por azar, dois desses aviões colidiram esta manhã em pleno voo sobre a província de Chayaphum no centro nordeste do país.

Felizmente que o acidente não causou nem vítimas nos pilotos, que se ejectaram, nem em pessoas no solo, visto ter sido numa zona de floresta não habitada, mas já há quem fale que tudo não é mais do que resultado das pragas lançadas pelos Khmer sobre o povo tailandês.

Foi aberto um inquérito mas o que mais intriga os peritos da Força Aérea é o facto de parecer pouco crível que os dois aviões tivessem colidido no ar, pois caso assim fosse seria quase impossível os pilotos ejectarem-se, ficando então a questão sobre o que terá feito com que dois aviões tivessem caído ao mesmo tempo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Deuses devem estar loucos

Ontem ao ver o desenvolvimento das questöes relacionadas com a contenda fronteiriça entre o Camboja e a Tailândia lembrei-me do filme Sul-Africano de 1980 "Os Deuses devem estar loucos" não por causa da bela história que aí se conta mas pelo seu titulo.

Na realidade parece que alguém está enloquecendo e quem sofre são as populaçöes da fronteira. Ontem mesmo em conversa com um amigo que vive em Kataralak, o principal conselho na zona de confrontos no lado tailandês, este relatava-me o descontentamento das populaçōes com a situação.

Na Quinta-feira, e na sequência das diligências indonésias, foi tomada a decisāo do Conselho de Segurança da ONU de agendar para o próximo dia 14 uma reunião daquele orgão para o qual foram convidados os dois países. Pareceria que as partes em disputa se iriam concentrar nesse ponto como o próximo passo mas parece que não.

O General Prauyth Chan-ocha, comandante supremo do exército tailandês ordenou o envio para a zone da fronteira de mais 20.000 homens. Entretanto o comandante da região militar 2, a que comada as tropas estacionadas junto da fronteira, encomendou amuletos para distribuir aos soldados "para se protegerem da magia negra Khmer".

Há uma crença de que os povos Khmer são muito poderosos com os seus apelos aos deuses (uso propositadamente minúscula) e que o que está acontecer à Tailândia deve-se aos actos de magia negra feitos pela mulher de Hun Sen, o líder cambojano, no templo de Phrae Vhiearn há pouch mais de 2 anos. Falando do templo há dois factos mais a ajudar à minha observação inicial. O nome de código da operação militar é "Phrae Vhiearn battlefield", muito apropriado para desanuviar tensōes.

O outro é ainda mais louco: o líder amarelo Sondhi L. disse no estrado montado na manifestação que prossegue em Makawan, na Quinta à noite, que a Tailândia tem um líder fraco , referindo-se a Abhisit, e o que o país devia fazer era invadir o Camboja conquistar o templo de Angkor e a Ilha de Kut e só depois entrar em negociaçōes pois assim os cambojanos teriam de "devolver" Phrae Vhiaern visto ficarem numa posição de fraqueza! Muito educativo.

Parece-me que quem está louco não são os Deuses!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mediação

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia mostrou a sua habilidade diplomática e, em coordenação com a presidência do Conselho de Segurança, conseguiu organizar uma reunião conjunta dos ministros dos estrangeiros tailandês e cambojano em Nova York sob os auspícios do Conselho de Segurança e com o apoio da presidência da ASEAN, como vem referido no comunicado. A reunião terá lugar no próximo dia 14, Dia de São Valentim padroeiro e promotor na longínqua Roma dos casamentos, o que pode ser bom prenúncio.

Abhisit vinha reclamando sempre que o conflito deveria ser resolvido através de consultas e discussões bilaterais mas o formato conseguido assegura que não seja totalmente posta de parte essa vontade de não internacionalizar o conflito com a sua internacionalização na prática.

O governo de Abhisit quer a todo o custo evitar que o assunto lhe escape das mãos e venha a haver nova decisão, como a do Tribunal Internacional de 1962, sabendo ele que quer os documentos, quer a prática quer o próprio direito internacional não lhe são favoráveis.

O Doutor Marty Natalengwa conseguiu mais uma vez mostrar a utilidade da ASEAN e a capacidade da liderança Indonésia para a região. Hoje num almoço com um jornalista tido por ser o maior especialista em assuntos referentes com a ASEAN ele falava-me disso mas alertava para o facto de que após a presidência da Indonésia nada de bom se avista para a associação com as três presidências que estão alinhadas: Camboja, Brunei e Birmânia. Também outro dia um dos mais proeminentes professores de Chulalongkorn dizia-me mais ao menos o mesmo quando referia o quanto gostaria de ter a Indonésia por 4 anos à frente da ASEAN. Marty é casado com uma senhora tailandesa e passa muito do seu tempo aqui pelo que conhece muito do país sem que isso lhe retire a legitimidade e a independência para actuar.

Entretanto do lado amarelo PAD vieram algumas novidades. A anunciada grande marcha para um "local importante" pode não vir a realizar-se já que o número de manifestantes é extremamente reduzido não ultrapassando segundo muitas fontes os 300, embora tenham montado um grande acampamento em Rajadamnoen bloqueando uma boa parte da avenida e das zonas circundantes. No Domingo à noite passei por lá e nem luz se via. Só se viam as grades que instalaram a rodear toda a zona ocupada.

Outra notícia que se espalhou hoje, e nada espanta, foi que Sondhi L., o mediático líder amarelo, se encontrou com Thaksin no Kuwait. Recorde-se que estes inimigos figadais (?) foram durante muitos anos parceiros de negócios e só quando Thaksin, aliás como fez com quase todos os que o rodeavam, passou a tratar todos como seus empregados e apoderou-se das rédeas de todos os negócios que com eles partilhava, se separaram e antagonizaram.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Conflito na Fronteira

A situação no terreno acalmou e ambas as partes estão envolvidas neste momento numa outra frente, a diplomática.

Depois da queixa apresentada pelo Camboja junto do Conselho de Segurança o governo da Tailândia respondeu na mesma moeda enviando uma carta para a presidente do CS expondo os argumentos do lado tailandês, que obviamente são contrários aos do Camboja. A Brasileira Maria Luísa Ribeiro Viotti, que preside ao CS, já informou todos os membros e o assunto estava para ser discutido na reunião normal no ponto "outros assuntos" mas sabe-se que, pelo menos um dos membros requereu que o assunto fosse discutido numa reunião expressamente convocada para o efeito. A presidente do CS entretanto falou também com o Embaixador Marty da Indonésia, ele próprio o ex Embaixador do país junto das Nações Unidas, no sentido de solicitar a sua ajuda como presidente em exercício da ASEAN.

Entretanto os dois ministérios dos Estrangeiros avançaram numa campanha, iniciada por Phnom Penh, convidando os diplomatas a visitar os campos de desalojados e a observar os danos causados, pela outra parte, de forma a sensibilizar esta comunidade dos actos de "agressão" perpetrados pelo inimigo.

O Ministro Indonésio dos Negócios Estrangeiros Marty prossegue a sua viagem aos dois países, hoje em Bangkok, no sentido de obter alguma solução para a contenda. Mostrando o interesse que a região tem para si, e de alguma forma uma inovação na condução na política externa, a Republica Popular da China emitiu ontem um comunicado onde diz serem ambos os países "vizinhos amigos da China" e esperando que as partes se contenham e encontrem uma solução para os seus problemas comuns.
A Tailândia tem sido bastante clara em sempre rejeitar qualquer tipo de mediação ou internacionalização do conflito porventura tendo a consciência de que a forma como no passado defenderam a questão não lhes foi favorável e criou precedentes de direito internacional adversos. Em 1962 quando o Tribunal Internacional de Justiça decidiu a titularidade do templo para o Camboja a Tailândia em vez de interpor recurso simplesmente criticou o Camboja e a decisão do tribunal, alegando a discutibilidade dos documentos usados para suportar a sentença. Nessa altura a reacção tailandesa e do seu primeiro Ministro Sarit Thanarat, que chegou ao poder em 1957 através de um golpe de estado, foi violenta ao ponto de ter tido o Rei Rama IX (actual monarca) de intervir, falado e explicando que o país deveria obedecer à sentença do tribunal.

Enquanto o governo tailandês se empenha na luta diplomática porventura na tentativa de encontrar forma de terminar com um conflito que a ninguém serve o exército desta vez é muito menos cooperativo. O seu porta-voz, o Coronel Sansern ontem de manha veio dizer que não havia mais conversas com a parte cambojana para à noite ter sido ainda menos diplomático e infeliz dizendo que "estamos preocupados de que nos acusem de estarmos a abusar de um vizinho menor" (referindo-se à inferior capacidade militar), palavras que foram muito mal recebidas mesmo nos círculos governamentais.

Entretanto os amarelos do PAD e dos Patriotas preparam a "marcha para uma importante posição" que terá lugar no dia 11. O facto de não se saber onde é tal lugar faz correr as mais variadas especulações, inclusive que pode ser na fronteira para tornar a situação ainda mais tensa, mas já fez com que o governo decidisse hoje declarar que seja aplicado o artigo 2º do Internal Security Act, facto que permitirá uma mais fácil actuação dos militares.

Há quem especule que tudo isto não passa de uma escalada da tensão para mostrar a necessidade de uma intervenção militar "já que o governo é incapaz de manter a ordem".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Correcção

No anterior comentário sobre a situação referi que haveria centenas de desalojados contudo o número é de muito maiores proporções.

Do lado tailandês estavam pelas 14:00 locais colocados em 38 campos temporários de acolhimento 15.638 pessoas do distrito de Kantharalak, província de Si Sa Ket, informação obtida junto da sede do município.

Do lado do Camboja não se conhecem dados oficiais mas sabe-se que foram evacuados todos aqueles que vivem perto da fronteira e o aceso à zona onde o conflito se mantém está totalmente cortado só podendo aí transitarem forças militares.

Entretanto o mais importante posto fronteiriço, Aranyaprathet - Paoy Phet está encerrado. É por esta fronteira que diariamente passam a grande maioria de pessoas e bens que abastecem os dois países o que já está a causar transtorno naqueles que vivem dessa relação comercial e nas populações em geral.

Entretanto o foco do lado da Tailândia virou-se um pouco mais para o lado político depois dos muitos apelos internacionais à restrição no uso dos meios militares e às tentativas de mediação, e está agora concentrado sobre a queixa apresentada pelo Camboja no Conselho de Segurança.

Espera-se que assim continue e ambas as partes entendam que nada há a ganharem numa guerra completamente despropositada e só iniciada por pressóes da política interna.

Conflito na Fronteira

Depois do cessar-fogo acordado no final do Sábado as tropas dos dois países voltaram a trocar tiros no Domingo ao fim do dia e hoje, Segunda-feira desde as 4 da madrugada.

Ambas as partes acusam a outra de ter dado início às hostilidades e na verdade parece terem sido os cambojanos os primeiros a disparar num acto de retaliação contra a intrusão das tropas tailandesas que tentaram obstruir com tanques e outro material pesado, os trabalhos de construção, pelos cambojanos, de uma estrada, junto do Templo de Phrae Vihearn, na área tida pela Tailândia como "em disputa" e pelo Camboja como "parte do território khmer".

O cessar-fogo parece ter sido uma encenação de uma cena de uma novela que tem um argumento muito complexo.

Em Junho de 2008 o movimento amarelo do PAD aproveitou-se do acordo assinado pelos dois países para propor à UNESCO a candidatura do templo da discórdia para iniciar uma campanha nacionalista que lhes desse algum fôlego na luta contra o governo de Samak Sundaravej. Até então estava em normal funcionamento o Joint Border Commission, instrumento saído do Acordo assinado por ambos os países em 2000 e que é a plataforma necessária para discutir as questões relacionadas com a demarcação de fronteiras.

Há 702 km de fronteira entre os dois países que estão precariamente demarcados e ambas as partes usam diferentes mapas. Note-se que alguns dos mapas datam dos tempos coloniais franceses e foram mesmo assinados pelos siameses em contextos de salvaguarda da soberania e no intuito de evitar incursões quer francesas no que respeita à fronteira leste quer inglesas no que respeita as fronteiriças sul e oeste.

Esta fraca demarcação é uma realidade com a qual os dois países têm vivido e o mais importante é que as populações das zonas fronteiriças vivem em plena comunhão e essencialmente do comércio comum que sempre se estabelece nestes casos. As fronteiras são por vezes tão pouco claras que me lembro um dia de ter atravessado do Laos para o Camboja, na província de Champasak onde a fronteira é simplesmente uma barreira numa estrada rudimentar. Passar a linha que supostamente divide os dois países 50 metros para a direita ou para a esquerda é completamente possível e acontece mesmo sem disso se ter a consciência. Assim são muitas das zonas adjacentes ao templo acrescendo a isso o facto de cada país usar um mapa diferente onde se puxa ou empurra a linha imaginária da fronteira de acordo com os interesses do momento.

Os assuntos de política interna e a necessidade de satisfazer clientelas, fundamentalmente nas duas capitais acaba por acirrar os humores e os resultados estão à vista.

Há neste momento material de artilharia pesado frente a frente e os 4,6 km2 na zona adjacente ao templo e que pertence a ambos os países de acordo com interpretação individual que agora fazem (note-se que o JBC reconhece tal pedaço de terreno como "território em disputa") e este facto por si só faz com que disparos ocorram apesar do "declarado" cessar-fogo.

Para além dessas escaramuças militares também civis de ambos os países têm sido alvos do fogo e largas centenas tiveram de ser evacuados do local depois das suas vilas terem sido fortemente atingidas por morteirada contrária.

Tem também havido intervenção da aviação mas pelo momento tal tem sido somente como apoio às operações no terreno.

Os números de mortos e feridos de cada um dos lados não é claro mas deve contar-se ainda com um dígito embora no Sábado, instigado por um comentário de um dos mais próximos colaboradores da Abhisit, um jornal tailandês tivesse colocado em primeira página que teriam sido mortos 60 cambojanos, facto que nenhum outro jornal, nem deste nem do outro lado relatou ou confirmou.

Esta manha o porta-voz do exército tailandês mostrou o endurecimento da posição ao afirmar que tinha terminado o tempo para negociações.

Quer o secretariado-geral da ASEAN, quer a presidência Indonésia quer Singapura já vieram apelar à contenção a disponibilizar-se para mediar a disputa oferta de imediato recusada por Abhisit.

Entretanto o Camboja já enviou o caso para o Conselho de Segurança na ONU acusando a Tailândia de agressão e de ter causados danos no templo de Pharae Vihaern, facto que levou o Ministro Kasit a convocar todos os Embaixadores da ASEAN (excepto Camboja) mais os dos países membros do Conselho de Segurança para lhes descrever a posição tailandesa.

Hoje mesmo o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, Marty Natalagwa, um diplomata de grande prestígio, vai a Phnom Penh e Bangkok e por certo irá discutir com os dois governos a actual tensão.

Um detalhe não muito mencionado mas que de alguma forma cria atritos na dissuasão do problema é o facto do Parlamento tailandês ainda não ter aprovado as minutas da última reunião da JBC, que ocorreu há 18 meses, e desse modo inviabiliza a continuação dos trabalhos. De acordo com a presente constituição, artigo 190, todas as decisões em acordos de qualquer tipo em questões bi ou multi laterais têm obrigatoriamente de ser aprovadas previamente pelo Parlamento. Note-se, a título de exemplo, que a agenda de uma reunião de alto nível entre a Tailândia e um outro país tem de obter prévia aprovação parlamentar para poder prosseguir. De outro modo só se pode realizar mas não poderá haver nenhuma decisão ou acordo. Tal artigo, que eventualmente poderá ser emendado na alteração ao texto constitucional presentemente em discussão, tem sido um forte entrave à política externa tailandesa.