sexta-feira, 4 de março de 2011

Moção de Censura


O Pheu Thai (PT), o principal partido no Parlamento, embora na oposição visto o segundo maior partido, os Democratas terem feito uma aliança de governo com outros partidos menores, apresentou uma moção de censura contra o governo do PM Abhisit que irá ser discutida entre 15 e 18 deste mês com a votação agendada para o dia 19.

Os pontos focais da moção serão o uso da violência contra os manifestantes vermelhos no ano passado e a ineficácia de qualquer investigação sobre os incidentes, a execução do programa do governo com incidência em vários casos tidos de corrupção e a ineficácia da política externa do governo que será ilustrada com base no isolamento internacional do país, os confrontos com o vizinho Camboja e a incapacidade para obter o apoio da Malásia para minorar a crescente insurreição no Sul do país.

No que respeita o primeiro caso, o partido promotor da moção, pretenderá mostrar, usando evidências quer em fotografias quer em vídeos, que os incêndios que destruíram a parte principal da zona de Ratchaprasong, incluindo o Central World, são da responsabilidade de forças "acima quer da polícia quer do exército", segundo se lê na proposta.

No que respeita aos casos de corrupção a maioria dos casos que virá á liça estão concentrados nas pastas geridas por membros do partido Bhum Jai Thai, de Nevin Chidchob, o homem que vindo do nada clama agora à viva voz "sou mais rico que Thaksin", mas Abhisit não escapará a esta parte do debate pois um dos casos, o perdão de uma multa de mais de mil milhões em impostos á multinacional americana Philip Morris, envolve o seu círculo próximo.

Outro dos casos que por certo será discutido e que constitui um dos tópicos quentes da actualidade é o subsídio que Abhisit insiste em manter de forma a manter o preço do diesel abaixo dos 30 baht por litro, e que está a custar ao país uns impressionantes 272 milhões de baht por dia (cerca de 6,5 milhões de euros) e que o próprio Ministro das Finanças já declarou ser insustentável. Outro assunto que tocará por perto o PM é o da falta de óleo de palma, essencial em todos os lares, e as dúvidas que estão associadas à compra de milhões de litros autorizados pelo governo que acabaram por não chegar ás prateleiras dos supermercados e não se sabe onde para o dinheiro dispendido.

Contudo e embora o debate prometa ser interessante de seguir não é esperado nada mais do que um ensaio para futuras batalhas eleitorais já que o governo tem por certo assegurado que a coligação se manterá junta na hora de votar e, embora tendo maior número de deputados, o PT não tem o número suficiente para derrubar o governo.

O debate servirá por outro lado para testar a capacidade de Mingkwan Sansuan, ex Ministro da Economia do governo Samak, de poder vir a ser apresentado ao eleitorado como potencial PM se o PT vencer as próximas eleições.

O PT , partido representante do thaksinismo, vive sempre num processo de falta de liderança visto o líder real, Thaksin Shinawatra, não estar presente e para ele é de evitar uma figura forte que de alguma forma possa colocar a sua imagem em perigo e constitua uma "alternativa" ao seu poder. Esta dicotomia – dependência ou independência de Thaksin – tem sido a principal causa das fragilidades do partido. Se por um alado necessita da imagem do ex PM para atrair um largo número de "fiéis" por outro lado não consegue criar uma autonomia e uma forma de apresentar soluções políticas que se distanciem daquele que por certo não é parte da solução dos problemas políticos do país mas sim parte desses mesmos problemas.

Mingkwan será mais um dos "fiéis" a imolar e não parece credível que consiga reunir á sua volta consensos nem parece ter os dotes de liderança necessários para levar o partido à vitória nas próximas eleições. Os partidos thaksinistas têm vencido todas as eleições desde 2001 mas a sua crescente fraqueza, pela ausência de liderança acima explicada, está a pôr em sério risco a vitória no próximo acto eleitoral sabendo-se também como Abhisit e os seus colegas de coligação têm utilizados todos os meios ao seu dispor (nomeadamente o orçamento e o total controlo das administrações regionais e locais) para assegurar a vitória.

Este acto de pré campanha será por certo importante de seguir e poderá mostrar alguma luz sobre direcções futuras.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Verdade

Já passaram 10 meses e ainda continuam as investigações sobre os acontecimentos de Abril/Maio de 2010 nos quais morreram 92 pessoas.

Dois casos envolvendo estrangeiros têm merecido viva e enérgica manifestação de desagrado pelas missões dos respectivos países. As mortes do operador de câmara da Reuters, o japonês Hiroyuki Muramoto no dia 10 de Abril e do jornalista italiano Fábio Polenghi já em Maio continuam envolvidas em mistério da mesma forma que acontece com todos os outros, de nacionalidade tailandesa que pereceram nesses confrontos violentos entre o exército e os manifestantes vermelhos da UDD.

Ontem, Domingo o Departamento de Investigação Especial da Polícia (DSI), veio anunciar que a morte do repórter japonês se deveu a um tiro de AK-47 reafirmando mais que naquele fatídico dia 10 de Abril de 2010 o exército tailandês não utilizou esse tipo de armamento levando a crer que o tiro que o vitimou não partiu de nenhum soldado. Nada mais disse o DSI.

O assunto contudo está a gerar grande polémica que, irá por certo rapidamente desaparecer dos jornais, visto na semana passada o DSI ter anunciado que a bala que vitimou o repórter tinha sido disparada por uma M-16. Após quase onze meses de estudos forenses consegue saber-se o tipo de bala utilizado e em dois dias muda-se esse conhecimento adquirido naquele período. Para isso o DSI recorreu a um oficial do exército reformado que olhando para as fotografias do corpo do repórter concluiu, por certo sem dúvidas, que a bala tinha era proveniente de uma kalashinikov, a famosa AK-47 que por acaso o exército nesse dia tinha deixado nos quartéis.

A isso, segundo o Bangkok Post, não terá sido alheia a visita feita pelo número dois do exército ao DSI que segundo aquele jornal (edição de Domingo) ali se deslocou para reclamar contra as conclusões do DSI.

Contactei a Embaixada do Japão e fui informado da perplexidade em que se encontram visto terem visto, como eu também vi mostrado pela Comissão encarregue de encontrar a verdade sobre os acontecimentos de 2010, um vídeo que mostrava que a bala que atingiu Hiro (assim é o "nickname" do repórter) veio do local onde estavam, a disparar as tropas do regimento numero dois de infantaria. Como se pode ver em muitas fotografias existentes o repórter japonês atingido era sempre visto do lado dos manifestantes vermelhos e no momento que foi atingido, vê-se tal facto claramente no vídeo mostrado pela comissão governamental, estava bem no meio desse lado do confronto.

Se então a bala fatal foi de uma AK-47 e não de uma M-16 e aquelas não pertenciam ao exército (nesse dia) quem estaria no meio dos soldados a disparar ao ponto de matar Hiro? Os tais "homens de preto"? Quem são eles? Se não pertenciam ás hostes do exército como é que estavam com ele confundidos?

Muitas perguntas para tão poucas respostas e ainda falta o caso do Fábio sendo que a Embaixada da Itália e os familiares do jornalista já há muito perderam a paciência e tal como os japoneses iniciaram investigações próprias.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vermelhos e Jacarta

Ao fim de mais de 9 meses em prisão preventiva sete líderes da UDD-vermelha foram ontem libertados sob caução pelo tribunal criminal de Bangkok.

Abhisit felicitou o acto e disse que era um passo positivo no sentido da reconciliação necessária para que o país avance para eleições parlamentares que terão lugar este ano.

A libertação incluiu duas condições: os então presos não podem sair do país e não poderão envolver-se em actividades que incitem à desobediência da ordem ou sublevação, questão um pouco vaga e sujeita a várias interpretações. É contudo crível que os sete membros da UDD possam participar em manifestações do movimento que se conduzam de forma pacífica, como tem acontecido recentemente onde, apesar do número de pessoas que se manifestaram ser bastante grande, não houve nenhum incidente.

A decisão do tribunal deixa contudo uma questão que tem sido hoje arejada na imprensa local quer na de língua tailandesa quer na de língua inglesa. Quais foram as circunstâncias que mudaram para que o tribunal tenha alterado a posição anteriormente assumida, por duas vezes, de despachar negativamente o pedido dos presos para serem libertados sob caução?

Recorde-se que os membros da UDD-vermelha estavam presos desde o dia 19 de Maio de 2010 acusados de actos de terrorismo, embora nunca tenha havido nenhum despacho de pronúncia sobre o caso. Faz-me reviver tempos passados em Portugal quando o "General" Otelo Saraiva de Carvalho, então comandando o COPCON, emitia mandados de captura com acusações relativas aos perigos para a segurança do estado (naquela altura não se falava em terrorismo) e as pessoas eram libertadas, depois de passarem uns tempos na cadeia, sem saberem bem porquê. Sou testemunha real disso mesmo.

O despacho do juiz em Bangkok só refere a decisão favorável ao pedido do advogado dos vermelhos e as condições da libertação e o montante da caução.

Importante agora será observar o seguimento das posições que a UDD irá tomar numa reunião hoje mesmo na capital.

Um dos seus líderes disse já que a programada manifestação do dia 12 de Março deve seguir para a frente, visto haver ainda mais de 100 militantes presos nas mesmas condições dos líderes ontem libertados e que a luta tem de continuar até á libertação de todos.

Entretanto no que respeita o conflito entre a Tailândia e o Camboja realizou-se ontem a reunião prevista em Jacarta, que correu num ambiente de grande respeitabilidade, tendo essa cimeira acordado nos seguintes pontos: os dois países voltarão a sentar-se à mesa das negociações no âmbito da Comissão Junta de Demarcação das Fronteiras mas essa reunião, ainda sem data marcada, terá lugar em Jacarta sob os auspícios e apoiada pelos serviços da diplomacia indonésia; o segundo ponto foi a autorização dada pelo conjunto dos MNE da ASEAN para que a Indonésia envie observadores para ambos os lados da fronteira onde ficarão estacionados e a relatar os desenvolvimentos. De igual modo ainda não foram estabelecidos os termos de referência para essa missão.

Mais uma vez a diplomacia Indonésia funcionou e conseguiu com estas duas decisões acomodar de alguma forma as posições de ambas as partes.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desenvolvimentos do Dia

Alguns desenvolvimentos no conflito fronteiriço com o Camboja.

De acordo com fontes vindas do outro lado da fronteira tanques Vietnamitas e aviões chineses têm estado a "ajudar" o exército Khmer nesta campanha.

As forças armadas do Camboja, agora lideradas por Hun Manet, o "herdeiro" de Hun Sen, são incomparavelmente menores do que as tailandesas. Também o são os dois países quer em população quer em riqueza. Assim não é de estranhar que o Camboja tente recorrer aos "amigos" em momentos difíceis.

O Vietname, inimigo de longa data mas com agendas similares serve na perfeição os interesses de ambos. De um lado já que virar-se para Oeste está complicado o Camboja têm de o fazer para Leste. Do outro lado o Vietname só tem a ganhar aumentando a sua influência sobre o vizinho. Ganha junto do seu povo ao dizer ajudar os irmãos Krom (grupo Khmer que se divide pelos dois países), ganha em estabilidade evitando conflitos na fronteira oeste como tem havido também de tempos a tempos e ganha em ter mais um apoio na região.

Os chineses têm pouco a pouco aumentando a sua influência para o Sul. Primeiro o Laos onde a sua presença é bastante significativa havendo verdadeiras cidades chinesas em desenvolvimento no país, e posteriormente o Camboja país que é visto com redobrado interesse quer pelos chineses quer pelos americanos, de vido á sua posição na região, ao seu potencial de crescimento, aos benefícios que o seu governo vai ando aos investidores estrangeiros e ao petróleo e gás natural na plataforma do golfo da Tailândia.

A ser verdade a existência desses apoios tal mostra a inevitabilidade da internacionalização do conflito.

Ainda do lado do Camboja Hun Sen recusou liminarmente qualquer negociação com o governo de Abhisit se este se fizer representar pelo MNE Kasit sugerindo mesmo nomes como o do Ministro da Defesa, Pravit ou do Ministro da Presidência, Ong-art. Hun Sem tem boa memória e não se esquece dos adjectivos com que era qualificado quando o actual MNE Kasit subia aos palcos do PAD-amarelos e blasfemava contra o líder do país vizinho.

Para finalizar com o Camboja Hun Sem já afirmou que está de acordo com a sugestão tailandesa de requerer o envio de observadores da ASEAN para a zona do conflito.

Do lado tailandês dois temas dominam o dia: a questão em torno do cessar-fogo assinado pelo comandante-chefe da região 2 e Hun Manet e que é qualificado por Kasit como um documento feito para apreciação dos superiores e sem valor imediato. Sobre este mesmo tema o PAD-amarelos já se manifestou afirmando que o acordo viola a Constituição (art. 190). É curioso ouvir o PAD a falar de violar a lei quando neste próprio momento se manifestam há quase 1 mês, bloqueando uma importante via na capital em violação da lei de Segurança Interna em vigor na zona e do requerimento do tribunal emitido na semana passada para que evacuassem os locais que ocupam, isto sem falar da ocupação dos aeroportos em 2008. De igual modo será curioso ouvir se o PM se vai referir a este ponto já que no passado dia 11 o Parlamento aprovou por maioria, uma proposta do Partido democrata de revisão constitucional, que visa exactamente este art. 190. Após a votação Abhisit afirmou para a comunicação social que "agora o caminho estava aberto para um melhor funcionamento da diplomacia" embora seja sabido que para entrar em vigor a referida alteração necessitar de uma lei orgânica que nunca estará em vigor antes de largos meses de trabalho.


O outro tema é o facto de saber-se se foram ou não utilizadas bombas de fragmentação, munições proibidas por convenções internacionais das quais a Tailândia é signatário, durante os recentes conflitos. Ontem o Bangkok Post trazia um artigo com o título "Quem é tailandês quem é cambojano?", num trabalho tendente a mostrar que no fim de contas quem sofre são as populações das zonas fronteiriças, onde o articulista mostra evidências da utilização das referidas bombas o que tem sido, até agora, repetidamente desmentido pelo governo tailandês.


Fotografia no Bangkok Post

Há que esperar e ver se há alguma reacção de Abhisit, calado até ao momento.

Reunião de Jacarta

Amanhã é um grande dia para a ASEAN.

Devido à liderança da presidência Indonésia a ASEAN conseguiu dar um passo em frente na integração do bloco regional com a convocação para amanhã 22 de Fevereiro, da reunião extraordinária dos Ministros dos Estrangeiros para debater o conflito de fronteira entre a Tailândia e o Camboja.

Já várias vezes referi Marty Natalegwa, o MNE indonésio, e a sua experiência diplomática têm sido um factor determinante não só neste conflito mas fundamentalmente na construção do modelo assumido pelos estados membros na Constituição de 2008.

Ainda não muitos anos atrás eram outros países da região a terem uma intervenção nos assuntos na Indonésia. Lembre-se as forças tailandesas, filipinas e de Singapura enviadas para Timor-Leste e as missões cumpridas em Aceh na sequência da paz alcançada sob os auspícios da União Europeia numa missão liderada por Mahti Ahtisaari. Nessa altura as intervenções ocorreram a pedido quer da ONU quer da EU mas não aconteceram no âmbito da ASEAN.

A entrada em vigor em Dezembro de 2008 da Constituição da ASEAN marcou definitivamente a associação regional mas faltava, apesar da qualidade do secretário-geral Dr. Surin Pitswan, uma liderança na sua presidência capaz de dar os passos necessários para se atingirem os objectivos bastante ambiciosos ali estabelecidos.

Em 2009 a presidência foi exercida pela Tailândia mas todos nos lembramos da impossibilidade que o governo teve de conseguir ultrapassar pacificamente esse ano e contribuir para o avanço da associação. Uma cimeira cancelada, outra realizada sob forte escoltas militares e sem a presença de quase 50% dos líderes, e uma cimeira da EAS, o mais que provável futuro da arquitectura regional para a região da ásia-pacífico, sem brilho e feita á pressa com medo dos problemas que afectaram outras cimeiras. A presidência tailandesa conseguiu contudo lançar a primeira pedra daquilo que será a comissão dos direitos humanos regional, ainda que, devido aos problemas na Birmânia e ao pouco interesse manifestado por países como o Camboja, Laos, Singapura e Vietname, a Comissão Intergovernamental sob os Direitos Humanos ainda quase que não passou de uma declaração de intenções feita em Outubro de 2009 na cimeira de Hua Hin-Cha Am.

Em 2010 a presidência do Vietname passou-se como o país a quis ou seja contando rapidamente os dias até ao seu termo e sem avanços que se possam considerar significativos para avançar com os objectivos estabelecidos para 2015 de criar vários pilares comuns dentro da ASEAN.

Depois da Indonésia iremos ter as presidências do Camboja, Brunei e Birmânia e, segundo me dizia um professor de Chulalongkorn outro dia, há que fazer todos os esforços para que o impulso que a Indonésia está a dar não se esfume nas próximas presidências.

A reunião de amanhã em Jacarta será uma oportunidade única para os 10 países mostrarem que querem uma ASEAN forte e capaz de ser o pivot na EAS criando as condições para que a associação possa ter um papel crucial na construção de uma ASEAN de 10, coesa e unitária, e não uma ASEAN de países que não conseguem atingir os desígnios que os próprios se obrigam ao assinar tratados e convenções conjuntamente.

O conflito entre a Tailândia e o Camboja é um conflito, se bem que historicamente entendível, "impossível" à luz do direito internacional. Recorde-se que os dois países são signatários do Tratado de Amizade e Cooperação onde, entre outros aspectos, os signatários se comprometem a renunciar a qualquer acto de agressão mútuo.

Entretanto na frente diplomática e militar entre a Tailândia e o Camboja alguns desenvolvimentos durante o fim-de-semana. Os militares dos dois países sentaram-se á mesa e acordaram um cessar-fogo que o PM Abhisit teve logo que vir a terreiro afirmar não ser um acordo formal visto o PAD-amarelo ter acusado o PM de ter autorizado a perca de território para os cambojanos com aquele acordo. Entretanto o MNE tailandês teve um primeiro passo diplomático positivo nesta guerra de comunicação. Mantendo sempre a sua posição de querer resolver o assunto pela via bilateral, como já expliquei aquela que garante à Tailândia que não haja nenhuma decisão baseada no direito internacional que sempre perderá, afirmou que iria defender na reunião de Jacarta que a ASEAN enviasse observadores para apreciar a situação na fronteira. O Camboja, que não tem o problema tailandês de haver demasiadas vozes a falar (PM, MNE, Ministro da Defesa, Comandantes militares, PAD, etc.), visto que só uma voz é autorizada, a de Hun Sen, tem sempre insistido na presença de observadores da ONU tentando escalar o problema para um terreno que lhe pode ser mais vantajoso.

A Tailândia ao aceitar a mediação da ASEAN, embora mantendo que a reunião de amanhã é bilateral "com o apoio" da ASEAN, tenta trazer o conflito para um patamar mais próximo e menos internacionalizado o que lhe dará vantagens e poderá sempre contar com a Indonésia e com o secretariado, que querem aproveitar a situação para se afirmar ainda mais como os motores do agrupamento regional.

Muito está em jogo amanhã mas o grande arquipélago muçulmano, ainda não há muito com todos os problemas políticos e económicos conhecidos é hoje reconhecido como um exemplo de estabilidade e democratização no Mundo, vai ganhando neste tabuleiro diplomático.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Quem quer a Guerra?

Afinal que é o interessado na presente contenda entre a Tailândia e o Camboja?

O Ministro da Defesa tailandês, o General na reserva Pravit Wongsuwn, anunciou que já acordou encontrar-se com o seu congénere Cambojano para "negociar uma paz duradoura".

O número três do governo de Abhisit e encarregado dos assuntos económicos, Vice-primeiro-ministro Doutor Trairong Suwankiri, encontra-se hoje em Phnom Penh para participar na abertura de uma exposição comercial tailandesa e encontrou-se com o primeiro-ministro Hun Sen.

Entretanto os dois MNE vão trocando acusações sobre quem iniciou as escaramuças ontem pela manhã e enchem as páginas dos jornais que também continuam a "contar espingardas" de um e de outro lado da fronteira.

Os que fazem a guerra querem a paz e aqueles que deveriam promover a paz, através de um instrumento tão valioso como a diplomacia, querem a guerra, parece ser esta a conclusão simples da actuação dos agentes no terreno.

Parte da comunicação social também não ajuda muito. Por um lado o Matichon, o jornal de língua tailandesa de maior tiragem, trazia um longo artigo relatando as duas vezes que, no passado recente, a Tailândia se envolveu em confrontos com vizinhos, 1940-41 com a Indochina francesa e 1987-88 com o Laos, afirmando que o país não tirou nenhum proveito dessas ocasiões e isso deveria servir de lição para o presente. Continua apelando a que os dois países ultrapassem "estes pequenos problemas" e olhem para os interesses comuns dos povos e dos países.

No pólo oposto Sutichai Yoon, do Krungthep Turakij e do The Nation, sempre radical, comentando uma declaração de Hun Sen que afirmava querer promover a paz e o bem estar entre os dois países, dizia que "este antigo Khmer Vermelho (Hun Sen) nunca é fiel à sua palavra e deveria deixar de se portar como uma criança atirando pedras para se divertir com o vizinho.

Não é normal ler nos jornais cambojanos ataques pessoais a Abhisit ou qualquer membro do governo, incluindo o MNE Kasit, ao contrário do que se passa deste lado da fronteira, embora os cambojanos sejam igualmente nacionalistas e determinados (outro dia um deslocado do lado cambojano dizia não se importar de perder território para a China mas lutaria até à morte contra a Tailândia e o Vietname se houvesse alguma tentação destes dois países em invadir o Camboja).


Um dos problemas existente nesta contenda é a pressão exercida diariamente sobre o governo de Abhisit não só pelos amarelos que se manifestam há já três semanas bloqueando uma larga zona no sector antigo, real e governamental de Bangkok, onde por exemplo se situa o quartel general do exército, mas também pela máquina bastante forte de meios de comunicação social (jornais e televisão) que têm ao seu dispor e que, ao contrário dos pertencentes aos vermelhos, nunca foram fechados nem tiveram o sinal foi cortado. Ontem a Polícia fez um raid ao local e apreendeu várias armas que se encontravam no acampamento amarelo mas "não conseguiu" identificar o(s) proprietário(s).

Outro problema e que é repetidamente chamado á liça é o facto de quer Kasit quer mesmo Abhisit, o primeiro enquanto militante do PAD-amarelo e o segundo enquanto líder da oposição, terem sido extremamente violentos em ataques pessoais contra o PM cambojano Hun Sen. Como usamos dizer, cá se fazem cá se pagam!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Vencedor


A agendada reunião do Conselho de Segurança, reunido para discutir o conflito que envolve a Tailândia e o Camboja, aconteceu na noite de Segunda-feira em Nova York mas pouco produziu.

Como num jogo de futebol todos ganharam.

A Tailândia porque conseguiu que o CS não se envolvesse demasiado a ponto de enviar uma força de "peacekeepers"que ocupassem a área em disputa e afastassem os dois exércitos, como era solicitada pelo Camboja.

O Camboja ganhou porque conseguiu, finalmente, que o CS discutisse o assunto e também porque a recomendação saída da reunião aponta para uma mediação de terceiros, a presidência da ASEAN, aliás perto de uma possível interpretação do artigo 23 da Constituição da Associação.

A Indonésia, envolvida enquanto Presidente em exercício da ASEAN, também ganhou porque vê aumentar a sua já reconhecida capacidade para liderar na região. O MNE Marty Natalengwa aparece neste momento como uma pedra fundamental e quando convocou para o próximo dia 22 uma reunião extraordinária dos seus colegas da ASEAN, com o objectivo de discutir o conflito entre os dois membros, marcou definitivamente o ritmo ao qual os factos deverão acontecer e posicionou a associação num patamar superior ao que sempre nos habituou.

Para mim o único vencedor neste momento é a ASEAN pois cria-se um precedente com a reunião do dia 22. A ASEAN segue, bem ao contrário da União Europeia, o principio de total não interferência nos assuntos internos de um país. É raro ver a ASEAN ou o seu secretariado saírem em ajuda de qualquer assunto interno num estado membro com medo de tal passo poder ser mal interpretado do ponto de vista político. O actual secretário-geral, Dr. Surin Pitsuwan, um ex MNE tailandês de grande prestígio, tem vindo a tentar elevar quer a capacidade de acção quer de intervenção do seu "escritório" mas tudo tem sido feito com pinças de penas devido às sensibilidades entre os estados membros.

Pode afirmar-se que a primeira vitória obtida foi quando foi possível a ASEAN ter um papel determinante na ajuda humanitária após o ciclone Nargis na Birmânia e o actual momento pode considerar-se o segundo passo do fortalecimento da imagem do secretariado tão bem apoiado pelo MNE Marty.

Quem por certo perdeu naquele encontro de Nova Iorque foram a Tailândia e o Camboja pois pouco passavam 5 horas sobre o comunicado final onde era dito ás partes que o primeiro passo era o estabelecimento de um cessar-fogo, para eclodirem de novo escaramuças na fronteira causando vários feridos em ambos os lados.

O facto de o CS não ter emitido mais do que uma recomendação não faz das partes violadoras dos princípios da carta das Nações Unidas mas diz bastante das "boas" intenções dos negociadores e/ou da sua capacidade de transmitir às forças no local os seus desígnios.

Os jornais de ambos os países, com relevo para os tailandeses (já que os cambojanos não necessitaram tanto de propaganda interna), dedicam grande parte dos seus escritos a enaltecer a "vitória" do governo Abhisit e a requerer que os cambojanos regressem à mesa das negociações. Lembre-se que estes sempre disseram Não pois acusam o sistema legal tailandês de ineficiente, e as reuniões de inúteis, já que as minutas das reuniões de 2008 (!) ainda estão por aprovar travando todo e qualquer progresso. De um lado os tailandeses pretendem continuar neste jogo arrastando a questão mas alegando que se está a negociar e portanto nada mais deve ser feito, enquanto os cambojanos recusam visto quererem avançar com o processo do templo junto da UNESCO e dizem não poder esperar pela burocracia tailandesa.

Veremos agora o resultado da reunião dos MNE da ASEAN a 22 de Fevereiro mas o certo é que esta é já por si uma vitória da associação, da sua Presidência e do seu secretariado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Magia Negra?

No último dia falei da magia negra Khmer e do respeito que tal facto induz aos tailandeses.

Nós também dizemos não acreditar em bruxas mas lá vamos afirmando que "las há, las há". Os tailandeses mesmo os menos devotos a estas causas têm o seu quê de "respeito" pelas premonições e realizam-se vários rituais no sentido de afastar as pragas lançadas do outro lado da fronteira.

Anteontem o Daily News afirmava, em mais uma tirada de nacionalismo e comentando um "incidente" ocorrido com caças F16 que "por engano", segundo o porta-voz da Força Aérea, sobrevoaram a zona de conflito na fronteira, que "era necessário mostrar aos cambojanos a capacidade da nossa aviação, com os F16, de modo a que eles acabassem com as provocações" contra a Tailândia.

Esses aviões estão neste momento a ser utilizados nos exercícios conjuntos que estão a decorrer, Cobra Gold 2011, com as forças americanas (depois de similares exercícios efectuados no Camboja) e ou por força da magia ou por azar, dois desses aviões colidiram esta manhã em pleno voo sobre a província de Chayaphum no centro nordeste do país.

Felizmente que o acidente não causou nem vítimas nos pilotos, que se ejectaram, nem em pessoas no solo, visto ter sido numa zona de floresta não habitada, mas já há quem fale que tudo não é mais do que resultado das pragas lançadas pelos Khmer sobre o povo tailandês.

Foi aberto um inquérito mas o que mais intriga os peritos da Força Aérea é o facto de parecer pouco crível que os dois aviões tivessem colidido no ar, pois caso assim fosse seria quase impossível os pilotos ejectarem-se, ficando então a questão sobre o que terá feito com que dois aviões tivessem caído ao mesmo tempo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Deuses devem estar loucos

Ontem ao ver o desenvolvimento das questöes relacionadas com a contenda fronteiriça entre o Camboja e a Tailândia lembrei-me do filme Sul-Africano de 1980 "Os Deuses devem estar loucos" não por causa da bela história que aí se conta mas pelo seu titulo.

Na realidade parece que alguém está enloquecendo e quem sofre são as populaçöes da fronteira. Ontem mesmo em conversa com um amigo que vive em Kataralak, o principal conselho na zona de confrontos no lado tailandês, este relatava-me o descontentamento das populaçōes com a situação.

Na Quinta-feira, e na sequência das diligências indonésias, foi tomada a decisāo do Conselho de Segurança da ONU de agendar para o próximo dia 14 uma reunião daquele orgão para o qual foram convidados os dois países. Pareceria que as partes em disputa se iriam concentrar nesse ponto como o próximo passo mas parece que não.

O General Prauyth Chan-ocha, comandante supremo do exército tailandês ordenou o envio para a zone da fronteira de mais 20.000 homens. Entretanto o comandante da região militar 2, a que comada as tropas estacionadas junto da fronteira, encomendou amuletos para distribuir aos soldados "para se protegerem da magia negra Khmer".

Há uma crença de que os povos Khmer são muito poderosos com os seus apelos aos deuses (uso propositadamente minúscula) e que o que está acontecer à Tailândia deve-se aos actos de magia negra feitos pela mulher de Hun Sen, o líder cambojano, no templo de Phrae Vhiearn há pouch mais de 2 anos. Falando do templo há dois factos mais a ajudar à minha observação inicial. O nome de código da operação militar é "Phrae Vhiearn battlefield", muito apropriado para desanuviar tensōes.

O outro é ainda mais louco: o líder amarelo Sondhi L. disse no estrado montado na manifestação que prossegue em Makawan, na Quinta à noite, que a Tailândia tem um líder fraco , referindo-se a Abhisit, e o que o país devia fazer era invadir o Camboja conquistar o templo de Angkor e a Ilha de Kut e só depois entrar em negociaçōes pois assim os cambojanos teriam de "devolver" Phrae Vhiaern visto ficarem numa posição de fraqueza! Muito educativo.

Parece-me que quem está louco não são os Deuses!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mediação

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia mostrou a sua habilidade diplomática e, em coordenação com a presidência do Conselho de Segurança, conseguiu organizar uma reunião conjunta dos ministros dos estrangeiros tailandês e cambojano em Nova York sob os auspícios do Conselho de Segurança e com o apoio da presidência da ASEAN, como vem referido no comunicado. A reunião terá lugar no próximo dia 14, Dia de São Valentim padroeiro e promotor na longínqua Roma dos casamentos, o que pode ser bom prenúncio.

Abhisit vinha reclamando sempre que o conflito deveria ser resolvido através de consultas e discussões bilaterais mas o formato conseguido assegura que não seja totalmente posta de parte essa vontade de não internacionalizar o conflito com a sua internacionalização na prática.

O governo de Abhisit quer a todo o custo evitar que o assunto lhe escape das mãos e venha a haver nova decisão, como a do Tribunal Internacional de 1962, sabendo ele que quer os documentos, quer a prática quer o próprio direito internacional não lhe são favoráveis.

O Doutor Marty Natalengwa conseguiu mais uma vez mostrar a utilidade da ASEAN e a capacidade da liderança Indonésia para a região. Hoje num almoço com um jornalista tido por ser o maior especialista em assuntos referentes com a ASEAN ele falava-me disso mas alertava para o facto de que após a presidência da Indonésia nada de bom se avista para a associação com as três presidências que estão alinhadas: Camboja, Brunei e Birmânia. Também outro dia um dos mais proeminentes professores de Chulalongkorn dizia-me mais ao menos o mesmo quando referia o quanto gostaria de ter a Indonésia por 4 anos à frente da ASEAN. Marty é casado com uma senhora tailandesa e passa muito do seu tempo aqui pelo que conhece muito do país sem que isso lhe retire a legitimidade e a independência para actuar.

Entretanto do lado amarelo PAD vieram algumas novidades. A anunciada grande marcha para um "local importante" pode não vir a realizar-se já que o número de manifestantes é extremamente reduzido não ultrapassando segundo muitas fontes os 300, embora tenham montado um grande acampamento em Rajadamnoen bloqueando uma boa parte da avenida e das zonas circundantes. No Domingo à noite passei por lá e nem luz se via. Só se viam as grades que instalaram a rodear toda a zona ocupada.

Outra notícia que se espalhou hoje, e nada espanta, foi que Sondhi L., o mediático líder amarelo, se encontrou com Thaksin no Kuwait. Recorde-se que estes inimigos figadais (?) foram durante muitos anos parceiros de negócios e só quando Thaksin, aliás como fez com quase todos os que o rodeavam, passou a tratar todos como seus empregados e apoderou-se das rédeas de todos os negócios que com eles partilhava, se separaram e antagonizaram.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Conflito na Fronteira

A situação no terreno acalmou e ambas as partes estão envolvidas neste momento numa outra frente, a diplomática.

Depois da queixa apresentada pelo Camboja junto do Conselho de Segurança o governo da Tailândia respondeu na mesma moeda enviando uma carta para a presidente do CS expondo os argumentos do lado tailandês, que obviamente são contrários aos do Camboja. A Brasileira Maria Luísa Ribeiro Viotti, que preside ao CS, já informou todos os membros e o assunto estava para ser discutido na reunião normal no ponto "outros assuntos" mas sabe-se que, pelo menos um dos membros requereu que o assunto fosse discutido numa reunião expressamente convocada para o efeito. A presidente do CS entretanto falou também com o Embaixador Marty da Indonésia, ele próprio o ex Embaixador do país junto das Nações Unidas, no sentido de solicitar a sua ajuda como presidente em exercício da ASEAN.

Entretanto os dois ministérios dos Estrangeiros avançaram numa campanha, iniciada por Phnom Penh, convidando os diplomatas a visitar os campos de desalojados e a observar os danos causados, pela outra parte, de forma a sensibilizar esta comunidade dos actos de "agressão" perpetrados pelo inimigo.

O Ministro Indonésio dos Negócios Estrangeiros Marty prossegue a sua viagem aos dois países, hoje em Bangkok, no sentido de obter alguma solução para a contenda. Mostrando o interesse que a região tem para si, e de alguma forma uma inovação na condução na política externa, a Republica Popular da China emitiu ontem um comunicado onde diz serem ambos os países "vizinhos amigos da China" e esperando que as partes se contenham e encontrem uma solução para os seus problemas comuns.
A Tailândia tem sido bastante clara em sempre rejeitar qualquer tipo de mediação ou internacionalização do conflito porventura tendo a consciência de que a forma como no passado defenderam a questão não lhes foi favorável e criou precedentes de direito internacional adversos. Em 1962 quando o Tribunal Internacional de Justiça decidiu a titularidade do templo para o Camboja a Tailândia em vez de interpor recurso simplesmente criticou o Camboja e a decisão do tribunal, alegando a discutibilidade dos documentos usados para suportar a sentença. Nessa altura a reacção tailandesa e do seu primeiro Ministro Sarit Thanarat, que chegou ao poder em 1957 através de um golpe de estado, foi violenta ao ponto de ter tido o Rei Rama IX (actual monarca) de intervir, falado e explicando que o país deveria obedecer à sentença do tribunal.

Enquanto o governo tailandês se empenha na luta diplomática porventura na tentativa de encontrar forma de terminar com um conflito que a ninguém serve o exército desta vez é muito menos cooperativo. O seu porta-voz, o Coronel Sansern ontem de manha veio dizer que não havia mais conversas com a parte cambojana para à noite ter sido ainda menos diplomático e infeliz dizendo que "estamos preocupados de que nos acusem de estarmos a abusar de um vizinho menor" (referindo-se à inferior capacidade militar), palavras que foram muito mal recebidas mesmo nos círculos governamentais.

Entretanto os amarelos do PAD e dos Patriotas preparam a "marcha para uma importante posição" que terá lugar no dia 11. O facto de não se saber onde é tal lugar faz correr as mais variadas especulações, inclusive que pode ser na fronteira para tornar a situação ainda mais tensa, mas já fez com que o governo decidisse hoje declarar que seja aplicado o artigo 2º do Internal Security Act, facto que permitirá uma mais fácil actuação dos militares.

Há quem especule que tudo isto não passa de uma escalada da tensão para mostrar a necessidade de uma intervenção militar "já que o governo é incapaz de manter a ordem".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Correcção

No anterior comentário sobre a situação referi que haveria centenas de desalojados contudo o número é de muito maiores proporções.

Do lado tailandês estavam pelas 14:00 locais colocados em 38 campos temporários de acolhimento 15.638 pessoas do distrito de Kantharalak, província de Si Sa Ket, informação obtida junto da sede do município.

Do lado do Camboja não se conhecem dados oficiais mas sabe-se que foram evacuados todos aqueles que vivem perto da fronteira e o aceso à zona onde o conflito se mantém está totalmente cortado só podendo aí transitarem forças militares.

Entretanto o mais importante posto fronteiriço, Aranyaprathet - Paoy Phet está encerrado. É por esta fronteira que diariamente passam a grande maioria de pessoas e bens que abastecem os dois países o que já está a causar transtorno naqueles que vivem dessa relação comercial e nas populações em geral.

Entretanto o foco do lado da Tailândia virou-se um pouco mais para o lado político depois dos muitos apelos internacionais à restrição no uso dos meios militares e às tentativas de mediação, e está agora concentrado sobre a queixa apresentada pelo Camboja no Conselho de Segurança.

Espera-se que assim continue e ambas as partes entendam que nada há a ganharem numa guerra completamente despropositada e só iniciada por pressóes da política interna.

Conflito na Fronteira

Depois do cessar-fogo acordado no final do Sábado as tropas dos dois países voltaram a trocar tiros no Domingo ao fim do dia e hoje, Segunda-feira desde as 4 da madrugada.

Ambas as partes acusam a outra de ter dado início às hostilidades e na verdade parece terem sido os cambojanos os primeiros a disparar num acto de retaliação contra a intrusão das tropas tailandesas que tentaram obstruir com tanques e outro material pesado, os trabalhos de construção, pelos cambojanos, de uma estrada, junto do Templo de Phrae Vihearn, na área tida pela Tailândia como "em disputa" e pelo Camboja como "parte do território khmer".

O cessar-fogo parece ter sido uma encenação de uma cena de uma novela que tem um argumento muito complexo.

Em Junho de 2008 o movimento amarelo do PAD aproveitou-se do acordo assinado pelos dois países para propor à UNESCO a candidatura do templo da discórdia para iniciar uma campanha nacionalista que lhes desse algum fôlego na luta contra o governo de Samak Sundaravej. Até então estava em normal funcionamento o Joint Border Commission, instrumento saído do Acordo assinado por ambos os países em 2000 e que é a plataforma necessária para discutir as questões relacionadas com a demarcação de fronteiras.

Há 702 km de fronteira entre os dois países que estão precariamente demarcados e ambas as partes usam diferentes mapas. Note-se que alguns dos mapas datam dos tempos coloniais franceses e foram mesmo assinados pelos siameses em contextos de salvaguarda da soberania e no intuito de evitar incursões quer francesas no que respeita à fronteira leste quer inglesas no que respeita as fronteiriças sul e oeste.

Esta fraca demarcação é uma realidade com a qual os dois países têm vivido e o mais importante é que as populações das zonas fronteiriças vivem em plena comunhão e essencialmente do comércio comum que sempre se estabelece nestes casos. As fronteiras são por vezes tão pouco claras que me lembro um dia de ter atravessado do Laos para o Camboja, na província de Champasak onde a fronteira é simplesmente uma barreira numa estrada rudimentar. Passar a linha que supostamente divide os dois países 50 metros para a direita ou para a esquerda é completamente possível e acontece mesmo sem disso se ter a consciência. Assim são muitas das zonas adjacentes ao templo acrescendo a isso o facto de cada país usar um mapa diferente onde se puxa ou empurra a linha imaginária da fronteira de acordo com os interesses do momento.

Os assuntos de política interna e a necessidade de satisfazer clientelas, fundamentalmente nas duas capitais acaba por acirrar os humores e os resultados estão à vista.

Há neste momento material de artilharia pesado frente a frente e os 4,6 km2 na zona adjacente ao templo e que pertence a ambos os países de acordo com interpretação individual que agora fazem (note-se que o JBC reconhece tal pedaço de terreno como "território em disputa") e este facto por si só faz com que disparos ocorram apesar do "declarado" cessar-fogo.

Para além dessas escaramuças militares também civis de ambos os países têm sido alvos do fogo e largas centenas tiveram de ser evacuados do local depois das suas vilas terem sido fortemente atingidas por morteirada contrária.

Tem também havido intervenção da aviação mas pelo momento tal tem sido somente como apoio às operações no terreno.

Os números de mortos e feridos de cada um dos lados não é claro mas deve contar-se ainda com um dígito embora no Sábado, instigado por um comentário de um dos mais próximos colaboradores da Abhisit, um jornal tailandês tivesse colocado em primeira página que teriam sido mortos 60 cambojanos, facto que nenhum outro jornal, nem deste nem do outro lado relatou ou confirmou.

Esta manha o porta-voz do exército tailandês mostrou o endurecimento da posição ao afirmar que tinha terminado o tempo para negociações.

Quer o secretariado-geral da ASEAN, quer a presidência Indonésia quer Singapura já vieram apelar à contenção a disponibilizar-se para mediar a disputa oferta de imediato recusada por Abhisit.

Entretanto o Camboja já enviou o caso para o Conselho de Segurança na ONU acusando a Tailândia de agressão e de ter causados danos no templo de Pharae Vihaern, facto que levou o Ministro Kasit a convocar todos os Embaixadores da ASEAN (excepto Camboja) mais os dos países membros do Conselho de Segurança para lhes descrever a posição tailandesa.

Hoje mesmo o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, Marty Natalagwa, um diplomata de grande prestígio, vai a Phnom Penh e Bangkok e por certo irá discutir com os dois governos a actual tensão.

Um detalhe não muito mencionado mas que de alguma forma cria atritos na dissuasão do problema é o facto do Parlamento tailandês ainda não ter aprovado as minutas da última reunião da JBC, que ocorreu há 18 meses, e desse modo inviabiliza a continuação dos trabalhos. De acordo com a presente constituição, artigo 190, todas as decisões em acordos de qualquer tipo em questões bi ou multi laterais têm obrigatoriamente de ser aprovadas previamente pelo Parlamento. Note-se, a título de exemplo, que a agenda de uma reunião de alto nível entre a Tailândia e um outro país tem de obter prévia aprovação parlamentar para poder prosseguir. De outro modo só se pode realizar mas não poderá haver nenhuma decisão ou acordo. Tal artigo, que eventualmente poderá ser emendado na alteração ao texto constitucional presentemente em discussão, tem sido um forte entrave à política externa tailandesa.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Actualiazação do Conflito


Durante esta manhã houve mais troca de tiros entre as tropas tailandesas e cambojanas da qual resultou a morte de alguns soldados tailandeses (oficialmente fala-se de 1 mas não oficialmente fala-se de 3) e ferimentos em vários outros.

Neste incidente não houve feridos em populares da região visto este terem sido evacuados ontem para escolas públicas.

Não é conhecido se houve ou não feridos ou mortes do lado cambojano já que nenhuma fonte, nem daqui nem do lado cambojano, fala disso.

Parece evidente, mas isto é especulação, que estarão a ser as tropas do país vizinho quem está a ter a iniciativa no momento e são as que se encontram mais avançadas na zona mista, visto quer os desalojados quer os acidentados serem sempre do lado tailandês.

Entretanto ao início da tarde os comandantes militares dos dois países na região chegaram a um acordo de cessar fogo acordando igualmente em não deslocar mais efectivos para o local de forma a reduzir a tensão.

Conflito na Fronteira


Ao mesmo tempo em que o Ministro Kasit afirmava no Camboja de que os dois países estavam de mãos dadas para encontrar soluções pacificas para o conflito que persiste na fronteira e que a continuação das reuniões do Joint Border Committee era a resposta para para as diferenças de interpretação dos vários mapas, soldados envolveram-se em escaramuças junto à fronteira.

Ambas as partes acusam a outra de ter invadido o território e de ter provocado a outra, e nunca se saberá quem na verdade deu o primeiro passo pois ambos os campos têm de "vender" internamente a sua história.

O facto é que tiros foram trocados entre as forças estacionadas perto de Huay Thip, uma pequena aldeia tida por estar no distrito de Kantaralak, província de Si Sa Ket, por parte dos tailandeses e em território cambojano pelo outro lado, e dessa troca de tiros resultaram variados feridos e a morte de um aldeão tailandêss e um soldado do Camboja.

As trocas de fogo são a menos de 1 km de uma área tido por ser zona em disputa e como se sabe o cruzar, por uns e por outros, daquilo que é território próprio para zonas mal demarcadas acontece diariamente.

O porta voz do exército tailandês afirmou pensar que o que aconteceu foi por acidente e não premeditado ou estudado e os comandos dos dois exércitos estiveram de imediato em contacto no sentido de acalmar a situação.

Kasit continua a nada conseguir no seu objectivo de obter a libertação dos tailandeses detidos em Phnom Penh e hoje termina o prazo dado pelo PAD ao governo de Abhisit para solucionar o diferendo, passado o qual é pressuposto que os manifestantes amarelos avancem para a Government House para onde 17 companhias de polícia foram deslocadas. Serão assim mais os polícias do que os manifestantes, a manterem-se os números de presenças durante esta semana, mas a motivação dos amarelos é grande e para eles causar perturbação e uma eventual intervenção militar parece ser o objectivo já que os falhanços tidos com o Partido da Nova Política no jogo democrático mostra que só resta ao PAD a manifestação dos seus argumentos da forma que sempre o souberam fazer, na rua.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As Cores

Dantes por norma tínhamos de nos preocupar à vez ora com os amarelos ora com os vermelhos mas, como tudo no país, também os tempos mudam.

Já há dias referi aquilo que rotulei de "laranjada"ou seja o apelo feito por um dos líderes dos Patriotas Tailandeses para que os vermelhos se juntassem a eles com o objectivo de derrubar o governo de Abhisit já que tal parece ser neste momento o objectivo comum.

Pelo menos os últimos tiveram o bom senso de nem sequer responder e por enquanto vamos "saboreando" outros frutos que não laranjas.

Contudo as actuações dos dois movimentos vão se conjugando e na realidade neste momento ambos pressionam Abhisit deixando-lhe pouco tempo para respirar. Para acrescentar a estes grupos de vez em quando aparece uma ou outra manifestação contra o atormentado PM como na passada semana um grupo de agricultores, descontente com as políticas do Ministério do Comércio no que respeita aos produtos por eles produzidos, apontou armas contra a residência de Abhisit que mais parece um "bunker" do que casa onde se viva. A zona adjacente foi tomada pelo exército com veículos de intervenção rápida pois mesmo sendo umas poucas centenas os pacíficos manifestantes o medo é tanto que as sirenes de alarme soam sempre muito alto.

No que respeita os dois mais coloridos grupos a situação é a seguinte:

Os amarelos deram ao PM até ás 17:00 de amanhã Sábado, hora local, para que seja resolvido o problema dos detidos no Camboja e o Ministro Kasit mantém-se na capital vizinha a tentar algo que se conseguir será por certo uma vitória de Pirro com altos custos para a Tailândia visto o Camboja nada ter a ganhar em fazer concessões à Tailândia.

Caso o ultimato não seja aceite, o que se prevê extremamente improvável, já anunciaram que aumentarão a sua pressão sobre o governo, sem ter sido explicado o que isso significa, deixando no ar contudo a ideia de que irão avançar sobre o complexo da Government House. Entretanto Abhisit mandou a Polícia fazer exercícios para dispersar manifestações afirmando que tal se destinava a ser posto em prática se o PAD avançar sobre as instalações do Governo.

A seguir nas próximas horas.

Entretanto houve mais um elemento do PAD que foi preso, o ex Senador Karun Saingbam, por acusações relacionadas com a ocupação dos aeroportos da capital em 2008 (note-se que até ao momento só foram presos por esse facto três activistas menores do PAD), tendo sido posteriormente libertado sob fiança de 200.000 baht, como sempre tem acontecido aos elementos do PAD.

Do lado vermelho está em preparação a manifestação mensal do dia 19 (lembre-se que celebram nesse dia os sangrentos acontecimentos de Maio de 2010), que até aqui têm sido pacíficas, ordeiras e curtas, embora tenham atraído bastantes pessoas, mas este mês vai haver uma nuance que pode ser importante.

Vendo a continuada diferença de tratamento quer da polícia quer dos tribunais entre vermelhos e amarelos (lembre-se que os líderes vermelhos continuam presos, sem acusação, desde Maio de 2010 e o único que foi libertado sob fiança teve de pagar 2 milhões de baht, 10 vezes o valor do que pagou Karun), a UDD interpôs mais um recurso para libertação dos seus principais líderes (sete no total) e declarou que se não houver resposta positiva ao pedido a manifestação do próximo dia 19 será uma manifestação sem fim marcado, ou seja poderá ser iniciado um novo ciclo como em 12 de Março de 2010 quando os vermelhos começaram o ajuntamento que só veio a terminar a 19 de Maio e com os resultados que se conhece.

Olhando para a direita temos os amarelos acampados desde 25 de Janeiro em Makawan, o mesmo local onde iniciaram a sua manifestação de 2008 que durou 192 dias e terminou com 300.000 turistas "prisioneiros" no país devido ao encerramento pelo PAD dos aeroportos da capital e todos os outros danos para o país que se conhece.

Olhando para a esquerda temos a UDD de alguma forma a desafiar reiniciar o processo de 2010 que tantos amargos de boca, mortes e destruição deixou na capital e no país.

Uma verdadeira e transparente justiça que funcionasse sem ser movida por intenção políticas parece-me que seria o melhor remédio para estas maleitas que atormentam o doente, o país.

Entretanto no Sul, mas isso tem pouca importância, morreram devido a atentados à bomba mais duas pessoas, dois elementos dos grupos paramilitares formados por iniciativa real.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Guerra da Bandeira

A guerra da bandeira está instalada entre a Tailândia e o Camboja.

Do lado tailandês Abhisit tentou por várias vezes conseguir algum ascendente na situação da fronteira de modo a acalmar os (poucos mas barulhentos) amarelos do PAD até agora sem grande sucesso.

Os soldados vizinhos retiraram as placas que marcavam de algum modo a soberania sobre a zona em disputa mas hastearam uma bandeira, bem visível, sobre um pagode existente naquela área.

Abhisit entretanto viu a pressão aumentar com o ultimato do PAD para que o PM resolvesse, no prazo máximo de 3 dias, o caso dos dois líderes amarelos, acusados pelas autoridades do país vizinho de espionagem e que foram condenados a 8 e 6 anos de cadeia anteontem em Phnom Penh,

Hoje mesmo Abhisit "despachou" para a capital cambojana o Ministro dos Estrangeiros, o Vice-Ministro responsável pela segurança e o secretário-geral do Conselho Nacional de Segurança numa tentativa de algo conseguir por parte de Hun Sem, PM Cambojano que continua numa posição extremamente confortável. A única opção que lhe pode ser desfavorável será uma agressão militar por parte da Tailândia, país significativamente melhor equipado do que o seu, mas se tal acontecer a Tailândia terá toda a comunidade internacional contra si e será uma violação grosseira da Constituição da ASEAN, o que penalizaria fortemente Bangkok.

Entretanto os tailandeses continuam a colocar tropas na fronteira, numa demonstração de força e de igual modo para tentar acalmar a "amarelada", e ontem hastearam uma grande bandeira tailandesa no seu campo de modo que possa ser bem visível do lado cambojano.

No meio disto tudo quem vai sofrendo são as populações locais, que por uma vez já se manifestaram contra o PAD quando este resolveu ir provocar directamente no local os soldados do Camboja, visto as populações de ambos os lados da fronteira conviverem, desde sempre, em harmonia vivendo essencialmente de todo o comércio transfronteiriço como sempre acontece nestes casos. Quem conhece o distrito de Kantaralak na província de Si Sa Ket, a zona onde fica do lado tailandês a fronteira com o templo de Prhae Vihearn, sabe bem que as gentes das povoações locais, de cá e de lá, são as mesmas, falam um dialecto comum, casam-se entre si e levam uma vida partilhada e assim tem sido ao longo dos anos e séculos.

A política doméstica, nos dois países, continua a comandar os assuntos que os habitantes da região gostariam de ver resolvidos por si que não nas capitais.

Entretanto todos se esquecem mas nos últimos 10 dias já morreram no Sul da Tailândia mais de 30 pessoas em atentados bombistas indiscriminados mas isso parece não importar muito os políticos, e infelizmente também os habitantes, da grande metrópole que é Bangkok.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Immigration Detention Centre

Esta manhã visitei o Immigration Detention Centre (IDC) ou seja a cadeia supostamente temporária para aqueles que estendem a sua estadia na Tailândia para além do permitido no visto de entrada. A estadia no IDC pode prolongar-se por bastante tempo dependendo da gravidade da ofensa (abuso de visto por longos períodos) ou da falta de meios do detido para sair do país (falta de dinheiro para comprar um bilhete de avião para o país de origem).

Todo o cidadão que entra no Reino tem que obter um visto que varia em duração. Mesmo a ideia de que não é necessário obter visto par a maioria dos ocidentais não é inteiramente verdade pois o carimbo aposto no passaporte no momento da entrada funciona como um visto (sem prévio requerimento) e é dado ao visitante um tempo para permanecer no país, normalmente 29 dias.

Acontece que muitos, ou porque são ilegais procurando emprego (fundamentalmente dos países vizinhos) ou porque vêm fugindo à procura de um lugar para refazer a vida (caso dos norte-coreanos) ou porque pensam que a Tailândia é um país "fácil" para o exercício de actividades ilegais (caso de africanos e de provenientes do sub-continente asiático) ou ainda porque simplesmente se deixam ficar envolvendo-se em demasiadas facilidades e festas que nem sempre são boas conselheiras (a maioria dos ocidentais de mochila às costas), acabam como "residentes" temporários do IDC.

Sem surpresas o IDC não é um hotel de 5 estrelas. É uma cadeia e em principio quem lá está é porque violou a lei, embora possa ser considerado que não é um caso criminal grave, e por isso têm de passar por esse processo de detenção.

Quando uma pessoa pretende estender o seu visto pode dirigir-se ao centro da imigração e solicitar tal, que normalmente será concedido mediante um pagamento. Por outro lado se uma pessoa é "apanhada" no aeroporto tendo ultrapassado um dia pode sair sem problemas e se forem dois dias paga, no local, uma multa de 500 baht (12 euros) e deixa o país sem problemas. Acontece que na maioria dos casos dos ocidentais deixam acabar o dinheiro, desleixam-se em tudo e acabam numa cela à espera que alguém da família envie dinheiro para poderem sair do país. Há contudo muitos que nem sequer têm família no país de origem ou quando a têm a família simplesmente não quer saber deles e por ali ficam até ser encontrada uma solução. Um dos "residentes" há um ano é um cidadão inglês de provecta idade, doente, sem dinheiro cá ou em Inglaterra, onde a família o não quer e portanto sem solução. Não pode ser expatriado contra vontade nem pode ser libertado pois não tem condições para viver aqui no país.

Voltando à visita a primeira impressão que se tem é de que as instalações são bastante razoáveis. Não é de esperar luxo mas são muito melhores do que em muitos lugares que já visitei. Hoje havia 1.092 detidos de inúmeras nacionalidades e como se pode compreender o espaço por vezes é escasso mas é interessante ver como se organizam os detidos e como são capazes de saber conviver com a situação.

Os norte-coreanos, gente que sabe que normalmente após uns meses ali acabam sendo aceites ou pela Coreia do Sul ou pelos Estados Unidos, têm as duas celas onde se encontram os homens em estado impecável de limpeza e arrumação. Eventualmente sentem-se melhor ali, e pelo menos com fundada esperança, do que no seu passado e parecem aceitar este hiato na vida muito bem. O oposto se passa nas zonas que acolhe os ocidentais e os africanos. Pouco cuidada, mal cheirosa e como me disseram com frequentes conflitos entre os detidos. Os primeiros muito provavelmente queixam-se das condições dizendo que "se fossa na Europa não era assim". Eventualmente têm razão mas o facto é que se não tivessem violado a lei não estariam ali e portanto só se deveriam queixar deles próprios e não do sistema. Falei com uma mulher de um país da Europa que dizia estar ali há 8 meses, obviamente queixando-se das condições e da comida, porque "tinha ficado no país um dia mais", por certo tentando que tivesse pena dela e promovesse qualquer coisa em seu favor totalmente fora das minhas capacidades, deveres ou interesse. Uma mulher coreana que estava perto dela, bem pelo contrário, ao ver-nos veio saudar-nos e desejar um Bom Ano Novo Chinês. Diferenças de sentimentos bem marcantes daquilo que são os favores que a vida teve com pessoas diferentes.

Vi as crianças, que acompanham as mães detidas, a saírem para ir para a escola que existe nas instalações, a forma organizada como o sector das mulheres norte-coreanas (provavelmente o resto da família dos que estão na ala dos homens) falava com um representante da embaixada da Correia do Sul que ali estava a prestar apoio (os do Norte não vão lá), enfim vi uma cadeia, pois é disso que se trata, onde no fim são os detidos que fazem o seu dia a dia melhor ou pior visto as condições básicas serem iguais mas aceitáveis.

Uma só nota muito negativa mas essa tem não a ver com o IDC mas sim com agentes exteriores.

Disseram-me que às Segundas-feiras é o dia que entram mais detidos, na sua grande maioria homens dos países vizinhos. Perguntei porquê? Resposta simples: muitas empresas contratam mão-de-obra ilegal (cambojanos, laocianos e birmaneses) e o pagamento é normalmente feito às Segundas. Alguns patrões no Domingo chamam (compram) a polícia que vai ou à fábrica ou ao estaleiro da obra e prende todos os ilegais e assim no dia seguinte não há salários para pagar. Verdadeiro abuso de todos os direitos e exploração dos já de si desprotegidos imigrantes ilegais.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Abhisit - PAD

O gabinete reúne-se hoje. Para além do tema quente das multas que as incumbentes no sector das telecomunicações pretendem impor aos operadores móveis, no valor de mais de 2 mil milhões de US Dólares, invocando irregularidades cometidas durante os governos de Thaksin Shinawatra e que ainda irá fazer correr muita tinta, o governo vai debruçar-se sobre o assunto – conflito com o Camboja.

Abhisit está fortemente pressionado pelo PAD e pela frente Patriótica. Estes últimos interpuseram uma acção penal contra o PM e outros ministros acusando-os de "traição à pátria" visto no entender do grupo o governo, através da sua negligência, deixa que o vizinho "roube" território nacional.

Num primeiro esforço Abhisit conseguiu que o Camboja retirasse as placas, uma dizendo serem os tailandeses uns invasores e outra "aqui é Camboja". Posteriormente tentou estabelecer uma ponte com o PAD dizendo que ambos têm o mesmo objectivo que é defender o país mas eventualmente haverá diferente informação pelo que apelou ao grupo amarelo que se sentasse á mesa e partilhasse com o governo a informação que têm de que os terrenos em questão "são tailandeses". A esta última responderam que nada havia a falar e que Abhisit a única coisa que tinha afazer era aceitar os pedidos do PAD.

Agora o governo veio, através de um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, reafirmar a intenção de resolver o conflito através dos instrumentos legais internacionais e solicitar ao país vizinho que retire as bandeiras cambojanas que flutuam por cima de um pagode situado na zona em disputa. Os cambojanos já responderam considerando tal uma afronta e portanto não retiram as bandeiras.

O pior estava para vir quando ontem o Ministro da Defesa tailandês, o General Pravit Wonsuwon, dá uma "bofetada" no PM dizendo: "os cambojanos já retiraram as placas. O que é que quer mais (referindo-se ao PM)?" para continuar com o seguinte comentário: "parece querer reduzir a pressão doméstica e tenta fortalecer a sua imagem como Hun Sem mas no fim quem sofre somos nós (soldados) que somos colocados numa situação difícil". Para além do ministro o comandante da 2ª Região militar que responde pela zona afirma também "o Camboja não é uma criança ao qual se ordena para fazer isto ou aquilo".

A clara distanciação do comando militar da forma como Abhisit está a tentar lidar com um problema que na realidade é mais do foro da política doméstica e da inabilidade de alguns no governo em lidar com os amarelos do PAD, é um assunto a seguir com extrema atenção.

Já várias vezes referi, e assim acontece sempre, os militares dos dois países tem uma excelente relação e sabem bem, apesar de uma ou outra esporádica escaramuça, que as disputas não se resolvem à morteirada. Têm sido sempre eles a terem as portas abertas dos quartéis de um e de outro lado da fronteira.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Abhisit e os Media

Mais uma vez aproveito os "cartoons" para ilustrar o sentimento corrente no país.

A manifestação amarela continua, contudo sem chame nem rumo. É quase generalizada a opinião de que o movimento está a lutar pela sua sobrevivência e o fim-de-semana não conseguiu ver o número de manifestantes a crescer, bem pelo contrário. Mesmo assim mantêm-se desafiantes e determinados na sua causa ao ponto do General Chamlong ter recusado qualquer iniciativa do PM Abhisit para diálogo afirmando que a única coisa que o PM teria de fazer era responder positivamente aos pedidos do PAD.
Abhisit, para além de anunciar a intenção de dialogar, pensava ter apaziguado as "tropas" com a remoção da placa marcando o território feita pelos cambojanos mas o facto de estes terem substituído a dita placa por bandeiras ainda piorou a situação pois tornou-se mais evidente a "reclamação territorial e de soberania". Agora Phnom Penh reage ao pedido de Abhisit para a remoção das bandeiras classificando-o "provocativo".

De igual modo os vermelhos, que estão, no momento, a ganhar apoio com a forma cuidada como têm mostrado os seus "dentes", vão-se organizando e continuando as suas actividades tendo já marcado e anunciado o calendário para os próximos tempos.

Outro dos sectores atento são os militares e uma vez mais correm os rumores de um golpe de estado o que de um ponto de vista meramente estatístico está correcto já que desde que há monarquia constitucional no país há um golpe de estado em média cada 4 anos e o último foi em 2006. É uma análise profundamente rudimentar mas com alguma lógica se é que golpes de estado fazem alguma lógica.
Abhisit entretanto esteve pressente no Fórum de Davos e numa entrevista ao correspondente da Bloomberg na Tailândia reafirmou a sua intenção de convocar eleições deixando no ar a ideia de que poderia ser um pouco mais cedo do que aquilo que se previa e, se assim for, poderemos vir a ter eleições no início do segundo trimestre do ano.

Entretanto os dois "cartoons" que hoje se publicam no Bangkok Post e no The Nation mostram bem a forma como muitos vêm o PM que na realidade luta diariamente pela própria sobrevivência no meio de tantos que tão pouco o consideram e nele confiam.